Mostrar mensagens com a etiqueta Walmir Ayala. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Walmir Ayala. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

Walmir Ayala 5

 Arte poética

Faço poema às vezes com a displicência
de um risco sem figura,
como a preguiça de um gesto
sem destino,
às vezes como o adormecimento
no mormaço,
como o tremor de uma lágrima
de espanto;
faço poema às vezes como a faina
de colher flores, de passar os dedos
nas águas, de voltar-me
por não ver nada mais do que sonhava;
faço poema às vezes como a máquina
registra, como o dedo segue
a linha da leitura, como a força
invisível de virar
a página de um livro casual;
mas às vezes faço poema como erguendo
um punhal contra a rosa, ou contra mim,
como quem morre e resiste e quer morrer
assim
faço poema, às vezes.
Faço poema sempre como vivo.

"Poemas da Paixão", Walmir Ayala

(Walmir Ayala nasceu no dia 4 de Janeiro de 1933. Morreu em 1991.)

sábado, 4 de janeiro de 2020

Walmir Ayala 4

Até o fim

Até o fim com esta garganta
e estes olhos
líquidos, até o fim
com estas mãos
trémulas.

Até o fim com estes pés exaustos
e estes lábios costurados
ao pé da noite. Até o fim
sem dizer nada.

Até o fim estes canais premindo
o sangue.
Até o fim o obrigatório oxigénio
sobrevivência
no abstracto
difícil ar.

Até o fim a tinta ilesa do amor
na alma,
até que quebrem as epidermes
desta mentira,
e o fim prossiga
até o fim.


Walmir Ayala

(Walmir Ayala nasceu no dia 4 de Janeiro de 1933. Morreu em 1991.)

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Walmir Ayala 3

Astromulhersubmarino

 A sereia não se divorcia
do azul, nem seus seios
de búzio esgotam leites
diluídos em nácares.

A sereia lança louca-
mente o gesto como rede;
e se enovela em sargaços
pesados de bichos vivos
como línguas brancas: ostras.

Sua cauda crispa-se em desejo
de tanto à áspera pedra estar ligada,
como ao tronco robusto, ao férreo, ao musculoso
marítimo afogado.

A sereia não se deixa
desprender da triste onda, embora ilhada,
embalsamada,
suspensa,
como quadro de um impossível
tornado ao alcance da mão,
radiosa e salina.

Não se desveste da metade de peixe que a metade
sua informa;
nas tesouras extremas de cauda se estreleja,
astromulhersubmarino
azul de água,
azul de mar,
azul de nada.


"O Edifício e o Verbo", Walmir Ayala

(Walmir Ayala nasceu no dia 4 de Janeiro de 1933. Morreu em 1991.)

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Walmir Ayala 2

[O que é o ciúme]

Afiadas as unhas, não baixarás amor.
Te sangro, amor. Te incito e te assassino,
amor. E te assassino.
E me assassino, amor. E sou silêncio
corroído de inveja
de amor.

"Questionário", Walmir Ayala

(Walmir Ayala nasceu no dia 4 de Janeiro de 1933. Morreu em 1991.)

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Walmir Ayala

Viola

Ai, não morras de amor, de amor não morre
o amor que mata amor morosamente.
Não creias no que te arma de descrente
e sendo anti-socorro te socorre.

Naquela simples gala, justamente,
é início da pobreza - isto que morre
sendo amor que te mata e te socorre
no amor que mata amor, morosamente.

Há uma pressa escondida e inata nessa
morosa perda, amor, que de repente
te instiga a dar medida ao que não cessa.

Se te apraz dar socorro ao que socorre,
aceita o que te mata eternamente
e não morras de amor, que amor não morre.

 
Walmir Ayala

(Walmir Ayala nasceu no dia 4 de Janeiro de 1933. Morreu em 1991.)