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sábado, 9 de setembro de 2017

António Sardinha 4

No deserto

Chegaram os camelos junto ao poço,
Quando Rebeca tinha a urna cheia.
Foram momentos esses de alvoroço,
Bem raros de encontrar em terra alheia.

Também meu coração, menino moço,
Nos cardos do caminho se golpeia.
Ouço-te os passos, dentro de alma eu ouço
O eco dos teus passos sobre a areia.

Busquei-te no deserto longamente...
Como Rebeca outrora, condoída,
Surgiste, calma, na poeira ardente.

De ânfora baixa, à boca da cisterna,
Ficaste assim, para toda a tua vida,
Matando a minha sede, que é eterna!


"Chuva da Tarde", António Sardinha

(António Sardinha nasceu no dia 9 de Setembro de 1887. Morreu em 1925.)

terça-feira, 9 de setembro de 2014

António Sardinha

Velho motivo

Soneto de Jacob, pastor antigo,
- soneto de Raquel, serrana bela...

Oh! quantas vezes o relembro e digo,
pensando em ti, como se foras Ela!

O que eu servira para viver contigo,
- tão doce, tão airosa e tão singela!
Assim, distante do teu rosto amigo,
em torturar-me a ausência se desvela!

E vou sofrendo a minha pena amarga,
- pena que não me deixa nem me larga,
bem mais cruel que a de Jacob pastor!

Raquel não era dele, e sempre a via,
enquanto que eu não vejo, noite e dia,
aquela que me tem por seu senhor!


"Chuva da Tarde", António Sardinha

(António Sardinha nasceu no dia 9 de Setembro de 1887. Morreu em 1925.)