1. O bispo católico
Januário Torgal Ferreira mijou fora do penico. Umas pinguinhas. O homem tem 74 anos anos, acontece. Esparrinhou na forma, mas acertou em cheio no conteúdo.
2. Torgal Ferreira disse o que milhões de portugueses pensam, dizem e escrevem. Eu costumo pensar, dizer e escrever o que ele disse. Sou católico, mas, embora tenha ido aos treinos, não sou bispo. Portanto eu posso.
3. Virgens e talibãs do PSD, sentinelas de serviço na blogosfera, caíram em cima do bispo com quanta força tinham à mão - porque eles também podem. Aceito: é o papel deles como o meu. Higiénico.
4. Já a lapidação ia a meio quando dei fé que os entusiasmados arremessadores de pedras se haviam esquecido de desmentir Torgal Ferreira, coisa de nada. Era matá-lo, porque o homem gosta de umas comezainas e dá-se com perigosos "socialistas". Disso o acusam e só. Começo a temer pela minha própria vida.
5. Mas se é isto que têm para apresentar contra o bispo, que se calhar também bebe uns copos fora das refeições, então os seus acusadores melhor fariam se fossem à merda.
6. Não percebo porque é que Torgal Ferreira não pode dizer o que disse por ser bispo católico. Do género: tudo o que o gajo diz é verdade, mas devia era estar caladinho.
7. Estou farto de bispos sacristas que só dizem amém.
8. A Hierarquia católica portuguesa ficou envergonhada com o que o bispo Torgal Ferreira disse. E desmarcou-se imediatamente. Manuel Morujão, porta-voz da Conferência Episcopal, fez até questão de frisar à rádio
Antena 1, com assinalável persistência e deselegância, que isto são apenas "declarações pessoais de um certo senhor bispo", nas quais a Igreja "naturalmente" não se revê.
9. Há coisa de dois mil anos, contam os Evangelhos, um certo Senhor Jesus Cristo chegou a usar a força física para expulsar, a chicote, os vendilhões do templo. Um determinado Senhor Jesus Cristo que não descansou enquanto não fez a folha a escribas e fariseus hipócritas, aos quais chamava raça de víboras e sepulcros branqueados. Que era o que naquele tempo se chamava (e os exegetas não me deixarão mentir) aos malabaristas políticos dos "jogos atrás da cortina, habilidades e corrupção". Era como se um certo Senhor Jesus Cristo dissesse: "Eu não acredito nestes tipos, em alguns destes
tipos, porque são equívocos, porque lutam pelos seus interesses, porque
têm o seu gangue, porque têm o seu clube, porque pressionam a
comunicação social".
10. Às vezes dá jeito à Hierarquia da Igreja Católica portuguesa fazer doutrina com este Jesus Cristo musculado. Desta vez não.