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domingo, 6 de maio de 2018

Anjo da guarda, minha companhia

Todas as noites. A nossa mãe pegava em nós - na Nanda, no Nelo e em mim - e colocava-nos de joelhos e mãos postas, virados para a parede. Na parede do quarto da nossa mãe, por cima da cama de casal, estava pendurada uma daquelas gravuras do anjo da guarda. Rezávamos: Anjo da guarda, minha companhia, guardai a minha alma de noite e de dia.

(Morávamos na casinha amarela do Santo Velho. O quarto da nossa mãe, logo à entrada, era também a sala, o consultório da rua inteira. Eu era então o mais novo e os mimos eram todos para mim. Os mimos que a pobreza honrada permitia. Umas senhoras da Granja que trabalhavam no Centro de Saúde e passavam pelo Santo diziam que eu "até a chorar era bonito" - contava-me a minha mãe, cheia de vaidade, fazendo-me festinhas nos caracóis, e eu gostava. Quando a minha mãe se zangava comigo - e eu enchia-a de razões para isso -, dizia-me que eu tinha sido deixado lá em casa pelos ciganos...
Depois nasceu o Lando e acabaram-se-me as mordomias.)

Todas as noites. Após a oração ao anjo da guarda e o sinal-da-cruz feito "sem aldrabices", íamos para o nosso quartinho de duas camas, uma para a Nanda e a maior para o Nelo e para mim. A nossa mãe deitava-se enfim, exausta e nós não sabíamos, e ligava o rádio na Emissora Nacional. Dava teatro. Do lado de cá do tabique, eu, o Nelo e a Nanda pedíamos "mais alto". Também queríamos. (Ou)víamos silentes e na maior das comoções, porque aquelas histórias não eram para brincadeiras. Interrompíamos apenas para um que outro pedido de esclarecimento acerca da senhora que fazia a vida negra ao senhor e que, todos concordávamos, era "uma cabra".
O teatro terminava, vinha a ficha técnica, mas a nossa mãe só desligava depois do "Samuel Dinis ensaiou", que era mesmo o fim, e o rádio dizia "Denis". Trocávamos boas-noites dum lado para o outro do tabique. "Agora vamos dormir", mandava a nossa mãe, e nós apertávamo-nos aos cobertores, contentes pela soirée e mortinhos por obedecer.

Todas as noites. Cinco ou dez minutos passados, a minha mãe dava um toquezinho na parede e perguntava, numa voz de embalar:
- Estais a dormir?
- Eu estou - respondia sempre eu.
- Lindo menino - dizia a minha mãe. E eu adormecia feliz.

São mais que as mães

Filho da mãe
Era filho da mãe todos os dias. Mas num dia em especial, uma vez por ano, fazia questão.

Mãe há só uma
Chamavam-lhe "filho desta e daquela", "filho de muitas mães". Ele defendia-se: - Mãe há só uma...

Pai só há um
"Pai só há um", lamentou-se o professor-ensaiador, espreitando pela frincha da cortina a plateia esgotada do teatrinho escolar. "O resto é tudo mães. Galinhas"...

É muito triste ser órfão...
O banqueiro corrupto e multimilionário ficou órfão aos 73 anos. Disseram-lhe: "Quem não tem mãe não tem nada". Ligou logo para a Suíça.

Vai chamar mãe a outra!...

- Tcharam! Feliz Dia da Mãe!... (apitos, confetes e serpentinas)
- Boa noite.
- É dia, mãe. Dia da Mãe, mãe! Parabéns!
- Igualmente. Você quem é?
- Eu? Então não sabe quem eu sou, mãe?
- Sei.
- Quem é que eu sou, mãe?
- Não sei.
- Sou o seu filho, mãe!
- Que horas são?
- Sou o seu filho, mãe. Lembra-se? O Tó! Tó!!
- Totó?
- O Tó, mãe, o seu filho...
- Eu não tenho filhos...
- Tem, mãe. Eu sou o Tó!
- Tó?
- António, mãe. António!
- O meu filho chamava-se António.
- Sou eu, mãe. Sou o António...
- Que horas são?
- E esta é a Lu, mãe, a minha mulher, a sua nora.
- Agora vou dormir.
- Olhe para a sua nora, porra! É todos os anos a mesma merda, mãe...
- Que horas são?
- Ó mãe, olhe para os seus netos, caralho! Ó Bi, dá o desenho à bó.
- Boa noite.
- É dia, mãe, são onze da manhã.
- Onde é que eu estou?
- Está no lar, mãe.
- Em casa?
- No seu lar, mãe. Já lhe expliquei mil vezes que eu e a Lu não podemos, temos a nossa vida, e a vida é assim. Mas este lar é bom. Custa-nos a sua reforma quase toda, mas é muito bom...
- És o António?
- Sou, mãe. Sou o António.
- Chama o teu pai, que eu preciso de urinar.
- A pai já morreu, mãe. Quantas vezes já lhe disse? O pai morreu...
- Quero ir para casa.
- A mãe está aqui muito bem, não está, Lu?

(ouve-se um soluço)

- Está a chorar porquê, mãe?
- O pai morreu...
- Foi há vinte anos, mãe. Há vinte anos que não saímos disto, sempre a mesma choradeira. Deixe lá o pai em paz. Hoje é Dia da Mãe...
- O pai morreu...
- Nunca se pode falar consigo, mãe.
- Boa noite.
- Estraga sempre o ambiente, mãe.
- Que horas são?
- Olhe, nós vamos embora, mãe. Eu e a Lu temos mais que fazer e os meninos precisam de apanhar ar. Para o ano voltamos cá, se Deus quiser, mas agora vamos, mãe...
- Ide, ide, meus filhos. Da puta. Ide chamar mãe a outra... (cai o pano)

P.S. - Escrevi este texto para um Dia do Pai. Mas a vida é mesmo assim, não é?...