terça-feira, 16 de agosto de 2016

António Nobre 4

Meus dias de rapaz, de adolescente,
Abrem a boca a bocejar sombrios:
Deslizam vagarosos, como os rios,
Sucedem-se uns aos outros, igualmente.

Nunca desperto de manhã, contente.
Pálido sempre com os lábios frios,
Oro, desfiando os meus rosários pios...
Fora melhor dormir, eternamente!

Mas não ter eu aspirações vivazes,
E não ter, como têm os mais rapazes,
Olhos boiando em sol, lábio vermelho!

Quero viver, eu sinto-o, mas não posso:
E não sei, sendo assim enquanto moço,
O que serei, então, depois de velho...


"Só", António Nobre

(António Nobre nasceu no dia 16 de Agosto de 1867. Morreu em 1900.)

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