quarta-feira, 12 de março de 2014

Raul Brandão 2

O navio fundeia na Terceira, num vasto semicírculo, fechado ao norte pelo monte Brasil e do outro lado pela ilha das Cabras. Está um calor surdo. Demoro-me a olhar a cidade, donde irrompe uma pirâmide amarela, o monumento a D. Pedro IV. Num plano mais afastado alguns montes escalvados. É Braga, Braga com mais regularidade nas ruas, mais cai nas paredes, e que lhe deu na veneta para ser praia, estendendo até à beira-mar os seus conventos e as suas igrejas pesadas, com um forte em cada extremidade. Na rua andam mulheres de capote negro, apertado na cinta e formando concha sobre a cabeça, e raparigas do povo com o lenço atado só com um nó e deixando ver as madeixas: - são as solteiras; as casadas escondem todo o cabelo e atam duas vezes o lenço no pescoço. Foi aqui que vi as mais lindas figuras de mulheres dos Açores - tipos peninsulares, de cabelos negros e olhos negros retintos.
Tomei por uma estradinha ao acaso, onde florescem, nascendo nos muros, as chagas e os alfinetes cor-de-rosa. Atravessei a Urze tão branquinha, os caminhos humildes de Figueiras Pretas e Bico de Cabo Verde, recolhida entre pinhais e acácias, a que chamam pau-de-toda-a-obra. Fui seguindo entre sarças da ilha. No caminho uma carreada - bois luzidios com ponteiras doiradas nos chifres e homens desempenados e fortes à frente dos carros.
Entro no quintal dum amigo. Gostei sempre de me perder nas quintas e nos jardins entre quadros rústicos de lavoura. Sentei-me num pomar de deliciosas nêsperas amarelas e maduras, a vermelha mais ácida, e a branca mais doce e que se desfaz em sumo na boca. A vegetação reluz envernizada de novo. Espreitei o recanto abrigado da vinha baixa, que produz com duas castas, a Isabela e o Vermelho, o vinho de cheiro e o branco que tem fama. E depois passei por o jardim silencioso e húmido, pelas ruas altas de faias de Holanda. E neste ar tépido, nesta luz difusa, apareceram-me as japoneiras gigantescas em pirâmide, o goifão branco com a flor amarela ou leitosa abrindo ao meio das folhas estendidas à superfície das águas verdes e podres das bacias; a aromática espirradeira, que deixa cair as pétalas vermelhas, uma a uma, num canteiro de relva, desfalecida como se a sangrassem. Isto cresce diante dos meus olhos numa atmosfera quente e numa luz tão verde que chega a dominar o cinzento. Os jardins são sempre uma obra de arte, e quanto mais desordenados, mais belos.


"As Ilhas Desconhecidas", Raul Brandão

(Raul Brandão nasceu no dia 12 de Março de 1867. Morreu em. 1930)

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