| Foto Hernâni Von Doellinger |
sexta-feira, 17 de dezembro de 2021
quinta-feira, 16 de dezembro de 2021
Perfume de mulher
Na minha infância e princípios da juventude lidei muito com padres. E os padres cheiravam. Não como o extraordinário padre Clementino ou o Secónego,
casos particulares, que cheiravam naturalmente a mofo, mas outro
cheiro, doce, aperfumado, que também não era incenso nem ares de
santidade ou sacristia. Cheiravam não sabia bem a quê. Aquilo
intrigava-me, ainda por cima porque eu nem fazia ideia de que havia
perfumes para homens, quanto mais para padres!
Que se segue? Na vasta sabedoria dos meus nove-dez anos resolvi então que aquilo de os padres cheirarem a perfume era para disfarçar o cheiro a tabaco. Os padres não queriam que o povo soubesse do cigarrito às escondidas. Bem visto! Porque naquele tempo fumar era um pecado muito grande, praticamente ao nível da masturbação.
Que se segue? Na vasta sabedoria dos meus nove-dez anos resolvi então que aquilo de os padres cheirarem a perfume era para disfarçar o cheiro a tabaco. Os padres não queriam que o povo soubesse do cigarrito às escondidas. Bem visto! Porque naquele tempo fumar era um pecado muito grande, praticamente ao nível da masturbação.
E nisso fui
acreditando, bem-aventurados os néscios, até que um dia, espigadote e
epifanado, finalmente percebi: aquilo do perfume dos padres era mas é
cheiro a mulher...
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A ignorância vem com a idade
Eu sabia tudo. Palavra de honra, eu sabia tudo de tudo. Depois cresci e deixei de ter certezas. Certeza nenhuma. Disseram-me que me fizera homem, com muito atraso, mas que sim. Não sei...
Génios
Parecendo que não, há uma diferença assinalável entre o génio da lâmpada
e o génio da garrafa. Eu, por exemplo, embora também aprecie a
competência e o rasgo de um bom electricista, dou muito mais valor à
sabedoria decilitrada de um bêbado manso.
O chamado calo no cu
Há quem diga que a sabedoria vem com a idade. Os problemas na próstata geralmente também.
A visita da Veneranda Figura
| Foto Tarrenego! |
As visitas da Veneranda Figura ao Portugal corno manso eram, não raro, momentos de alto fervor nacionalista e profunda reflexão cultural. Sua Excelência o Senhor Presidente da República - ou O Padeiro, na versão abreviada - tinha o condão da palavra certa. Humanista dos sete costados, enciclopedista dado a calendário, geografia e contas de somar, Américo Tomás abria a boca para espirrar e saíam-lhe pérolas, orações de sapiência. Num país de troca-tintas e fala-barato de nascimento, o rigor e o donaire na afirmação são a superlativa herança que o marido de Dona Gertrudes fez o obséquio de nos deixar.
Por exemplos:
1. "Hoje visitei todos os pavilhões, se não contar com os que não visitei."
2. "É uma terra [Manteigas] bem interessante, porque, estando numa cova, está a mais de 700 metros de altitude."
3. "Comemora-se hoje em todo o país uma promulgação do despacho número cem, a que foi dado esse número não por acaso mas porque ele vem na sequência de outros noventa e nove anteriores promulgados."
4. "Neste almoço ouvi vários discursos, que o governador civil intitulou de simples brindes. Peço desculpa, mas foram autênticos discursos."
5. "Eu prolongo no tempo esse anseio de Vossa Excelência e permito-me dizer que o meu anseio é maior ainda. Ele consiste em que, mesmo para além da morte, nós possamos viver eternamente na terra portuguesa, porque se nós, para além da morte vivermos sempre sobre a terra portuguesa, isso significa que Portugal será eterno, como eterno é o sono da morte."
6. "Hoje tivemos um dia sumamente positivo: de manhã assistimos à santa missa e de tarde inaugurámos o monumento ao bombeiro."
7. "Pedi desculpa ao Senhor Engenheiro Machado Vaz por fazer essa rectificação. Mas não havia razão para o fazer porque, na realidade, o Senhor Engenheiro Machado Vaz referiu-se à altura do início do funcionamento dessa barragem e eu referi-me, afinal, à data da inauguração oficial. Ambas as datas estavam certas. E eu peço, agora, desculpa de ter pedido desculpa da outra vez ao Senhor Engenheiro Machado Vaz."
8. "A minha boa vontade não tem felizmente limites. Só uma coisa não poderei fazer: o impossível. E tenho verdadeiramente pena de ele não estar ao meu alcance."
9. "O Senhor Professor Oliveira Salazar, ao longo de mais de trinta anos, é uma vida inteiramente sacrificada em proveito do País, e, desconhecendo completamente todos os prazeres da vida, é um homem excepcional que não aparece, infelizmente, ao menos, uma vez em cada século, mas aparece raramente ao longo de todos os séculos."
10. "Esta é a primeira vez que estou cá desde a última vez que cá estive."
Convivi pessoalmente a uma distância razoável com Américo Tomás. Uma vez. Quando a Veneranda Figura foi a Fafe, num esplêndido Rolls-Royce descapotável negro como era a vida e guardado por uma matilha de impressionantes motos da GNR. Foi inaugurar por atacado a "nova" Câmara Municipal, o Tribunal, que tinha sido cadeia, e a escola do Santo Velho - estaríamos, se não me engano, nos finais da década de mil novecentos e sessenta. E decerto O Mais Alto Magistrado da Nação por lá deixou algumas das suas proverbiais patacoadas, mas não tenho a certeza: eu teria onze anos porém já não lhe botava sentido. Preferia fazer pouco dele, O Padeiro, e a moçarada à minha volta, agitando impostas bandeirinhas nacionais presas por arames e muitos Viva o Senhor Presidente da República!, escangalhava-se a rir, conferindo enfim ao acto o significado (ou a in-dignidade) que realmente lhe assistia.
Tomás era o circo e mais nada. O Presidente da República nunca encontrou palavras de jeito para falar ao Portugal dos pequeninos. Ele não as sabia e ninguém lhas ensinou ou escreveu.
P.S. - Publicado originalmente no dia 29 de Julho de 2013. Na Roma Antiga, 16 de Dezembro assinalava o Festival de Sapientia, deusa da sabedoria.
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