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domingo, 8 de novembro de 2020

Teixeira de Pascoaes 10

[...]
Ó pobre tolo,
Tens um sentido astral da realidade,
Afinado por todas as quimeras
E por todos os sonhos que voaram
Dessa fronte, perdida além das nuvens,
Onde os tolos assistem, espantados,
Ao nascimento duma estrela, e ficam
Radiantes de alegria para sempre.
[...]

"O Pobre Tolo", Teixeira de Pascoaes

(Teixeira de Pascoaes nasceu no dia 8 de Novembro de 1877. Morreu em 1952.) 

sexta-feira, 8 de novembro de 2019

Teixeira de Pascoaes 9

À minha musa

Senhora da manhã vitoriosa
E também do crepúsculo vencido.
Ó senhora da noite misteriosa,
Por quem ando, nas trevas, confundindo.

Perfil de luz! Imagem religiosa!

Ó dor e amor! Ó sol e luar dorido!
Corpo, que é alma escrava e dolorosa,
Alma, que é corpo livre e redimido.

Mulher perfeita em sonho e realidade.

Aparição Divina da Saudade...
Ó Eva, toda em flor deslumbrada!

Casamento da lágrima e do riso;

O céu e a terra, o inferno e o paraíso,
Beijo rezado e oração beijada.

"Senhora da Noite", Teixeira de Pascoaes

(Teixeira de Pascoaes nasceu no dia 8 de Novembro de 1877. Morreu em 1952.)

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

Teixeira de Pascoaes 8

Poeta

Quando a primeira lágrima aflorou
Nos meus olhos, divina claridade
A minha pátria aldeia alumiou
Duma luz triste, que era já saudade.


Humildes, pobres cousas, como eu sou
Dor acesa na vossa escuridade...
Sou, em futuro, o tempo que passou -
Em num, o antigo tempo é nova idade.


Sou fraga da montanha, névoa astral,
Quimérica figura matinal,
Imagem de alma em terra modelada.


Sou o homem de si mesmo fugitivo;
Fantasma a delirar, mistério vivo,
A loucura de Deus, o sonho e o nada.


"Sempre", Teixeira de Pascoaes

(Teixeira de Pascoaes nasceu no dia 8 de Novembro de 1877. Morreu no dia 14 de Dezembro de 1952.)

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Teixeira de Pascoaes 7

Tristeza

O sol do outono, as folhas a cair,
A minha voz baixinho soluçando,
Os meus olhos, em lagrimas, beijando
A mística paisagem a sorrir…

Assim a minha vida transitando
Vai, à tona da terra… E fico a ouvir
Silencios do outro mundo e o resurgir
De mortos que me foram sepultando…

E fico mudo, extático, parado
E quasi sem sentidos, mergulhado
Na minha viva e funda intimidade…

A mais longínqua estrela em mim actua…
Inunda-me de mágoa a luz da lua,
E sou eu mesmo o corpo da saudade.
 
"Elegias", Teixeira de Pascoaes

(Teixeira de Pascoaes nasceu no dia 8 de Novembro de 1877. Morreu em 1952.)

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Teixeira de Pascoaes 6

A Mãe e o Filho

Teu ser tragicamente enternecido,
Em desespero de alma transformado,
Vai através do espaço escurecido
E pousa no seu túmulo sagrado.


E ele acorda, sentindo-o; e, comovido,
Chora ao ver teu espírito adorado
Assim tão só na noite e arrefecido
E todo de ermas lágrimas molhado!


E eis que ele diz: "Ó Mãe, não chores mais!
Em vez dos teus suspiros, dos teus ais,
Quero que venha a mim tua alegria!"


E só nas horas em que a Mãe descansa
É que ele inclina a fronte de criança
E dorme ao pé de ti, Virgem Maria!

"Elegias", Teixeira de Pascoaes

(Teixeira de Pascoaes nasceu no dia 8 de Novembro de 1877. Morreu em 1952.)

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Teixeira de Pascoaes 5

Lembras-te, meu amor,
Das tardes outonais,
Em que íamos os dois,
Sozinhos, passear,
Para fora do povo
Alegre e dos casais,
Onde só Deus pudesse
Ouvir-nos conversar?
Tu levavas, na mão,
Um lírio enamorado,
E davas-me o teu braço;
E eu, triste, meditava
Na vida, em Deus, em ti…
E, além, o sol doirado
Morria, conhecendo
A noite que deixava.
Harmonias astrais
Beijavam teus ouvidos;
Um crepúsculo terno
E doce diluía,
Na sombra, o teu perfil
E os montes doloridos…
Erravam, pelo Azul,
Canções do fim do dia.
Canções que, de tão longe,
O vento vagabundo
Trazia, na memória…
Assim o que partiu
Em frágil caravela,
E andou por todo o mundo,
Traz, no seu coração,
A imagem do que viu.

