Letreiro
Tudo o que sou o sou por obra e graça
da comoção rural que está comigo.
Foi a virtude lírica da raça
a herança que eu herdei do sangue antigo.
Foi esta voz que em minhas veias passa
e atrás da qual, maravilhado, eu sigo.
Como um licor de encanto numa taça,
assim se quer esse condão comigo.
Olhai-me: - Eu vim de honrados lavradores.
De avós e netos, sempre os meus maiores
fitaram o horizonte que hoje eu fito.
"O que estaria além da curva estreita?"
- E da pergunta, a cada instante feita,
nasceu em mim a ânsia prò infinito.
"A Epopeia da Planície", António Sardinha
(António Sardinha nasceu no dia 9 de Setembro de 1887. Morreu em 1925.)
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domingo, 9 de setembro de 2018
sábado, 9 de setembro de 2017
António Sardinha 4
No deserto
Chegaram os camelos junto ao poço,
Quando Rebeca tinha a urna cheia.
Foram momentos esses de alvoroço,
Bem raros de encontrar em terra alheia.
Também meu coração, menino moço,
Nos cardos do caminho se golpeia.
Ouço-te os passos, dentro de alma eu ouço
O eco dos teus passos sobre a areia.
Busquei-te no deserto longamente...
Como Rebeca outrora, condoída,
Surgiste, calma, na poeira ardente.
De ânfora baixa, à boca da cisterna,
Ficaste assim, para toda a tua vida,
Matando a minha sede, que é eterna!
"Chuva da Tarde", António Sardinha
(António Sardinha nasceu no dia 9 de Setembro de 1887. Morreu em 1925.)
Chegaram os camelos junto ao poço,
Quando Rebeca tinha a urna cheia.
Foram momentos esses de alvoroço,
Bem raros de encontrar em terra alheia.
Também meu coração, menino moço,
Nos cardos do caminho se golpeia.
Ouço-te os passos, dentro de alma eu ouço
O eco dos teus passos sobre a areia.
Busquei-te no deserto longamente...
Como Rebeca outrora, condoída,
Surgiste, calma, na poeira ardente.
De ânfora baixa, à boca da cisterna,
Ficaste assim, para toda a tua vida,
Matando a minha sede, que é eterna!
"Chuva da Tarde", António Sardinha
(António Sardinha nasceu no dia 9 de Setembro de 1887. Morreu em 1925.)
sexta-feira, 9 de setembro de 2016
António Sardinha 3
Versos do trinco da porta
Versos do trinco da porta
- Louvado seja o Senhor!
A casa é Deus quem ma guarda,
Ninguém a guarda melhor!
Batem os pobres à porta
- Batem com ar de humildade.
"Eu sei que é pouco, irmãozinho!
É pouco, mas de vontade!"
Quem é que a porta abriria
Com modos de atrevimento?
São coisas da criadagem!
Não foi ninguém - é o vento!
Mexem no trinco da porta.
- "Levante, faça favor!"
A entrada nunca se nega
Seja a visita quem for!
Não vês a porta batendo?
Que aragem essa que corta!
Em toda a volta do dia
Não pára o trinco da porta!
Trinco da porta caindo
Sobre a partida de alguém...
Oh, quantos vão e não voltam?!
São os que a morte lá tem!
António Sardinha
(António Sardinha nasceu no dia 9 de Setembro de 1887. Morreu em 1925.)
Versos do trinco da porta
- Louvado seja o Senhor!
A casa é Deus quem ma guarda,
Ninguém a guarda melhor!
Batem os pobres à porta
- Batem com ar de humildade.
"Eu sei que é pouco, irmãozinho!
É pouco, mas de vontade!"
Quem é que a porta abriria
Com modos de atrevimento?
São coisas da criadagem!
Não foi ninguém - é o vento!
Mexem no trinco da porta.
- "Levante, faça favor!"
A entrada nunca se nega
Seja a visita quem for!
