Acho que vou ficar a morar aqui no Sal, dissera-lhe Maria Josefa, semi-afirmando, semi-interrogando. Ficaram os filhos atentos. Os que estavam perto naquele momento: Isabel e José. Mas o João, também ali sentado, não prestou mais atenção do que o habitual: o Sal é mais saudável, respondeu, distraído, olhando a mãe com um sorriso de devoção filial. Não é por isso, é pela memória do teu pai. Sim, sim, evidentemente, o Sal foi o primeiro sonho do pai.
Maria Josefa calara-se, imersa nas suas emoções contraditórias. Manuel António acabara por morrer no Sal, sozinho, quer dizer, sem ela. Muitos dos seus filhos e filhas se tinham instalado no Sal, uma vez casados: Teresa, Bernarda, Isabel, José e Aniceto. Os filhos haviam sido os primeiros colonos do Sal.
"Vozes do Vento", Maria Isabel Barreno
(Maria Isabel Barreno nasceu no dia 10 de Julho de 1939. Morreu em 2016.)
Mostrar mensagens com a etiqueta Vozes do Vento. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Vozes do Vento. Mostrar todas as mensagens
quarta-feira, 10 de julho de 2019
terça-feira, 10 de julho de 2018
Maria Isabel Barreno 3
Entre varadas e outros maus tratos se acirrou a revolta, um sinal secreto voou pela ilha, talvez pelo vento, e começaram a juntar-se os negros, os que vinham das ribeiras, da Pedra do Lume, de outros lugares, em direcção ao Portinho, onde os esperavam os que aí trabalhavam.
"Vozes do Vento", Maria Isabel Barreno
(Maria Isabel Barreno nasceu no dia 10 de Julho de 1939. Morreu em 2016.)
"Vozes do Vento", Maria Isabel Barreno
(Maria Isabel Barreno nasceu no dia 10 de Julho de 1939. Morreu em 2016.)
sábado, 3 de setembro de 2016
Maria Isabel Barreno (1939-2016)
Vieramos negros da Pedra do Lume, vieram também das ribeiras, esses sulcos onde se acumulava água das chuvas, e onde havia plantações e gado, às vezes vegetações densas que serviam de refúgio durante os calores intensos.
Juntaram-se primeiro por desafio às ordens do alferes Lage, que eram as ordens do comandante Gromicho: quero-os arrumados nos respectivos locais de trabalho, cada um no seu posto, cada macaco no seu galho, não os quero transitando por aí, se transitam em trabalho para o amo este que dê aos que transitam uma prova escrita de sua ordem e por um grupo de cinco terá de haver um responsável pela condução dos escravos, e se for de seis a dez que haja dois condutores, e para grupos maiores serão sempre mais os condutores, por forma a que nunca haja menos que um condutor responsável por cada cinco escravos conduzidos.
Andaram os negros pela ilha nos seus caminhos habituais. Muitos dedicavam-se a agriculturas ingratas, em chãos improváveis, apenas pelo gosto de criar alimento seu, por ancestral devoção à terra, por desafio ao clima adverso. Andaram outros sem propósito algum senão a desobediência, todos sem ordem escrita ou, às vezes, tendo eles próprios escrito uma ordem chocarreira: diz-me Deus Nosso Senhor que tenho de ir visitar meu pai que mora do outro lado da ilha, meu irmão, minha mulher, meu filho. Alguns foram apanhados e levaram varadas, mais aqueles que apresentavam como justificação a ordem divina.
"Vozes do Vento", Maria Isabel Barreno
(Maria Isabel Barreno nasceu no dia 10 de Julho de 1939. Morreu hoje.)
Juntaram-se primeiro por desafio às ordens do alferes Lage, que eram as ordens do comandante Gromicho: quero-os arrumados nos respectivos locais de trabalho, cada um no seu posto, cada macaco no seu galho, não os quero transitando por aí, se transitam em trabalho para o amo este que dê aos que transitam uma prova escrita de sua ordem e por um grupo de cinco terá de haver um responsável pela condução dos escravos, e se for de seis a dez que haja dois condutores, e para grupos maiores serão sempre mais os condutores, por forma a que nunca haja menos que um condutor responsável por cada cinco escravos conduzidos.
Andaram os negros pela ilha nos seus caminhos habituais. Muitos dedicavam-se a agriculturas ingratas, em chãos improváveis, apenas pelo gosto de criar alimento seu, por ancestral devoção à terra, por desafio ao clima adverso. Andaram outros sem propósito algum senão a desobediência, todos sem ordem escrita ou, às vezes, tendo eles próprios escrito uma ordem chocarreira: diz-me Deus Nosso Senhor que tenho de ir visitar meu pai que mora do outro lado da ilha, meu irmão, minha mulher, meu filho. Alguns foram apanhados e levaram varadas, mais aqueles que apresentavam como justificação a ordem divina.
"Vozes do Vento", Maria Isabel Barreno
(Maria Isabel Barreno nasceu no dia 10 de Julho de 1939. Morreu hoje.)
Subscrever:
Mensagens (Atom)