A televisão é muito importante.
Gosto de ver na televisão as redacções das televisões porque nas
redacções das televisões que dão na televisão não há cadeiras partidas.
Trabalhei em muitas e variegadas redacções, na rádio e sobretudo na
imprensa, mas nunca na redacção de uma televisão.
Nas redacções onde eu trabalhei as cadeiras eram todas mancas e
andávamos à pancada por uma que se segurasse mais ou menos. O
sobrevivente marcava a sua cadeira para toda a vida, mas quando virava
costas já ela estava debaixo do cu de outro. E andávamos outra vez à
pancada. Foi por isso que, quando chegou a altura, estávamos sem forças
para irmos às ventas dos bandalhos que fazem profissão de destruir
redacções e que têm cadeiras da televisão. Feitas de cortiça.
A televisão é muito boa porque dá na televisão. Eu gosto muito da televisão.
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domingo, 12 de dezembro de 2021
Na próxima, o Bitó tinha uma gaita
O admirável Quim Barreiros cantava, agarrado ao seu acordeão. Era a
história simples, exemplar, da mulher que entrou no comboio sem bilhete nem
dinheiro e que teve de ir "dar ao apito" com o revisor para se safar
da multa. Enquanto o Quim cantava, e como não havia universitários bêbados nas
redondezas, alguém pôs um grupo de crianças a fazer um comboiinho que passava e
repassava em fundo. Eram crianças de infantário, de creche, de
jardim-de-infância, de pré-primária, não sei como é que se diz agora.
Pequeninas, isso eram. E serviam de cenário e figurantes à cantiga do Quim,
"pó, pó, pó, o cumboio vai andar, pó, pó, pó, e vai sempre a apitar, pó,
pó, pó, eu já lhe tinha dito que para andar no cumboio tinha que dar ao
apito".
Foi há quase dez anos, na Curia. Deu na televisão em directo, para o País e mundo inteiro. Foi no programa Verão Total, da manhã da RTP1, com Sónia Araújo e Jorge Gabriel. Foi há quase dez anos e parece que só eu é que vi. Se calhar as audiências andavam certas.
Foi há quase dez anos, na Curia. Deu na televisão em directo, para o País e mundo inteiro. Foi no programa Verão Total, da manhã da RTP1, com Sónia Araújo e Jorge Gabriel. Foi há quase dez anos e parece que só eu é que vi. Se calhar as audiências andavam certas.
P.S. - Publicado originalmente no dia 24 de Julho de 2012.
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Infantilidades
O mal da programação de rádio e televisão para crianças é quando os programas são infantis.
Quando o teatro não era para brincadeiras
Todas as noites. Após a oração ao anjo da guarda e o sinal-da-cruz feito
"sem aldrabices" por ordem expressa e vigilante da nossa mãe, íamos
para o nosso quartinho de duas camas, uma cama para a Nanda e a cama
maior para o Nelo e para mim. A nossa mãe deitava-se enfim, exausta e
nós não sabíamos, e ligava o rádio na Emissora Nacional. Dava teatro. Dramalhão. Mas tudo muito a bem da Nação. Do lado de cá do tabique, eu, o Nelo e a Nanda pedíamos "mais alto".
Também queríamos. (Ou)víamos silentes e na maior das comoções, porque
aquelas histórias não eram para brincadeiras. Interrompíamos apenas
para um que outro pedido de esclarecimento acerca da senhora má e ciumosa que fazia a
vida negra ao senhor viúvo e bom que gostava da menina tísica e bela que tomava conta dos quatro filhinhos dele, senhor viúvo e bom, a qual senhora má e ciumosa, todos concordávamos com a nossa mãe, era realmente "uma cabra", embora eu não visse nisso grande defeito. Na escola já
tinha feito algumas redacções sobre "A cabra" e por isso sabia que a
cabra é um animal doméstico e serve, nomeadamente, para a nossa
alimentação, que era assim que a coisa se rematava.
O teatro terminava, vinha a ficha técnica - porventura autoria ou adaptação de Odette de Saint-Maurice, certamente as vozes de Jorge Alves, Manuel Lereno, Carmen Dolores, Rui de Carvalho, Eunice Muñoz ou Canto e Castro... nos papéis de -, mas a nossa mãe só desligava depois do "Samuel Dinis ensaiou", que era mesmo o fim, e o rádio dizia "Denis". Trocávamos boas-noites dum lado para o outro do tabique. "Agora vamos dormir", mandava a nossa mãe, e nós apertávamo-nos aos cobertores, contentes pela soirée e mortinhos por obedecer.
Todas as noites. Cinco ou dez minutos passados, a minha mãe dava um toquezinho na parede e perguntava, numa voz de embalar:
- Estais a dormir?
- Eu estou - respondia sempre eu.
- Lindo menino - dizia a minha mãe. E eu adormecia feliz. Radioso.
O teatro terminava, vinha a ficha técnica - porventura autoria ou adaptação de Odette de Saint-Maurice, certamente as vozes de Jorge Alves, Manuel Lereno, Carmen Dolores, Rui de Carvalho, Eunice Muñoz ou Canto e Castro... nos papéis de -, mas a nossa mãe só desligava depois do "Samuel Dinis ensaiou", que era mesmo o fim, e o rádio dizia "Denis". Trocávamos boas-noites dum lado para o outro do tabique. "Agora vamos dormir", mandava a nossa mãe, e nós apertávamo-nos aos cobertores, contentes pela soirée e mortinhos por obedecer.
Todas as noites. Cinco ou dez minutos passados, a minha mãe dava um toquezinho na parede e perguntava, numa voz de embalar:
- Estais a dormir?
- Eu estou - respondia sempre eu.
- Lindo menino - dizia a minha mãe. E eu adormecia feliz. Radioso.
P.S. - Publicado originalmente no dia 25 de Julho de 2014, sob o título "Anjo da guarda, minha companhia".
A chaga do trabalho infantil, que são três
O trabalho infantil é uma tragédia, uma vergonha, sobretudo se a criança
ajudar no campo os pais pobres para haver alguma comidinha à mesa.
O trabalho infantil é muito bem, um orgulho, principalmente se a criança entrar numa telenovela ou se for modelo e der na televisão (esta parte da televisão é importantíssima!), enriquecendo os pais remediados.
Depois há ainda as crianças, estas são do piorio, que, órfãs de tudo e até de tecto, fazem sapatilhas de marca para as entrevistadoras e para os entrevistadores da televisão que entrevistam as crianças que entram nas telenovelas e nas passarelas e para os babados pais, que no fim pedem recibo.
Parece que a diferença está nisto, segundo percebi uma vez no programa Sociedade Recreativa da RTP: os miúdos das telenovelas e da moda têm "agente"; os moncosos do campo, das fábricas, da rua, não.
O trabalho infantil é muito bem, um orgulho, principalmente se a criança entrar numa telenovela ou se for modelo e der na televisão (esta parte da televisão é importantíssima!), enriquecendo os pais remediados.
Depois há ainda as crianças, estas são do piorio, que, órfãs de tudo e até de tecto, fazem sapatilhas de marca para as entrevistadoras e para os entrevistadores da televisão que entrevistam as crianças que entram nas telenovelas e nas passarelas e para os babados pais, que no fim pedem recibo.
Parece que a diferença está nisto, segundo percebi uma vez no programa Sociedade Recreativa da RTP: os miúdos das telenovelas e da moda têm "agente"; os moncosos do campo, das fábricas, da rua, não.
P.S.
- Publicado originalmente no dia 23 de Outubro de 2016. Hoje, segundo domingo de Dezembro, é Dia Internacional da Criança na Rádio e Televisão.
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