Não vês a porta batendo?
Que aragem essa que corta!
Em toda a volta do dia
Não pára o trinco da porta!
Trinco da porta caindo
Sobre a partida de alguém...
Oh, quantos vão e não voltam?!
São os que a morte lá tem!
António Sardinha
(António Sardinha nasceu no dia 9 de Setembro de 1887. Morreu em 1925.)
quarta-feira, 9 de setembro de 2015
António Sardinha 2
Versos do trinco da porta,
- Louvado seja o Senhor!
A casa é Deus quem ma guarda,
Ninguém a guarda melhor!
Batem os pobres à porta,
- Batem com ar de humildade.
"Eu sei que é pouco, irmãozinho!
É pouco, mas de vontade!"
Quem é que a porta abriria,
Com modos de atrevimento?
São coisas da criadagem!
Não foi ninguém, - é o vento!
Mexem no trinco da porta.
- "Levante, faça favor!"
A entrada nunca se nega
Seja a visita quem for!
Não vês a porta batendo?
Que aragem essa que corta!
Em toda a volta do dia,
Não pára o trinco da porta!
Trinco da porta caindo
Sobre a partida de alguém...
Oh, quantos vão e não voltam?!
São os que a morte lá tem!
"Quando as Nascentes Despertam", António Sardinha
(António Sardinha nasceu no dia 9 de Setembro de 1887. Morreu em 1925.)
- Louvado seja o Senhor!
A casa é Deus quem ma guarda,
Ninguém a guarda melhor!
Batem os pobres à porta,
- Batem com ar de humildade.
"Eu sei que é pouco, irmãozinho!
É pouco, mas de vontade!"
Quem é que a porta abriria,
Com modos de atrevimento?
São coisas da criadagem!
Não foi ninguém, - é o vento!
Mexem no trinco da porta.
- "Levante, faça favor!"
A entrada nunca se nega
Seja a visita quem for!
Não vês a porta batendo?
Que aragem essa que corta!
Em toda a volta do dia,
Não pára o trinco da porta!
Trinco da porta caindo
Sobre a partida de alguém...
Oh, quantos vão e não voltam?!
São os que a morte lá tem!
"Quando as Nascentes Despertam", António Sardinha
(António Sardinha nasceu no dia 9 de Setembro de 1887. Morreu em 1925.)
terça-feira, 9 de setembro de 2014
António Sardinha
Velho motivo
Soneto de Jacob, pastor antigo,
- soneto de Raquel, serrana bela...
Oh! quantas vezes o relembro e digo,
pensando em ti, como se foras Ela!
O que eu servira para viver contigo,
- tão doce, tão airosa e tão singela!
Assim, distante do teu rosto amigo,
em torturar-me a ausência se desvela!
E vou sofrendo a minha pena amarga,
- pena que não me deixa nem me larga,
bem mais cruel que a de Jacob pastor!
Raquel não era dele, e sempre a via,
enquanto que eu não vejo, noite e dia,
aquela que me tem por seu senhor!
"Chuva da Tarde", António Sardinha
(António Sardinha nasceu no dia 9 de Setembro de 1887. Morreu em 1925.)
Soneto de Jacob, pastor antigo,
- soneto de Raquel, serrana bela...
Oh! quantas vezes o relembro e digo,
pensando em ti, como se foras Ela!
O que eu servira para viver contigo,
- tão doce, tão airosa e tão singela!
Assim, distante do teu rosto amigo,
em torturar-me a ausência se desvela!
E vou sofrendo a minha pena amarga,
- pena que não me deixa nem me larga,
bem mais cruel que a de Jacob pastor!
Raquel não era dele, e sempre a via,
enquanto que eu não vejo, noite e dia,
aquela que me tem por seu senhor!
"Chuva da Tarde", António Sardinha
(António Sardinha nasceu no dia 9 de Setembro de 1887. Morreu em 1925.)
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