| Foto Hernâni Von Doellinger |
quinta-feira, 1 de junho de 2017
Murilo Rubião 5
Com o crescimento da popularidade a minha
vida tornou-se insuportável.
Às vezes, sentado em algum café, a olhar cismativamente o povo desfilando na calçada, arrancava do bolso pombos, gaivotas, maritacas. As pessoas que se encontravam nas imediações, julgando intencional o meu gesto, rompiam em estridentes gargalhadas. Eu olhava melancólico para o chão e resmungava contra o mundo e os pássaros.
Se, distraído, abria as mãos, delas escorregavam esquisitos objetos. A ponto de me surpreender, certa vez, puxando da manga da camisa uma figura, depois outra. Por fim, estava rodeado de figuras estranhas, sem saber que destino lhes dar.
Nada fazia. Olhava para os lados e implorava com os olhos por um socorro que não poderia vir de parte alguma.
Situação cruciante.
Quase sempre, ao tirar o lenço para assoar o nariz, provocava o assombro dos que estavam próximos, sacando um lençol do bolso. Se mexia na gola do paletó, logo aparecia um urubu. Em outras ocasiões, indo amarrar o cordão do sapato, das minhas calças deslizavam cobras. Mulheres e crianças gritavam. Vinham guardas, ajuntavam-se curiosos, um escândalo. Tinha de comparecer à delegacia e ouvir pacientemente da autoridade policial ser proibido soltar serpentes nas vias públicas.
"O Ex-Mágico da Taberna Minhota", Murilo Rubião
(Murilo Rubião nasceu no dia 1 de Junho de 1916. Morreu em 1991.)
Às vezes, sentado em algum café, a olhar cismativamente o povo desfilando na calçada, arrancava do bolso pombos, gaivotas, maritacas. As pessoas que se encontravam nas imediações, julgando intencional o meu gesto, rompiam em estridentes gargalhadas. Eu olhava melancólico para o chão e resmungava contra o mundo e os pássaros.
Se, distraído, abria as mãos, delas escorregavam esquisitos objetos. A ponto de me surpreender, certa vez, puxando da manga da camisa uma figura, depois outra. Por fim, estava rodeado de figuras estranhas, sem saber que destino lhes dar.
Nada fazia. Olhava para os lados e implorava com os olhos por um socorro que não poderia vir de parte alguma.
Situação cruciante.
Quase sempre, ao tirar o lenço para assoar o nariz, provocava o assombro dos que estavam próximos, sacando um lençol do bolso. Se mexia na gola do paletó, logo aparecia um urubu. Em outras ocasiões, indo amarrar o cordão do sapato, das minhas calças deslizavam cobras. Mulheres e crianças gritavam. Vinham guardas, ajuntavam-se curiosos, um escândalo. Tinha de comparecer à delegacia e ouvir pacientemente da autoridade policial ser proibido soltar serpentes nas vias públicas.
"O Ex-Mágico da Taberna Minhota", Murilo Rubião
(Murilo Rubião nasceu no dia 1 de Junho de 1916. Morreu em 1991.)
Sílvio Duncan
Donzela pudica
Há uma barreira entre ti e a vida
e que te dá uma tristeza fundamental.
Por isso te alimentas de fantasmas do sexo
acondicionados em quilómetros de celuloide.
E tua mão é corpo
que substitui teu ventre amuralhado.
E a boca beija-se a si mesma
em soluços de ausência.
E as coxas grávidas de esperança
sonham a destruição do hímen
numa alegria de virtudes mortas.
O contato amante das vestes
te suplicia de pecado
e uma fila de padres negros
reza um réquiem.
"Profetas do Silêncio", Sílvio Duncan
(Sílvio Duncan nasceu no dia 1 de Junho de 1922. Morreu em 1999.)
Há uma barreira entre ti e a vida
e que te dá uma tristeza fundamental.
Por isso te alimentas de fantasmas do sexo
acondicionados em quilómetros de celuloide.
E tua mão é corpo
que substitui teu ventre amuralhado.
E a boca beija-se a si mesma
em soluços de ausência.
E as coxas grávidas de esperança
sonham a destruição do hímen
numa alegria de virtudes mortas.
O contato amante das vestes
te suplicia de pecado
e uma fila de padres negros
reza um réquiem.
"Profetas do Silêncio", Sílvio Duncan
(Sílvio Duncan nasceu no dia 1 de Junho de 1922. Morreu em 1999.)
Luis Seoane
As ratas
Na Galiza, ise vello pobo,
carballo carcomido de raios e bestigos,
loita, dende fai séculos,
o home cas ratas.
Coma nos castelos abandoados,
onde xa caíron traves e brasós,
escóitanse queixumes de gonzos ferruxentos.
Dende fai séculos loitan en Galiza
os homes cas ratas.
Vencendo sempre as ratas.
Ate que toda ela fique,
coma ises castelos roiñentos
e os mosteiros sin altares
nin lembranzas de ritos,
sendo soio rondada de morcegos
e pantasmas.
Coberta de edra, de Iabel.
Morándoa soio as ratas.
Somente as ratas.
Luis Seoane
(Luis Seoane nasceu no dia 1 de Junho de 1910. Morreu em 1979.)
Na Galiza, ise vello pobo,
carballo carcomido de raios e bestigos,
loita, dende fai séculos,
o home cas ratas.
Coma nos castelos abandoados,
onde xa caíron traves e brasós,
escóitanse queixumes de gonzos ferruxentos.
Dende fai séculos loitan en Galiza
os homes cas ratas.
Vencendo sempre as ratas.
Ate que toda ela fique,
coma ises castelos roiñentos
e os mosteiros sin altares
nin lembranzas de ritos,
sendo soio rondada de morcegos
e pantasmas.
Coberta de edra, de Iabel.
Morándoa soio as ratas.
Somente as ratas.
Luis Seoane
(Luis Seoane nasceu no dia 1 de Junho de 1910. Morreu em 1979.)
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