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quarta-feira, 7 de março de 2018

Artur de Sales 4

Veneza

Rolam no mar azul, num temporal desfeito,
Teus barcos, teu poder, tua soberania.
Tremes de espanto e horror. E um canto de agonia
Sobe dos teus canais ao leão de torvo aspeito.

O Oriente, a coruscar de ouro e de pedraria,
Fulge-te à fronte e às mãos num derradeiro preito,
E o nardo, o incenso, a mirra ungem-te o régio leito
Em que estendes a dor do teu último dia.

Cristã, que abriste o seio ao pagão muçulmano,
Clamas contra o destino, este maldito oceano
Que o ceptro secular te espedaça nas fragas.

E o Ibero, o teu Otelo, ardendo de áureos ciúmes,
Afoga-te no leito entre raros perfumes,
Ó soberba e imortal Desdêmona das vagas! 

Artur de Sales 

(Artur de Sales nasceu no dia 7 de Março de 1879. Morreu em 1952.)

terça-feira, 7 de março de 2017

Artur de Sales 3

Lúcia

Lúcia chegou, quando do inverno o tredo
Vento agitava o coqueiral vetusto.
Vinha ofegante, e pálida de susto,
E trêmula de medo...

Ah! quanto beijo e quanto riso ledo
Deu-me o seu lábio, rúbido e venusto!
Quanto divino sentimento augusto,
Quanto infantil segredo!

Lúcia partiu... E aquele riso doce
Lúcia levou! A casa transformou-se
Num sepulcral degredo.

Se o vento agita o coqueiral vetusto,
Inda a recordo: pálida de susto
E trêmula de medo...

"Poesias", Artur de Sales

(Artur de Sales nasceu no dia 7 de Março de 1879. Morreu em 1952.)

segunda-feira, 7 de março de 2016

Artur de Sales 2

Ocaso no mar

O céu a valva azul de uma concha semelha
De que outra valva é o mar ouriçado de escamas.
No ponto de junção, o sol - molusco em chamas -
Do bisso espalha no ar a incendida centelha.

Listões de intenso anil, raias de cor vermelha,
Grandes manchas de opala, arabescos e lhamas,
Da luz todos os tons, da cor todas as gamas
Vibram na valva azul que a valva verde espelha.

Mas todo este fulgor esmaece e se apaga.
Tímido, o olhar do sol boia de vaga em vaga,
Porque uma sombra investe a sua concha enorme.

É a noite: como um polvo, insidiosa, se eleva.
Desenrola os seus mil tentáculos de treva:
E o sol, vendo-a crescer, fecha as valvas e dorme.


Artur de Sales

(Artur de Sales nasceu no dia 7 de Março de 1879. Morreu em 1952.)

sábado, 7 de março de 2015

Artur de Sales

O último...

Sonetões, sonetinhos ou sonetos,
Não cansei o leitor com versalhada
De légua e meia ou de légua de estrada
Batida de avejões rubros e pretos.

Catorze linhas só, na forma usada;
Deduzidas as duas dos tercetos,
Lidas em quatro fôlegos directos,
Um sorvo, um trago, um ai!, uma pitada...

Cada qual, sendo mau, dura mui pouco.
Se é bom, lembra um sorvete que se peça
Mignon, de creme, de baunilha ou coco.

Dobra-se a dose; mal não faz nem dura!
Sem ser pesado ao estômago e à cabeça,
Não dá lugar a sono na leitura...

Artur de Sales

(Artur de Sales nasceu no dia 7 de Março de 1879. Morreu em 1952.)