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quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

Vergílio Ferreira 5

Por entre os sons da música

Por entre os sons da música, ao ouvido
como a uma porta que ficou entreaberta
o que se me revela em ter sentido
é o que por essa música encoberta

acena em vão do outro lado dela
e eu sinto como a voz que respondesse
ao que em mim não chamou nem está nela,
porque é só o desejar que aí batesse. 

"Conta-Corrente 1", Vergílio Ferreira

(Vergílio Ferreira nasceu no dia 28 de Janeiro de 1916. Morreu em 1996.)

terça-feira, 28 de janeiro de 2020

Vergílio Ferreira 4

Cai a chuva abandonada

Cai a chuva abandonada
à minha melancolia,
a melancolia do nada
que é tudo o que em nós se cria.

Memória estranha de outrora
não a sei e está presente.
Em mim por si se demora
e nada em mim a consente

do que me fala à razão.
Mas a razão é limite
do que tem ocasião

de negar o que me fite
de onde é a minha mansão
que é mansão no sem-limite.
Ao longe e ao alto é que estou
e só daí é que sou.

"Conta-Corrente 1", Vergílio Ferreira

(Vergílio Ferreira nasceu no dia 28 de Janeiro de 1916. Morreu em 1996.)

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Vergílio Ferreira 3

Veio ter comigo hoje a poesia

Veio ter comigo hoje a poesia.
Há quantos anos? Desde a juventude.
Veio num raio de sol, num murmúrio de vento.
E a ilusão que me trouxe de uma antiga alegria
reinventou-me a antiga plenitude
que já não invento.

Fazia-lhe outrora poemas verdadeiros
em fornicações rápidas de galo.
Hoje não sou eu nunca por inteiro
e há sempre no que faço um intervalo.

Estamos ambos tão velhos - que vens fazer?
- a cama entre nós da nossa antiga função.
Nublado o olhar só de a ver.
E tomo-lhe em silêncio a mão.


"Conta-Corrente 1", Vergílio Ferreira

(Vergílio Ferreira nasceu no dia 28 de Janeiro de 1916. Morreu em 1996.)

domingo, 28 de janeiro de 2018

Vergílio Ferreira 2

Um dia, à meia-noite, ele viu-a. Era a estrela mais gira do céu, muito viva, e a essa hora passava mesmo por cima da torre. Como é que a não tinham roubado? Ele próprio, Pedro, que era um miúdo, se a quisesse empalmar, era só deitar-lhe a mão. Na realidade, não sabia bem para quê. Era bonita, no céu preto, gostava de a ter. Talvez depois a pusesse no quarto, talvez a trouxesse ao peito. E daí, se calhar, talvez a viesse a dar à mãe para enfeitar o cabelo... Devia-lhe ficar bem, no cabelo.

"A Estrela", Vergílio Ferreira

(Vergílio Ferreira nasceu no dia 28 de Janeiro de 1916. Morreu em 1996.)

sábado, 28 de janeiro de 2017

Vergílio Ferreira

Sentia que o amor era uma luta e que eu, amarrado de preto, não poderia lutar. A bruscos golpes de cólera, eu erguia-me às vezes sobre o meu desalento. E atirado nela, como numa vergasta, parecia-me que era só abrir a mão para colher o meu sonho de liberdade. Mas o meu esforço esgotava-se antes do fim. Então eu recaía para o meu cansaço e sentava-me à beira da estrada a dizer adeus à vida com o olhar.

"Manhã Submersa", Vergílio Ferreira

(Vergílio Ferreira nasceu no dia 28 de Janeiro de 1916. Morreu em 1996.)