quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Bruno Tolentino 3

Lamento de Caim

No estreito labirinto,
as hienas do vento
e teu corpo caído.

Tento acordar e sinto
que me persegues, lento
como no sonho um grito.

Ladrão do amor paterno,
que à procura do ninho
incurável do eterno

escalaste sozinho
as mais altas escarpas
sem volta nem caminho,

viraste a estátua fria
indiferente às farpas
monótonas do dia,

circundaste o meu peito
dos espinhos de um horto
penitente e perfeito.

Sei que estás morto, morto,
máscara mortuária
das mutações de um rosto.

Sou eu que não consinto
que escape a solitária
sombra no labirinto.

Sou eu que enterro, a sós
com aquela sombra amarga,
o que sobrou de nós

como faca na ilharga.

"O mundo como Ideia", Bruno Tolentino

(Bruno Tolentino nasceu no dia 12 de Novembro de 1940. Morreu em 2007.)

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