| Foto Hernâni Von Doellinger |
Este é um documento histórico. Os coelhos estão de volta ao Parque da Cidade do Porto. Pelo menos um, e vou chamar-lhe Sebastião. D. Sebastião. Admito que o registo fotográfico até pode ser fatela e profissionalmente criticável, mas é preciso que se note que foi conseguido com risco da própria vida. Da minha, que me faz uma certa diferença e estou aqui que ainda tremo. Por outro lado, espero que seja devidamente valorizada a reserva deontológica com que apresento à ciência e ao mundo este inestimável instantâneo: D. Sebastião está de costas, não lhe mostro a cara; da maneira que as coisas andam, com a razia que por lá vai, expô-lo era assinar-lhe a certidão de óbito.
Não sei se Rui Rio leu a minha carta aberta ou se a Gulbenkian despachou o meu pedido. Não sei se o Sebastião é o último sobrevivente do coelhocídio perpetrado no Parque ou se é o primeiro de um repovoamento que se impunha. Fundamental é arranjar-lhe o mais rapidamente possível uma coelha. Como é do conhecimento geral, os coelhos são lixados para o truca-truca, levam tudo à frente. E, à falta de uma fêmea da mesma espécie, temo que o nosso Desejado, em dia de acrisolado tesão, acabe por acoplar-se, por exemplo, a uma cisna, que as há no Parque oferecidas e mais que as mães, e sabe-se lá que bicho sai dali depois.
A minha demanda está por ora terminada. Não procuro prémios (de todo merecidos, aliás), basta-me o consolo do dever cumprido. E agradeço que me chamem para a próxima arrozada.