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sexta-feira, 13 de abril de 2018

Tristão da Cunha 2

Iterum...
 
Há muito tempo já que eu vou perdendo
Os sonhos, um a um, pelo caminho:
- Sangue dum anho ingénuo, cor d'arminho,
De calvário em calvário perecendo...


No alto dum monte, a luz que eu ia vendo,
Diante de mim cantando como um ninho,
Fria beijou-me o rubro desalinho,
E atrás de mim no escuro foi descendo.


Hoje os olhos se voltam como preces
Para as memórias, em que há luas mortas,
E tu, morta, que morta não pareces!


Sobre esta alma de dívida e agonias
Caia a luz desses olhos, dessas portas
Onde esperam o sol as almas frias...


Tristão da Cunha

(Tristão da Cunha nasceu no dia 13 de Abril de 1878. Morreu em 1942.)

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Tristão da Cunha

Virgem primitiva 

A pobre Ofélia deu-lhe os tristes olhos mansos
Onde bóia um luar de sonhos afogados;
Mãos piedosas dormindo em gestos resignados
De tarde, a meditar nos eternos descansos.

Ha idílios de irmãos, inviolados remansos,
Soluços de ternura, e sorrisos cansados,
E saudades que não vêm dos tempos passados,
No sobre-humano olhar daqueles olhos mansos.

Eu vejo-a morta já (que tristeza tão doce!...)
As mãos no colo em cruz e branca de alabastros
Noiva morta de amor na primeira manhã...

Na Via-Láctea que a leva, pura como a trouxe,
Florindo-lhe o caminho anjos espalham astro;
E a lua vai seguindo atrás, como uma irmã...

Tristão da Cunha

(José Maria Leitão da Cunha Filho, que assinava Tristão da Cunha, nasceu no dia 13 de Abril de 1878. Morreu em 1942.)