Como nada acontecesse, Segredo baixou as orelhas, dispensando-se de continuar emitindo o sinal que agora adivinhava inútil. Augusto olhava o jardim, o mais-que-olhado jardim que havia cinco anos era não apenas a sua paisagem única, mas o caos em que ele pairava como um Deus no início da Criação. Fiat Mona - e Mona foi feita. E Augusto viu que Mona era boa. Façamos Mona à minha imagem e semelhança.
Ele rompera o caos, separara terras e águas, dias e noites, criara Mona e todos os luzeiros do firmamento, os pássaros do céu e os peixes das águas. Infinitamente imperfeito, tinha orgulho de sua Criação, amava-a, mas a condenava. Sobretudo, não a perdoava.
Mona também pensava, mas em outra direção e com outro sentido: quem agora cortava o cabelo de Augusto? Ele detestava os profissionais. Nos 17 anos de vida em comum, ela é quem aparava os cabelos dele, cortando as pontas sempre de forma incompleta, ele se impacientava, nunca a deixava terminar, parecia humilhado em permanecer com a cabeça baixa, imóvel. De repente se levantava, com a toalha tirava fios de cabelo que se grudavam ao pescoço ou haviam caído nos ombros, declarava-se ótimo: "Está bem, está bem, mês que vem você corta mais."
"A Casa do Poeta Trágico", Carlos Heitor Cony
(Carlos Heitor Cony nasceu no dia 14 de Março de 1926. Morreu em 2018.)
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quinta-feira, 14 de março de 2019
quarta-feira, 25 de julho de 2018
Dia do Escritor Brasileiro
Positivamente, meu irmão foi acima de tudo um torturado. Sua tortura seria interessante se eu a explorasse com critério - mas jamais me preocupei com problemas do espírito. Belo para mim é um bife com batatas fritas ou um par de coxas macias. Não sou lido tampouco. A única atração que tive por livro limitou-se à ilustração de um tratado de educação sexual que o vigário do Lins fez o pai comprar para nosso espiritual proveito. Só creio naquilo que possa ser atingido pelo meu cuspe. O resto é cristianismo e pobreza de espírito.
Carlos Heitor Cony, "O Ventre"
(Hoje, 25 de Julho, o Brasil celebra o Dia Nacional do Escritor, chamado também Dia do Escritor Brasileiro)
Carlos Heitor Cony, "O Ventre"
(Hoje, 25 de Julho, o Brasil celebra o Dia Nacional do Escritor, chamado também Dia do Escritor Brasileiro)
quarta-feira, 14 de março de 2018
Carlos Heitor Cony 2
A firma era próspera e prosperava, apesar do sócio: um belo homem excelente caráter, pai amantíssimo, esposo exemplar, amigo irreprochável foi o mínimo que um orador, à beira do túmulo, disse dele, no dia do enterro: "Colhidos pela brutalidade de tua morte, aqui estamos, Anselmo, para prantearmos o excelente caráter, o pai amantíssimo, o esposo exemplar, o amigo irreprochável que acabamos de perder!".
No mesmo cemitério, à beira de outro túmulo, e mais ou menos mesma hora, Ema foi sepultada e chorada quase que solitariamente: quatro coveiros a sepultaram, com suas correntes e más vontades, e o marido chorou, apesar de tudo, segundo afirmaram alguns poucos presentes que ouviram os soluços de um enterro e o discurso do outro.
À noite, apareceram-lhe em casa alguns amigos compenetrados. Conforme afirmaram mais tarde, foram à casa dele unicamente para que Figueiredo "não fizesse uma besteira".
Apesar da presença dos amigos, Figueiredo conteve-se e não cometeu besteira nenhuma. Tomou apenas um porre, como lhe convinha, e disse obscenidades a respeito da vida e de si mesmo, chamando a vida de merda e chamando-se a si mesmo de corno. O que ia de encontro aos pensamentos gerais, embora os amigos protestassem, deixa disso, Figueiredo, deixa disso!
"Babilônia! Babilônia!", Carlos Heitor Cony
(Carlos Heitor Cony nasceu no dia 14 de Março de 1926. Morreu no passado mês de Janeiro.)
No mesmo cemitério, à beira de outro túmulo, e mais ou menos mesma hora, Ema foi sepultada e chorada quase que solitariamente: quatro coveiros a sepultaram, com suas correntes e más vontades, e o marido chorou, apesar de tudo, segundo afirmaram alguns poucos presentes que ouviram os soluços de um enterro e o discurso do outro.
À noite, apareceram-lhe em casa alguns amigos compenetrados. Conforme afirmaram mais tarde, foram à casa dele unicamente para que Figueiredo "não fizesse uma besteira".
Apesar da presença dos amigos, Figueiredo conteve-se e não cometeu besteira nenhuma. Tomou apenas um porre, como lhe convinha, e disse obscenidades a respeito da vida e de si mesmo, chamando a vida de merda e chamando-se a si mesmo de corno. O que ia de encontro aos pensamentos gerais, embora os amigos protestassem, deixa disso, Figueiredo, deixa disso!
"Babilônia! Babilônia!", Carlos Heitor Cony
(Carlos Heitor Cony nasceu no dia 14 de Março de 1926. Morreu no passado mês de Janeiro.)
sábado, 6 de janeiro de 2018
Carlos Heitor Cony (1926-2018)
Daí que pensei em voltar para Itaipava. Ficar cercado pelos pinheiros que esperei crescer. O homem - qualquer homem - é uma casa habitada por um poeta que, sabendo ou não sabendo, tem um sentido trágico.
Poeta que inventa o próprio poema, poeta condenado a habitar a casa que é ele próprio, e de repente as paredes se desmancham e não é mais casa, sobrando o cão à porta, uma porta que não existe mais, o cão coberto de cinzas guardando o nada.
Poeta que inventa o próprio poema, poeta condenado a habitar a casa que é ele próprio, e de repente as paredes se desmancham e não é mais casa, sobrando o cão à porta, uma porta que não existe mais, o cão coberto de cinzas guardando o nada.
"A Casa do Poeta Trágico", Carlos Heitor Cony
(Carlos Heitor Cony nasceu no dia 14 de Março de 1926. Morreu ontem.)
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