segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Gonçalves Dias 2

A baunilha

Vês como aquela baunilha
Do tronco rugoso e feio
Da palmeira - em doce enleio
Se prendeu!


Como as raízes meteu
Da úsnea no musgo raro,
Como as folhas - verde-claro -
Espalmou!


Como as bagas pendurou
Lá de cima! como enleva
O rio, o arvoredo, a relva
Nos odores,


Que inspiram falas de amores!
Dá-lhe o tronco - apoio, abrigo,
Dá-lhe ela - perfume amigo,
Graça e olor!


E no consórcio de amor
- Nesse divino existir -
Que os prende, vai-lhes a vida
De uma só seiva nutrida,
Cada vez mais a subir!


Se o verme a raiz lhe ataca,
Se o raio o cimo lhe ofende,
Cai a palmeira, e contudo
Inda a baunilha recende!


Um dia só! - que mais tarde,
Exausta a fonte do amor,
Também a baunilha perde
Vida, graça, encanto, olor!


Eu sou da palmeira o tronco,
Tu - a baunilha serás!
Se sofro, sofres comigo;
Se morro - virás atrás!


Ai! que por isso, querida,
Tenho aprendido a sofrer!
Porque sei que a minha vida
É também o teu viver.


Gonçalves Dias

(Gonçalves Dias nasceu no dia 10 de Agosto de 1823. Morreu em 1864.)

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