A propósito da balda que são as eleições em Portugal, muito particularmente as eleições autárquicas, escrevi e publiquei este texto no dia 17 de Janeiro de 2013, então com o título
No fim dá tudo certo:
Eu, o Presidente da República e o presidente da Anafre
estamos muito preocupados com o chamado processo de reorganização do
território. Eu, por razões egoístas; Cavaco Silva e Armando Vieira,
porque faz parte. As minhas razões são tão egoístas que ficam cá comigo.
Vamos, portanto, às alegadas razões dos outros dois:
Primeiro Cavaco, o do "promulgo, mas" - que é só para o que lhe dá
ultimamente. A esfinge de Belém parece que diz que teme que o novo mapa
das freguesias, assim de repente, possa estragar a "autenticidade" dos
resultados das eleições de Outubro e pede ao Parlamento que tome todas
as medidas (duas antes de cada refeição, até ao fim da caixa) para
assegurar que as autárquicas decorrem com "transparência" e
"normalidade".
E depois Vieira, sem mais nada a que se agarrar, aproveita a boleia e
acrescenta que a lei agora promulgada pode pôr em causa tarefas como o
recenseamento eleitoral ou a disponibilização de espaços e urnas no dia
das eleições.
De que país falam Cavaco Silva e António Vieira? E de que eleições? É de
Portugal? É das autárquicas? Das eleições nas freguesias? É?
Então podem ficar descansados. Cavaco não sabe, porque não faz a mínima
ideia do que se passa no País, mas Vieira devia saber e se calhar sabe:
as eleições autárquicas correm sempre bem, quer chova quer faça sol. O
mapa não interessa para nada, a logística é um pormenor, as chapeladas
são as do costume. Bebem-se uns copos à boca das urnas e nas urnas
propriamente ditas, faz-se uma almoçarada com o pessoal de serviço de
todos os partidos, que são o PPD e o "da mãozinha" mais o gajo do PC que
vem de fora e é um picuinhas. O pai vota pelo filho que é tolinho, o
filho vota pelo pai que já morreu, pai e filho votam pela avó que está
muito atacadinha e não pôde vir, e depois a avó vem e vota também. Há
quem vote em dois lados, há quem vote duas ou três vezes no mesmo lado,
há quem vote nos dois partidos, e vale, há quem vote em quantas
freguesias for preciso, é só dizer, há quem queira e possa votar e não
deixam, há quem se faça de ambulância, há quem se faça de parvo, há quem
chame a polícia, há quem chame pelo gregório agarrado ao garrafão
levado pelo presidente da mesa a mando do presidente da junta. Chegada a
hora das contas, vai-se aos cadernos e à acta, acrescenta-se aqui,
desarrisca-se ali, rasgam-se uns papéis, queimam-se, noves fora nada, o
chato do PC também assina, e no fim bate tudo certo. Podem crer: bate
tudo certo. E isto, meus senhores, é que é democracia. Autêntica,
transparente, normal.
O detalhe das trapalhadas pode parecer uma caricatura, mas não é ficção. Tudo isto aconteceu. Tudo isto acontece. As eleições em Portugal são um maná de anedotas. Para mim, que gosto de uma boa piada, a melhor de todas soube-a agora de Fafe, na
recontagem de votos ordenada pelo Tribunal Constitucional. Leio no
jornal que "duas professoras de Matemática" foram chamadas para tomarem nota dos pauzinhos de cada força política concorrente e fazerem os respectivos noves fora. Porque cada voto é um pauzinho, não é? Duas professoras de Matemática, que não têm culpa, e há-de ser de lei, parabéns à prima. Mas é também um atestado de incompetência passado aos "escrutinadores" paisanos enviados para as urnas pelos chefes políticos. E, por amor de Deus, uma desonra para os milhares de suequeiros fafenses, professores doutores na arte do um dois três quatro ata, um dois três quatro ata. Os chitos são outro assunto, e parece que já foi tempo...