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sábado, 25 de julho de 2020

Ternura, de Vinicius de Moraes

Ternura

Eu te peço perdão por te amar de repente
Embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos
Das horas que passei à sombra dos teus gestos
Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
Das noites que vivi acalentado
Pela graça indizível dos teus passos eternamente fugindo
Trago a doçura dos que aceitam melancolicamente.
E posso te dizer que o grande afeto que te deixo
Não traz o exaspero das lágrimas nem a fascinação das promessas
Nem as misteriosas palavras dos véus da alma...
É um sossego, uma unção, um transbordamento de carícias
E só te pede que te repouses quieta, muito quieta
E deixes que as mãos cálidas da noite encontrem sem fatalidade o olhar extático da aurora.


Vinicius de Moraes

(Hoje, 25 de Julho, o Brasil celebra o Dia Nacional do Escritor, chamado também Dia do Escritor Brasileiro)

quarta-feira, 25 de julho de 2018

Dia do Escritor Brasileiro

Positivamente, meu irmão foi acima de tudo um torturado. Sua tortura seria interessante se eu a explorasse com critério - mas jamais me preocupei com problemas do espírito. Belo para mim é um bife com batatas fritas ou um par de coxas macias. Não sou lido tampouco. A única atração que tive por livro limitou-se à ilustração de um tratado de educação sexual que o vigário do Lins fez o pai comprar para nosso espiritual proveito. Só creio naquilo que possa ser atingido pelo meu cuspe. O resto é cristianismo e pobreza de espírito.

Carlos Heitor Cony, "O Ventre"

(Hoje, 25 de Julho, o Brasil celebra o Dia Nacional do Escritor, chamado também Dia do Escritor Brasileiro)

terça-feira, 25 de julho de 2017

A máquina do mundo, de Drummond

A máquina do mundo

E como eu palmilhasse vagamente
uma estrada de Minas, pedregosa,
e no fecho da tarde um sino rouco

 
se misturasse ao som de meus sapatos
que era pausado e seco; e aves pairassem
no céu de chumbo, e suas formas pretas

 
lentamente se fossem diluindo
na escuridão maior, vinda dos montes
e de meu próprio ser desenganado,

 
a máquina do mundo se entreabriu
para quem de a romper já se esquivava
e só de o ter pensado se carpia.

 
Abriu-se majestosa e circunspecta,
sem emitir um som que fosse impuro
nem um clarão maior que o tolerável

 
pelas pupilas gastas na inspeção
contínua e dolorosa do deserto,
e pela mente exausta de mentar

 
toda uma realidade que transcende
a própria imagem sua debuxada
no rosto do mistério, nos abismos.

 
Abriu-se em calma pura, e convidando
quantos sentidos e intuições restavam
a quem de os ter usado os já perdera

 
e nem desejaria recobrá-los,
se em vão e para sempre repetimos
os mesmos sem roteiro tristes périplos,

 
convidando-os a todos, em coorte,
a se aplicarem sobre o pasto inédito
da natureza mítica das coisas,

 
assim me disse, embora voz alguma
ou sopro ou eco ou simples percussão
atestasse que alguém, sobre a montanha,

 
a outro alguém, noturno e miserável,
em colóquio se estava dirigindo:
"O que procuraste em ti ou fora de

 
teu ser restrito e nunca se mostrou,

mesmo afetando dar-se ou se rendendo,
e a cada instante mais se retraindo,

 
olha, repara, ausculta: essa riqueza

sobrante a toda pérola, essa ciência
sublime e formidável, mas hermética,

 
essa total explicação da vida,

esse nexo primeiro e singular,
que nem concebes mais, pois tão esquivo

 
se revelou ante a pesquisa ardente

em que te consumiste... vê, contempla,
abre teu peito para agasalhá-lo."

 
As mais soberbas pontes e edifícios,

o que nas oficinas se elabora,
o que pensado foi e logo atinge

 
distância superior ao pensamento,
os recursos da terra dominados,
e as paixões e os impulsos e os tormentos

 
e tudo que define o ser terrestre
ou se prolonga até nos animais
e chega às plantas para se embeber

 
no sono rancoroso dos minérios,
dá volta ao mundo e torna a se engolfar,
na estranha ordem geométrica de tudo,

 
e o absurdo original e seus enigmas,
suas verdades altas mais que todos
monumentos erguidos à verdade:

 
e a memória dos deuses, e o solene
sentimento de morte, que floresce
no caule da existência mais gloriosa,

 
tudo se apresentou nesse relance
e me chamou para seu reino augusto,
afinal submetido à vista humana.

 
Mas, como eu relutasse em responder
a tal apelo assim maravilhoso,
pois a fé se abrandara, e mesmo o anseio,

 
a esperança mais mínima - esse anelo
de ver desvanecida a treva espessa
que entre os raios do sol inda se filtra;

 
como defuntas crenças convocadas
presto e fremente não se produzissem
a de novo tingir a neutra face

 
que vou pelos caminhos demonstrando,
e como se outro ser, não mais aquele
habitante de mim há tantos anos,

 
passasse a comandar minha vontade
que, já de si volúvel, se cerrava
semelhante a essas flores reticentes

 
em si mesmas abertas e fechadas;
como se um dom tardio já não fora
apetecível, antes despiciendo,

 
baixei os olhos, incurioso, lasso,
desdenhando colher a coisa oferta
que se abria gratuita a meu engenho.

 
A treva mais estrita já pousara
sobre a estrada de Minas, pedregosa,
e a máquina do mundo, repelida,

 
se foi miudamente recompondo,
enquanto eu, avaliando o que perdera,
seguia vagaroso, de mãos pensas.


"Claro Enigma", Carlos Drummond de Andrade

(Hoje, 25 de Julho, o Brasil celebra o Dia Nacional do Escritor)