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sexta-feira, 16 de março de 2012

Há um coelho no Parque

Foto Hernâni Von Doellinger

Este é um documento histórico. Os coelhos estão de volta ao Parque da Cidade do Porto. Pelo menos um, e vou chamar-lhe Sebastião. D. Sebastião. Admito que o registo fotográfico até pode ser fatela e profissionalmente criticável, mas é preciso que se note que foi conseguido com risco da própria vida. Da minha, que me faz uma certa diferença e estou aqui que ainda tremo. Por outro lado, espero que seja devidamente valorizada a reserva deontológica com que apresento à ciência e ao mundo este inestimável instantâneo: D. Sebastião está de costas, não lhe mostro a cara; da maneira que as coisas andam, com a razia que por lá vai, expô-lo era assinar-lhe a certidão de óbito.
Não sei se Rui Rio leu a minha carta aberta ou se a Gulbenkian despachou o meu pedido. Não sei se o Sebastião é o último sobrevivente do coelhocídio perpetrado no Parque ou se é o primeiro de um repovoamento que se impunha. Fundamental é arranjar-lhe o mais rapidamente possível uma coelha. Como é do conhecimento geral, os coelhos são lixados para o truca-truca, levam tudo à frente. E, à falta de uma fêmea da mesma espécie, temo que o nosso Desejado, em dia de acrisolado tesão, acabe por acoplar-se, por exemplo, a uma cisna, que as há no Parque oferecidas e mais que as mães, e sabe-se lá que bicho sai dali depois.
A minha demanda está por ora terminada. Não procuro prémios (de todo merecidos, aliás), basta-me o consolo do dever cumprido. E agradeço que me chamem para a próxima arrozada.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Um mecenas para os coelhos

O banqueiro Artur Santos Silva, novo homem-forte da Fundação Gulbenkian, andava ontem no Parque da Cidade do Porto a desmoer os excessos natalícios. Espero que tenha saído de lá como o aço (tendo em conta os seus bem conservados 70) e sobretudo sensibilizado para a questão fundamental que me aflige mas que todos à minha volta pretendem iludir, que é exactamente esta: onde estão os coelhos?
Eu parece-me grave que ninguém queira saber do que aconteceu aos coelhos do Parque da Cidade, que eram às centenas e desapareceram, como que por artes mágicas e negras, duma noite para o dia. Atafulhados em assuntos e iniciativas culturais até às orelhas, o presidente Rui Rio e a Câmara do Porto ignoram olimpicamente as minhas sucessivas e lancinantes denúncias, estimando porventura que este é um assunto de lana-caprina. Mas não é. Lã de cabra é uma coisa, pele de coelho é bem outra. As jotas dos partidos moinantes, sempre atesoadas para agarrarem com ambas as mãos as temáticas fracturantes, têm esta aqui tão jeitosa e dada por mim praticamente de graça, mas viram-me as costas e mandam-me foder. E até o Bloco de Esquerda, amiguinho dos animais como não há, só se preocupa com os coelhos se eles tiverem cornos e forem toureados no Campo Pequeno, em Lisboa. Coelhos grandes, os chamados coelhões!
Havia a hipótese Felícia Cabrita, famosa jornalista de investigação que podia fazer luz sobre o caso. Luz do Sol. Cheguei a pensar que a Cabrita, até por solidariedade onomática, quisesse saber dos coelhos. Mas nada. E o Pedro Passos, o de São Bento, devia também fazer alguma coisa, quanto mais não fosse por uma questão de preservação de linhagem, mas não mexeu nem um dedo. Coelho por coelho, um destes dias é ele quem desaparece e eu ainda me vou rir.
Para mim, houve coelhocídio no Parque, massacre em massa. Ou, o que é mais provável, em arrozada. E eu não descansarei enquanto não souber toda a verdade. O mistério dos coelhos desaparecidos tem que ser resolvido. Artur Santos Silva pode e deve ajudar a resolvê-lo. É esta a minha esperança desde ontem. O que a memória dos coelhos do Parque da Cidade do Porto merece, exige e estava a precisar era mesmo de um mecenas assim à medida do homem do BPI.
Faço aqui o apelo ao novo presidente da Gulbenkian: que vá aos, graças a Deus, fundos sem fundo da fundação e retire de lá uma qualquer-coisinha que dê e sobre para reunir e manter uma equipa multidisciplinar que investigue, estude a esclareça de uma vez por todas e pelo tempo que for preciso, quanto mais tempo melhor, a coelhal problemática. Ande lá, não lhe custa nada, reúna essa gente, senhor doutor! Eu estou de vago, posso ser o primeiro.