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terça-feira, 22 de agosto de 2023

Ia-se ao Largo ver os retratos

Houve um tempo em que as fotografias eram tiradas por fotógrafos. Fotógrafos profissionais, competentes, conhecedores, eficazes regra geral, artistas às vezes. Por outro lado, nesse tempo ainda não havia telemóveis e portanto, quando era preciso falar com alguém que não estivesse presente, ligava-se da máquina fotográfica, nada mais simples. Os antigos sabiam tudo e antigamente é que era, estou farto de dizer. Só era pena morrerem cedo. Naquele tempo tínhamos dois fotógrafos e nevava em Fafe. Não era preciso ir mais longe. Em Fafe, mesmo no centro da vila. Não era necessário alongar vistas para os cumes da Lameira ou da Lagoa e sonhar modestas aventuras impossíveis. Era ali nas nossas mãos, aos nossos pés, a realidade. O nosso Santo Velho pintava-se de branco, contavam-se os centímetros de altura do "nevão", faziam-se bonecos, pelo menos boneco, com nariz de cenoura e tudo, declaravam-se guerras de bolas de neve, ensaiavam-se trambolhões de criar bicho, chorar era proibido, ou levávamos no focinho quando chegássemos a casa.
Os campos nas nossas traseiras, onde hoje está o Pavilhão Municipal, encontravam-se de vago e enchiam-se de moçarada brincalhona e apressada, porque a neve era efémera e sabia-se lá quantos anos depois estaríamos outra vez à espera que ela tornasse. Lembro-me de uma ocasião, um acontecimento: o Foto Victor com os filhos a fazerem uma festa tremenda, e o Foto Victor a tirar retratos atrás de retratos, fotografias sorrateiramente alpinas que depois expôs, algumas, nas montras da loja em frente aos Correios. Foi um sucesso.
Fafe também tinha disto, nomes assim, esdrúxulos. O Sr. Victor era fotógrafo com porta aberta e o estabelecimento chamava-se Foto Victor. Portanto o Sr. Victor passou a chamar-se Foto Victor. Aliás, como o Foto Jóia, mas este no Largo, à beira do Talho, do Romeu e do Fernando da Sede, como quem olha para o Mário da Louça e para a Electra. Foto Jóia era simultaneamente o nome do "estúdio" e do seu proprietário. "Vem aí o Foto Jóia!", dizia-se, e era a coisa mais natural do mundo.
Curiosamente, nunca apanhei o Foto Jóia no meio da neve, mas lembro-me de que foi ele quem me fez as fotografias para o meu primeiro bilhete de identidade, que era preciso para irmos para França ter com o nosso pai, mas acabámos por não ir, porque o nosso pai morreu no Natal antes da viagem programada e a minha vida deu então esta volta que é assim.
Fafe era uma terra compacta e tudo acontecia no Largo. A feira semanal, a feira das cebolas, os 16 de Maio, a Senhora de Antime, a Volta a Portugal, cortejos alegóricos, corsos de carnaval, batalhas de flores, circos de manga curta, robertos, gincanas automóveis, corridas de patins, corridas de jericos, corridas de São Silvestre, passagens de ano, dias dos combatentes, desfiles da Mocidade e da Legião Portuguesa, partidas para a Ultramar. Era tudo ali. O Largo era o centro, o Largo era Fafe. Nas ruas e nos lugares das redondezas dizia-se "Vou a Fafe", querendo dizer que se ia ao Largo.
As lojas dos dois fotógrafos, os seus escaparates, eram locais sagrados de peregrinação na vila de antanho. Aos finais de tarde ou no fim-de-semana, era à pinha. Era famoso o átrio do Foto Jóia. Ali se ficava a saber quem casou, os padrinhos e convidados, quem baptizou, os padrinhos e convidados, quem tirou retrato novo mais ou menos atiradiço sabe-se lá com que fim, amiúde para mandar para Angola, Moçambique, Guiné. Ali se revelavam namoros a estrear, paulnewmans de trazer por casa, misses que nunca seriam. As bodas de ouro, as juras de amor, o fato feito por medida, o carro na rodagem, a filha recém-doutora, o soldadinho condecorado na guerra e que haveria de chegar morto, a vida dos outros ali escarrapachada atrás do vidro impenetrável, na arte exigente e discreta do preto e branco ou no exagero quase pornográfico da cor, novidade em folha. A vida retocada à mão, porque o photoshop ainda não tinha sido inventado. Era. Ainda faltavam muitos anos para a javardice dos reality shows e para os despudores de todos os facebooks, mas não estávamos mal servidos...
Havia uma certa rivalidade entre o Foto Victor e o Foto Jóia, e, estranhamente, também entre as respectivas clientelas, coisa sem sentido, nós éramos Foto Jóia!, mas Fafe tinha essa mania de ser terra de antagonismos pascácios, com os dois grupos de futebol - o Sporting Clube de Fafe e o Futebol Clube de Fafe -, que já não são do meu tempo, por uma unha negra, com as duas bandas de música - Revelhe e Golães -, que persistem, com os dois cangalheiros originais - Albano da Costa e Damião Monteiro -, com a Escola Industrial e o Colégio, com o PS de Fafe pim e o PS de Fafe pam e o PS de Fafe pum, isso para além da Rua de Baixo e da Ponte de Ranha, que de vez em quando também faziam faísca e, noblesse oblige, andavam à coiada. Uma coisa é certa, porém: Foto Jóia e Foto Victor frequentavam ambos o Nacor, o que, já agora, só lhes abona a respeito, e não me consta que haja notícia de confrontos ou baixas a registar.

