sábado, 23 de dezembro de 2017

Júlio César da Silva

Arte suprema

Tal como Pigmalião, a minha ideia
Visto na pedra, talho-a, domo-a, bato-a;
E ante os meus olhos e a vaidade fátua
Surge, formosa e nua, Galateia.


Mais um retoque, uns golpes... e remato-a;
Digo-lhe: "Fala!", ao ver em cada veia
Sangue rubro, que a cora e aformoseia...
E a estátua não falou, porque era estátua.


Bem haja o verso, em cuja enorme escala
Falam todas as vozes do universo
E ao qual também arte nenhuma iguala:


Quer mesquinho e sem cor, quer amplo e terso,
Em vão não é que eu digo ao verso: "Fala!"
E ele fala-me sempre, porque é verso.

"Arte de Amar", Júlio César da Silva

(Júlio César da Silva nasceu no dia 23 de Dezembro de 1872. Morreu em 1936.)

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