Luís Filipe Barros não canta, não toca, que me conste, mas é uma lenda viva do
rock'n'roll. É português e da rádio, e quem não souber dele o melhor é procurá-lo na Wikipédia,
porque eu aqui não faço desenhos. Conviveu com os Pink Floyd, com os
Bon Jovi e com os Deep Purple, quase partiu uma perna ao vocalista dos
Supertramp, ensinou a aguardente aos Spandau Ballet, levou os Police ao
Jamaica, estendeu ao comprido o líder dos Clash, mas tudo começou com...
Herman José.
Anos oitenta do século passado. Luís Filipe Barros era uma das vozes da
moda e gozava do estatuto de verdadeira vedeta. "Ia aos restaurantes,
almoçava ou jantava, mas não pagava. Nos bares, bebia sempre à borla. Ia
às discotecas, aos fins-de-semana, e ainda ganhava dinheiro. Eram
realmente bons tempos...", dizia-me o famoso radialista já lá vão mais de dez anos, para um trabalho na revista 24horas.
Nas deslocações ao Norte, um dos seus companheiros de viagem costumava
ser Herman José, que também fazia o circuito das discotecas. "Íamos para
o Porto na sexta-feira e regressávamos a Lisboa no domingo à noite, a
contar notas, cada um para o seu lado, no comboio". Da primeira vez
havia em Campanhã uma pequena multidão de fãs à espera, agitando
cartazes. Luís julgava que era para o Herman, mas não, era mesmo para
ele...
O importante papel que Luís Filipe Barros desempenhava como divulgador
musical na rádio portuguesa introduzia-o na intimidade das estrelas de
rock
que visitavam Portugal ou Espanha. Uma vez, em Madrid, foi convidado
para jantar com os Pink Floyd, após concerto. Contou-me: "Eu estava
cheio de fome, queria comer o meu bife, mas os gajos andavam numa de
emagrecer e tinham marcado num restaurante japonês. Foi uma desgraça:
peixe cru e salada de violetas, naquela altura eu sabia lá o que isso
era. Mas dava para perceber que os tipos já não podiam ver o Roger
Waters. Tinha a mania que mandava em tudo, lá por o Sid Barrett ser
maluco..."
Aos Supertrump, que andavam também nos cornos da lua com o "Breakfast in
America", Luís Filipe Barros ia dando cabo dos dois concertos agendados
para Cascais. Alguém teve a infeliz ideia de organizar um jogo de
futebol entre os músicos e a equipa da chamada comunicação social. Luís,
do lado dos jornalistas, levou a coisa a sério (à séria, se lido em
Lisboa) e... ia partindo uma perna ao vocalista da banda britânica.
Confessou: "Dei uma trancada tamanha no Roger Hodgson, que quase não
havia concerto para ninguém. Fui expulso e tudo..."
Outro que levou que contar foi Joe Strummer, a voz dos Clash, num
espectáculo em que o nosso Luisinho "quase andava à pêra com um gajo da
segurança que estava com eles e tinha uma boina do IRA". Com o grupo em
palco a tocar na maior desorganização, dado o adiantado estado de
embriaguez e não só em que todos se encontravam, Strummer pediu a Luís
Filipe Barros que o ajudasse a subir ao estrado. E o radialista deu o
seu melhor: "Empurrei-o para o palco, mas quando chegou lá acima,
embalado, faltaram-lhe as pernas e ele espalhou-se ao comprido à frente
de dez mil pessoas. Foi um trambolhão monumental".
Em abono da verdade, deve dizer-se que Luís Filipe Barros tinha por
hábito desencaminhar o pessoal para os copos, no "Snob ou no Bairro
Alto", depois dos concertos. Uma noite levou o Stewart Copland a esse
baluarte do
bas-fond lisboeta que era o bar Jamaica, e o baterista dos Police gostou tanto que, bem bebido, "já estava a querer comprar aquilo..."
Outra vez o mítico fundador do aclamado programa Rock em Stock pegou nos aprumadinhos Spandau Ballet e ala até à Costa da
Caparica, para almoço. Comeram sardinhas assadas e "adoraram", porém
perderam-se pela aguardente. Emborcaram uma garrafa inteira, e desde
esse dia - recordou o Luís -, "quando davam uma entrevista à MTV, diziam
sempre que Portugal tinha a melhor bebida do mundo: o bagaço".
E enfim um extra. Luís Filipe Barros
no camarim dos Bon Jovi. "Nunca tinha visto nem nunca mais voltei a ver
uma cena assim: o baterista "Tico" Torres, em cuecas e de barrete na
cabeça, passando as calças a ferro..."
P.S. - Publicado originalmente no dia 26 de Setembro de 2017. Hoje, 13 de Julho, é Dia Mundial do Rock.