segunda-feira, 4 de julho de 2016

Era um homem muito antigo 7

Era um homem muito antigo e vivia agarrado a coisas que já não se usam. Vejam lá que, quando precisava de selfies, teimava em ir ao fotógrafo, que na verdade lhe fazia um preço em conta: meia dúzia - 6,5 euros; uma dúzia - 10 euros; oferta de um postal em ambos o casos.

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Gaspar de Jesus expõe "Sinais de Religiosidade"


"Sinais de Religiosidade" é o tema da nova exposição de Gaspar de Jesus, que inaugura no próximo sábado, dia 4 de Outubro, no Centro Paroquial de Avintes, Rua do Passal, 70. A mostra decorre no âmbito do Festival de Fotografia de Avintes, que se prolonga até 1 de Novembro.
Gaspar de Jesus, fotojornalista e professor de Fotografia, trabalhou em A Capital, O Primeiro de Janeiro, A Bola, TV Guia, Notícias Magazine e Autores. Artista premiado, realizou uma vintena de exposições individuais e participou em inúmeras exposições colectivas, dentro e fora do País. Foi formador em cursos do FAOJ e integrou o quadro de formadores do IPF-Porto. É co-autor dos livros "Portugal e o Ambiente", "Reencontros - Portugal em Fotografia", "Daqui Houve Nome Portugal", "21 Retratos do Porto para o Século XXI", "Porto Cidade com Alma" e "Porto sem Filtro". É autor do blogue Arte Fotográfica e promotor das tertúlias Com a Arte no Olhar.

domingo, 28 de setembro de 2014

Sinais de religiosidade, com Gaspar de Jesus


"Sinais de Religiosidade", exposição de Gaspar de Jesus, no âmbito do Festival de Fotografia de Avintes, que decorre de 3 de Outubro a 1 de Novembro. Para ver no Centro Paroquial de Avintes, Rua do Passal, 70.
Gaspar de Jesus, fotojornalista e professor de Fotografia, trabalhou em A Capital, O Primeiro de Janeiro, A Bola, TV Guia, Notícias Magazine e Autores. Artista premiado, realizou uma vintena de exposições individuais e participou em inúmeras exposições colectivas, dentro e fora do País. Foi formador em cursos do FAOJ e integrou o quadro de formadores do IPF-Porto. É co-autor dos livros "Portugal e o Ambiente", "Reencontros - Portugal em Fotografia", "Daqui Houve Nome Portugal", "21 Retratos do Porto para o Século XXI", "Porto Cidade com Alma" e "Porto sem Filtro". É autor do blogue Arte Fotográfica e promotor das tertúlias Com a Arte no Olhar.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Tertúlia fotográfica com Gaspar de Jesus


Dia 11 de Outubro de 2014, das 15 horas às 18h30, no Auditório do Parque Biológico de Gaia. Participação gratuita e limitada a um máximo de 40 pessoas. Inscrições em pereiralopesffa@gmail.com. Iniciativa no âmbito do Festival de Fotografia de Avintes, que decorre entre 3 de Outubro e 1 de Novembro.
Gaspar de Jesus, fotojornalista e professor de Fotografia, trabalhou em A Capital, O Primeiro de Janeiro, A Bola, TV Guia, Notícias Magazine e Autores. Artista premiado, realizou 18 exposições individuais e participou em inúmeras exposições colectivas, dentro e fora do País. Foi formador em cursos do FAOJ e integrou o quadro de formadores do IPF-Porto. É co-autor dos livros "Portugal e o Ambiente", "Reencontros - Portugal em Fotografia", "Daqui Houve Nome Portugal", "21 Retratos do Porto para o Século XXI", "Porto Cidade com Alma" e "Porto sem Filtro". É autor do blogue Arte Fotográfica e promotor das tertúlias Com a Arte no Olhar. 

domingo, 17 de agosto de 2014

Festival de Fotografia de Avintes


Festival de Fotografia de Avintes, de 3 de Outubro a 1 de Novembro de 2014. Dezoito exposições em 15 locais. Dezassete fotógrafos de seis países: Ailyn Rodriguez (Cuba), José Lopez Perez (Espanha), Taslima Akhter (Bangladesh), Ana Mokarzel e Luísa Dorr (Brasil), Ana Robles e Gabriel Magri (Argentina), Daniel Lopes, Fernando Liberdade, Fidalgo Pedrosa, Gaspar de Jesus, José Fitas, Luís Raposo, Luís Reina, Pereira Lopes, Victor Leorne e Vitor Tripologos (Portugal).
Mais informação, aqui.