O meu batismo
Quis alegre surgir pela manhã
Do dia de hoje a procurar alguém
Que quisesse a alegria honesta e sã
Que estas páginas trêfegas contêm.
Fugindo ao nosso eterno rã-me-rã
Busquei um nome que casasse bem
Aos gostos de uma folha folgazã
E a meu próprio aqui dou meu parabém!
Lembraram-me diversos, mas nenhum
Deles, não sei por que, pude achar bom
E quase estive a batizar-me Pum! -
Mas passa um automóvel. Pego o som:
- Fan-fan! - Fen-fen! - Fin-fin! - Fon-fon! Fun-fun!
De fan-fen-fin-fon-fun, quis ser Fon-Fon!
"Obra Reunida", Emílio de Meneses
(Emílio de Meneses nasceu no dia 4 de Julho de 1866. Morreu em 1918.)
Mostrar mensagens com a etiqueta Emílio de Meneses. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Emílio de Meneses. Mostrar todas as mensagens
quarta-feira, 4 de julho de 2018
terça-feira, 4 de julho de 2017
Emílio de Meneses 3
Germinal
Passou. A vida é assim: é o temporal que chega,
Ruge, esbraveja e passa, ecoando, serra a serra,
No furioso raivar da indômita refrega
Que as montanhas abala e os troncos desenterra.
Mas o pranto, afinal, que essa cólera encerra
Tomba: é a chuva que cai e que a planície rega;
E a cada gota, ali, cada gérmen se apega
Fecundando, a minar, toda a alagada terra.
Também o coração do convulsivo aperto
Da dor e das paixões, das angústias supremas,
Sente-se livre, após, a um grande choro aberto.
Alma! já que não é mister que ansiosa gemas,
Alma! fecunda enfim nas lágrimas que verto,
Possas tu germinar e florescer em Poemas!
"Poemas da Morte", Emílio de Meneses
(Emílio de Meneses nasceu no dia 4 de Julho de 1866. Morreu em 1918.)
Passou. A vida é assim: é o temporal que chega,
Ruge, esbraveja e passa, ecoando, serra a serra,
No furioso raivar da indômita refrega
Que as montanhas abala e os troncos desenterra.
Mas o pranto, afinal, que essa cólera encerra
Tomba: é a chuva que cai e que a planície rega;
E a cada gota, ali, cada gérmen se apega
Fecundando, a minar, toda a alagada terra.
Também o coração do convulsivo aperto
Da dor e das paixões, das angústias supremas,
Sente-se livre, após, a um grande choro aberto.
Alma! já que não é mister que ansiosa gemas,
Alma! fecunda enfim nas lágrimas que verto,
Possas tu germinar e florescer em Poemas!
"Poemas da Morte", Emílio de Meneses
(Emílio de Meneses nasceu no dia 4 de Julho de 1866. Morreu em 1918.)
segunda-feira, 4 de julho de 2016
Emílio de Meneses 2
A chegada
Noite de chuva tétrica e pressaga.
Da natureza ao íntimo recesso
Gritos de augúrio vão, praga por praga,
Cortando a treva e o matagal espesso.
Montes e vales, que a torrente alaga,
Venço e à alimária o incerto passo apresso.
Da última estrela à réstia ínfima e vaga
Ínvios caminhos, trêmulo, atravesso.
Tudo me envolve em tenebroso cerco
- D' alma a vida me foge, sonho a sonho,
E a esperança de vê-la quase perco.
Mas numa volta, súbito, da estrada
Surge, em auréola, o seu perfil risonho,
Ao clarão da varanda iluminada!
"Poesias", Emílio de Meneses
(Emílio de Meneses nasceu no dia 4 de Julho de 1866. Morreu em 1918.)
Noite de chuva tétrica e pressaga.
Da natureza ao íntimo recesso
Gritos de augúrio vão, praga por praga,
Cortando a treva e o matagal espesso.
Montes e vales, que a torrente alaga,
Venço e à alimária o incerto passo apresso.
Da última estrela à réstia ínfima e vaga
Ínvios caminhos, trêmulo, atravesso.
Tudo me envolve em tenebroso cerco
- D' alma a vida me foge, sonho a sonho,
E a esperança de vê-la quase perco.
Mas numa volta, súbito, da estrada
Surge, em auréola, o seu perfil risonho,
Ao clarão da varanda iluminada!
"Poesias", Emílio de Meneses
(Emílio de Meneses nasceu no dia 4 de Julho de 1866. Morreu em 1918.)
sábado, 4 de julho de 2015
Emílio de Meneses
Noite de insônia
Este leito que é o meu, que é o teu, que é o nosso leito,
Onde este grande amor floriu, sincero e justo,
E unimos, ambos nós, o peito contra o peito.
Ambos cheios de anelo e ambos cheios de susto;
Este leito que aí está revolto assim, desfeito,
Onde humilde beijei teus pés, as mãos, o busto,
Na ausência do teu corpo a que ele estava afeito,
Mudou-se, para mim, num leito de Procusto!...
Louco e só! Desvairado! A noite vai sem termo
E, estendendo, lá fora, as sombras augurais,
Envolve a Natureza e penetra o meu ermo.
E mal julgas talvez, quando, acaso, te vais,
Quanto me punge e corta o coração enfermo
Este horrível temor de que não voltes mais!...
"Poesias", Emílio de Meneses
(Emílio de Meneses nasceu no dia 4 de Julho de 1866. Morreu em 1918.)
Este leito que é o meu, que é o teu, que é o nosso leito,
Onde este grande amor floriu, sincero e justo,
E unimos, ambos nós, o peito contra o peito.
Ambos cheios de anelo e ambos cheios de susto;
Este leito que aí está revolto assim, desfeito,
Onde humilde beijei teus pés, as mãos, o busto,
Na ausência do teu corpo a que ele estava afeito,
Mudou-se, para mim, num leito de Procusto!...
Louco e só! Desvairado! A noite vai sem termo
E, estendendo, lá fora, as sombras augurais,
Envolve a Natureza e penetra o meu ermo.
E mal julgas talvez, quando, acaso, te vais,
Quanto me punge e corta o coração enfermo
Este horrível temor de que não voltes mais!...
"Poesias", Emílio de Meneses
(Emílio de Meneses nasceu no dia 4 de Julho de 1866. Morreu em 1918.)
Subscrever:
Mensagens (Atom)