Veneza
Rolam no mar azul, num temporal desfeito,
Teus barcos, teu poder, tua soberania.
Tremes de espanto e horror. E um canto de agonia
Sobe dos teus canais ao leão de torvo aspeito.
O Oriente, a coruscar de ouro e de pedraria,
Fulge-te à fronte e às mãos num derradeiro preito,
E o nardo, o incenso, a mirra ungem-te o régio leito
Em que estendes a dor do teu último dia.
Cristã, que abriste o seio ao pagão muçulmano,
Clamas contra o destino, este maldito oceano
Que o ceptro secular te espedaça nas fragas.
E o Ibero, o teu Otelo, ardendo de áureos ciúmes,
Afoga-te no leito entre raros perfumes,
Ó soberba e imortal Desdêmona das vagas!
Artur de Sales
(Artur de Sales nasceu no dia 7 de Março de 1879. Morreu em 1952.)
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quarta-feira, 7 de março de 2018
terça-feira, 7 de março de 2017
Artur de Sales 3
Lúcia
Lúcia chegou, quando do inverno o tredo
Vento agitava o coqueiral vetusto.
Vinha ofegante, e pálida de susto,
E trêmula de medo...
Ah! quanto beijo e quanto riso ledo
Deu-me o seu lábio, rúbido e venusto!
Quanto divino sentimento augusto,
Quanto infantil segredo!
Lúcia partiu... E aquele riso doce
Lúcia levou! A casa transformou-se
Num sepulcral degredo.
Se o vento agita o coqueiral vetusto,
Inda a recordo: pálida de susto
E trêmula de medo...
"Poesias", Artur de Sales
(Artur de Sales nasceu no dia 7 de Março de 1879. Morreu em 1952.)
Lúcia chegou, quando do inverno o tredo
Vento agitava o coqueiral vetusto.
Vinha ofegante, e pálida de susto,
E trêmula de medo...
Ah! quanto beijo e quanto riso ledo
Deu-me o seu lábio, rúbido e venusto!
Quanto divino sentimento augusto,
Quanto infantil segredo!
Lúcia partiu... E aquele riso doce
Lúcia levou! A casa transformou-se
Num sepulcral degredo.
Se o vento agita o coqueiral vetusto,
Inda a recordo: pálida de susto
E trêmula de medo...
"Poesias", Artur de Sales
(Artur de Sales nasceu no dia 7 de Março de 1879. Morreu em 1952.)
segunda-feira, 7 de março de 2016
Artur de Sales 2
Ocaso no mar
O céu a valva azul de uma concha semelha
De que outra valva é o mar ouriçado de escamas.
No ponto de junção, o sol - molusco em chamas -
Do bisso espalha no ar a incendida centelha.
Listões de intenso anil, raias de cor vermelha,
Grandes manchas de opala, arabescos e lhamas,
Da luz todos os tons, da cor todas as gamas
Vibram na valva azul que a valva verde espelha.
Mas todo este fulgor esmaece e se apaga.
Tímido, o olhar do sol boia de vaga em vaga,
Porque uma sombra investe a sua concha enorme.
É a noite: como um polvo, insidiosa, se eleva.
Desenrola os seus mil tentáculos de treva:
E o sol, vendo-a crescer, fecha as valvas e dorme.
Artur de Sales
(Artur de Sales nasceu no dia 7 de Março de 1879. Morreu em 1952.)
O céu a valva azul de uma concha semelha
De que outra valva é o mar ouriçado de escamas.
No ponto de junção, o sol - molusco em chamas -
Do bisso espalha no ar a incendida centelha.
Listões de intenso anil, raias de cor vermelha,
Grandes manchas de opala, arabescos e lhamas,
Da luz todos os tons, da cor todas as gamas
Vibram na valva azul que a valva verde espelha.
Mas todo este fulgor esmaece e se apaga.
Tímido, o olhar do sol boia de vaga em vaga,
Porque uma sombra investe a sua concha enorme.
É a noite: como um polvo, insidiosa, se eleva.
Desenrola os seus mil tentáculos de treva:
E o sol, vendo-a crescer, fecha as valvas e dorme.
Artur de Sales
(Artur de Sales nasceu no dia 7 de Março de 1879. Morreu em 1952.)
sábado, 7 de março de 2015
Artur de Sales
O último...
Sonetões, sonetinhos ou sonetos,
Não cansei o leitor com versalhada
De légua e meia ou de légua de estrada
Batida de avejões rubros e pretos.
Catorze linhas só, na forma usada;
Deduzidas as duas dos tercetos,
Lidas em quatro fôlegos directos,
Um sorvo, um trago, um ai!, uma pitada...
Cada qual, sendo mau, dura mui pouco.
Se é bom, lembra um sorvete que se peça
Mignon, de creme, de baunilha ou coco.
Dobra-se a dose; mal não faz nem dura!
Sem ser pesado ao estômago e à cabeça,
Não dá lugar a sono na leitura...
Artur de Sales
(Artur de Sales nasceu no dia 7 de Março de 1879. Morreu em 1952.)
Sonetões, sonetinhos ou sonetos,
Não cansei o leitor com versalhada
De légua e meia ou de légua de estrada
Batida de avejões rubros e pretos.
Catorze linhas só, na forma usada;
Deduzidas as duas dos tercetos,
Lidas em quatro fôlegos directos,
Um sorvo, um trago, um ai!, uma pitada...
Cada qual, sendo mau, dura mui pouco.
Se é bom, lembra um sorvete que se peça
Mignon, de creme, de baunilha ou coco.
Dobra-se a dose; mal não faz nem dura!
Sem ser pesado ao estômago e à cabeça,
Não dá lugar a sono na leitura...
Artur de Sales
(Artur de Sales nasceu no dia 7 de Março de 1879. Morreu em 1952.)
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