Desde a origem do mundo, o bem e o mal, em luta incessante e permanente, pleiteiam o seu domínio. Sem dúvida, os dois princípios opostos, inerentes à natureza do homem, andam sempre com ele de companhia; mas segundo as resistências e obstáculos, o favor e a indulgência que encontram, ora prepondera o mal, ora o bem, revelando-se sob aspectos diferentes, e sofrendo várias modificações, conforme os tempos e os lugares, as sociedades em massa, ou os indivíduos isolados sobre que atuam.
A história do gênero humano é a confirmação plena desta verdade.
O obscuro canto do mundo que habitamos não podia escapar à sorte comum, e a época, que nos coube atravessar, é uma daquelas em que o mal tem decidida preponderância; não principalmente o mal terrível e atroz, o sangue, o incêndio, as devastações e os extermínios, cuja narração enche tantas vezes as páginas mais grandiosas e formidáveis da história; sim o mal vil e desprezível, o lodo, a baixeza, a degradação, a corrupção, a imoralidade, toda a casta de vícios enfim, tormento inevitável dos ânimos generosos que os cegos caprichos do acaso designaram para espectadores destas cenas de opróbrio e de dor.
João Francisco Lisboa
(João Francisco Lisboa nasceu no dia 22 de Março de 1812. Morreu em 1863.)
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quarta-feira, 22 de março de 2017
terça-feira, 22 de março de 2016
João Francisco Lisboa
Já um mês ou mais antes do dia da milagrosa senhora, começa a azáfama da sua festa; as belas e os elegantes perdem o sono, imaginando nos meios de melhor ataviar-se. Que receios, sobressaltos e angústias nesta amável classe de consumidores, e sobretudo na classe embezerrada dos fornecedores, pela só demora de alguns dias na chegada dos navios que trazem no seu bojo os chapéus, as luvas, os vestidos, as quinzenas, as cassas, as sedas, as plumas, as rendas, as fitas, as flores, as pomadas, os cheiros, e todos os mais gêneros enfim que dão vida e saúde às lojas, e entisicam as algibeiras dos fregueses! Como discorrem em todos os sentidos pelas ruas e travessas, como invadem todas as lojas, as pretas, as cafuzas, as mulatas, sobraçando peças, livros de amostras, e caixas e mais caixas de dourado papelão, com que vão incessantes de um lado para outro, sem conseguirem satisfazer o gosto esquisito ou requintado das caprichosas senhoritas, a quem a emulação e a competência tornam mais difíceis e impertinentes! Os sapateiros, alfaiates, costureiras, e modistas não têm mãos a medir; e a urgente e pesada tarefa abrange ordinariamente todo o curso das novenas, e só expira com o último dia da festa. O leitor sisudo e imparcial, mormente o que tem família, terá sem dúvida e por muitas vezes feito sérias reflexões sobre esta deliciosa calamidade, e sobre as suas imediatas conseqüências em relação à economia pública e privada.
"A Festa de Nossa Senhora dos Remédios", João Francisco Lisboa
(João Francisco Lisboa nasceu no dia 22 de Março de 1812. Morreu em 1863.)
"A Festa de Nossa Senhora dos Remédios", João Francisco Lisboa
(João Francisco Lisboa nasceu no dia 22 de Março de 1812. Morreu em 1863.)
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