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quarta-feira, 20 de maio de 2020

J. G. de Araújo Jorge 3

Freira

Em teu calmo semblante e em teu olhar parado
há perdido - bem sei - um mistério qualquer...
- quem sabe se pecaste... e se foi teu pecado
que te fez esquecer que és bela e que és mulher...


Hoje és santa... O passado passou - é passado...
- dele já não terás uma ilusão sequer,
e o amor que se tornou funesto e amargurado
sepultas no silêncio... e em teu árduo mister...


Mais à frente está a vida... a vida humana e bela!
- teu presente é uma prece; teu passado: um poema;
teu futuro: um rosário, um altar, uma cela...


Evadida do mundo - ao ver-te, à luz do dia
- não sei se te admiro a renúncia suprema
ou se lastimo a tua imensa covardia!


J. G. de Araújo Jorge 

(J. G. de Araújo Jorge nasceu no dia 20 de Maio de 1914. Morreu em 1987.)

segunda-feira, 20 de maio de 2019

J. G. de Araújo Jorge 2

Volúpia

Quisera te associar à pureza e à candura
quando pensasse em ti... Mas a emoção, teimosa,
transforma sem querer toda a minha ternura
numa estranha lembrança ardente voluptuosa...


Não poderei dizer apenas que és formosa
quando a própria beleza em ti se transfigura,
- e pela tua carne há pétalas de rosa
e no teu corpo há um canto fresco de água pura!


Um sincero pudor vislumbro em teus enleios,
mas se disser que te amo com pureza, eu minto,
- no olhar trago tatuada a visão de teus seios...


E em vão tento associar-te ao céu, à fonte, à flor!
Quando falo de ti, penso em teu corpo, e sinto
que ainda estremece em mim teu último estertor!


"Poemas do Amor Ardente", J. G. de Araújo Jorge

(J. G. de Araújo Jorge nasceu no dia 20 de Maio de 1914. Morreu em 1987.)

sábado, 20 de maio de 2017

J. G. de Araújo Jorge

E o resto é silêncio

E então ficamos os dois em silêncio, tão quietos
como dois pássaros na sombra, recolhidos
ao mesmo ninho,
como dois caminhos na noite, dois caminhos
que se juntam
num mesmo caminho...

Já não ouso... já não coras...
E o silêncio é tão nosso, e a quietude tamanha
que qualquer palavra bateria estranha
como um viajante, altas horas...
 
Nada há mais a dizer, depois que as próprias mãos
silenciaram seus carinhos...
Estamos um no outro
como se estivéssemos sozinhos...
 
J. G. de Araújo Jorge

(J. G. de Araújo Jorge nasceu no dia 20 de maio de 1914. Morreu em 1987.)