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sábado, 5 de outubro de 2024

Nós, os imigrantes

O meu pai foi emigrante, e nós - a minha mãe, os meus irmãos e eu - fomos quase emigrantes, só não abalámos porque entretanto o meu pai morreu de véspera, na emigração. Tive e tenho tios e tias e primos e primas emigrantes. Tenho sobrinhos emigrantes. Somos uma família de emigrantes, como Portugal é um país de emigrantes, estabelecidos pelos quatro cantos do mundo. Incomoda-me visceralmente o ódio e a estupidez que por aí medram contra os emigrantes como nós mas que vêm de fora, isto é, os imigrantes, como eram imigrantes os meus antepassados alemães e depois brasileiros, como são imigrantes todos os nossos emigrantes nos países onde trabalham. Mete-me nojo. E portanto, o seguinte, ó fascistas de carregar pela boca: "nem mais um", como vos mandam dizer e dizeis, a senhora que vos teve! E viva a República!

quarta-feira, 9 de agosto de 2023

Apoios aos emigrantes, em Fafe

Em Fafe. No âmbito da Festa do Emigrante, realiza-se amanhã, quinta-feira, dia 10 de Agosto, uma sessão de apresentação dos apoios aos emigrantes, medidas de apoio fiscal e ao investimento da diáspora inscritos no programa Regressar.
O evento tem início pelas 17 horas, no auditório da Câmara Municipal de Fafe, e contará com a presença do Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, Paulo Cafôfo. Programa detalhado, aqui.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

Schengen, para que te quero

Por exemplo. Uma mulher morena e grávida, no aeroporto. Deve ser detida por contrabando ou por apoio à emigração ilegal?

P.S. - No dia 21 de Dezembro de 2007 o espaço Schengen, de livre circulação de pessoas sem controlos nas fronteiras internas, foi alargado a nove dos mais recentes estados membros da União Europeia, oito dos quais ex-países comunistas.

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Ferreira de Castro 5

Formara-se rapidamente em volta de Manuel da Bouça um halo de respeito e curiosidade. Desde que decidira partir, era outro homem para o lugarejo. Enxergavam-no com outros olhos e surpreendiam-lhe uma estatura diferente daquela que até ali lhe conheciam. E ele próprio adoptara uma máscara de orgulho: os lábios mais franzidos, o bigode mais retorcido e mais sóbrios os gestos.

"Emigrantes", Ferreira de Castro

(Ferreira de Castro nasceu no dia 24 de Maio de 1898. Morreu em 1974.)

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Ferreira de Castro

Os homens transitam do norte para o sul, de leste para oeste, de país para país, em busca de pão e de um futuro melhor. Nascem por uma fatalidade biológica e quando, aberta a consciência, olham para a vida, verificam que só a alguns deles parece ser permitido o direito de viver. Uns resignam-se logo à situação de elementos supérfluos, de indivíduos que excederam o número, de seres que o são apenas no sofrimento, no vegetar fisiológico de uma existência condicionada por milhentas restrições. Curvam-se aos conceitos estabelecidos de há muito, aceitam por bom o que já estava enraizado quando eles chegaram e deixam-se ir assim, humildes, apagados, submissos, do berço ao túmulo - a ver, pacientemente, a vida que levam outros homens mais felizes.
Alguns, porém, não se resignam facilmente. A terra em que nasceram e que lhes ensinaram a amar com grandes tropos patrióticos, com palavras farfalhantes, existe apenas, como o resto do mundo, para fruição de uma minoria. E eles, mordidas as almas por compreensíveis ambições, querem também viver, querem também usufruir regalias iguais às que desfrutam os homens privilegiados. E deslocam-se, e emigram, e transitam de continente em continente, de hemisfério a hemisfério, em busca do seu pão.
Mas em todo o mundo, ou em quase todo o mundo, vão encontrar drama semelhante, porque semelhantes são as leis que regem o aglomerado humano. Não esmorecem, apesar disso. Continuam a transitar de ingénuos olhos postos na luz que a sua imaginação acendeu, enquanto os mais ladinos, aproveitando todas as circunstâncias ou criando-as até, fazem oiro com a ingenuidade dos ingénuos.
Eles continuam a transitar com uma pátria no passaporte, mas em realidade sem pátria alguma, pois aquela que lhe é atribuída pertence apenas a alguns eleitos. Para eles, ela só existe quando nos quartéis soam as cornetas de guerra ou nas repartições públicas se recolhem tributos. É assim na Europa e é assim nos outros continentes.
Nasce o homem e, se não dispõe de riqueza acumulada pelos seus maiores, fica a mais no mundo. Entra na vida - já se disse e é bem certo - como as feras nos antigos circos - para a luta! Luta para criar o seu lugar, luta contra os outros homens, luta pelas coisas mesquinhas e não pelas verdadeiramente nobres, por aquelas que contribuiriam para maior elevação humana. Para essas quase não há tempo na existência de cada um.

"Emigrantes", Ferreira de Castro

(Ferreira de Castro nasceu no dia 24 de Maio de 1898. Morreu em 1974.)

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

A ameaça do costume

São sempre os primeiros a serem abandonados, os nossos emigrantes. Estão longe, os seus protestos não chegam às escadarias de São Bento, portanto não aquecem nem arrefecem quem decide em Lisboa com a imensa desfaçatez dos que não têm a mínima ideia do que estão a fazer. O Governo vai encerrar postos consulares e cortar na rede de ensino do Português no estrangeiro. Os conselheiros das comunidades falam em sentimento de revolta e o movimento de emigrantes portugueses na Alemanha "Osnabrük Não Desiste" anunciou uma campanha de boicote ao envio de remessas de dinheiro para Portugal, que poderá nos próximos tempos ser seguida noutros países. "Quando o nosso país, a nossa pátria, nos vira as costas, vemo-nos forçados a fazer o mesmo", justificou Nélson Rodrigues, coordenador do movimento, à Agência Lusa.
É a ameaça do costume, nunca cumprida, e que também por isso Lisboa nunca leva a sério. Mas devia. No total das comunidades portuguesas no estrangeiro, o valor das remessas ascendeu, no ano passado, a 2.400 milhões de euros. Os nossos emigrantes mereciam mais respeito.