Olhavas para mim,
Às vezes, distraída,
Como quem olha o mar,
À tarde, dos rochedos…
E eu ficava a sonhar,
Qual névoa adormecida,
Quando o vento também
Dorme nos arvoredos.
Olhavas para mim…
Meu corpo rude e bruto
Vibrava, como a onda
A alar-se em nevoeiro.
Olhavas, descuidada
E triste… Ainda hoje escuto
A música ideal
Do teu olhar primeiro!
Ouço bem tua voz,
Vejo melhor teu rosto
No silêncio sem fim,
Na escuridão completa!
Ouço-te em minha dor.
Ouço-te em meu desgosto
E na minha esperança
Eterna de poeta!
O sol morria, ao longe;
E a sombra da tristeza
Velava, com amor,
Nossas doridas frontes.
Hora em que a flor medita
E a pedra chora e reza,
E desmaiam de mágoa
As cristalinas fontes.
Hora santa e perfeita,
Em que íamos, sozinhos,
Felizes, através
Da aldeia muda e calma,

Mãos dadas, a sonhar,
Ao longo dos caminhos…
Tudo, em volta de nós,
Tinha um aspecto de alma.
Tudo era sentimento,
Amor e piedade.
A folha que tombava
Era alma que subia…
E, sob os nossos pés,
A terra era saudade,
A pedra comoção
E o pó melancolia.
Falavas duma estrela
E deste bosque em flor;
Dos ceguinhos sem pão,
Dos pobres sem um manto.
Em cada tua palavra,
Havia etérea dor;
Por isso, a tua voz
Me impressionava tanto!
E punha-me a cismar
Que eras tão boa e pura,
Que, muito em breve — sim!
Te chamaria o céu!
E soluçava, ao ver-te
Alguma sombra escura,
Na fronte, que o luar
Cobria, como um véu.
A tua palidez
Que medo me causava!
Teu corpo era tão fino
E leve (oh meu desgosto!)
Que eu tremia, ao sentir
O vento que passava!
Caía-me, na alma,
A neve do teu rosto.

Como eu ficava mudo
E triste, sobre a terra!
E uma vez, quando a noite
amortalhava a aldeia,
Tu gritaste, de susto,
Olhando para a serra:
- Que incêndio! - E eu, a rir,
Disse-te - É a lua cheia!…
E sorriste também
Do teu engano. A lua
Ergueu a branca fronte,
Acima dos pinhais,
Tão ébria de esplendor,
Tão casta e irmã da tua,
Que eu beijei sem querer,
Seus raios virginais.
E a lua, para nós,
Os braços estendeu.
Uniu-nos num abraço,
Espiritual, profundo,
E levou-nos assim,
Com ela, até ao céu
Mas, ai, tu não voltaste
E eu regressei ao mundo. 


"Prosa e Poesia", Teixeira de Pascoaes

(Teixeira de Pascoaes nasceu no dia 8 de Novembro de 1877. Morreu em 1952.)

domingo, 8 de novembro de 2015

Teixeira de Pascoaes 4

De noite

Quando me deito ao pé da minha dor,
Minha Noiva-fantasma; e em derredor
Do meu leito a penumbra se condensa,
E já não vejo mais que a noite imensa,
Ante os meus olhos intimos, acesos,
Extáticos, surpresos,
Aparece-me o Reino Espiritual...
E ali, despido o hábito carnal,
Tu brincas e passeias; não comigo,
Mas com a minha dor... o amor antigo.

A minha dor está comtigo ali,
Como outrora eu estava ao pé de ti...

Se eu fosse a minha dor, com que alegria,
De novo, a tua face beijaria!

Mas eu não sou a dor, a dor etérea...
Sou a Carne que sofre; esta miséria
Que no silêncio clama!

A Sombra, o Corpo doloroso, o Drama...

"Elegias", Teixeira de Pascoaes

(Teixeira de Pascoaes nasceu no dia 8 de Novembro de 1877. Morreu em 1952.)

sábado, 8 de novembro de 2014

Teixeira de Pascoaes 3

Minha alegria foi no teu caixão;
Deitou-se ao pé de ti, na sepultura,
A fim de acalentar teu coração
E tornar-te mais branda a terra dura.

Por isso, é para mim consolação
Esta sombria dor que me tortura!
E ponho-me a cantar na solidão
Meu cântico esculpido em noite escura!

Consola-me saber minha alegria
Longe de mim, perto de ti, na fria
Cova a que tu baixaste após a morte.

Foste tu que ma deste, meu amor;
Agora, dou-ta eu: é a minha flor;
Eu quero que ela sofra a tua sorte.


"Elegias", Teixeira de Pascoaes

(Teixeira de Pascoaes nasceu no dia 8 de Novembro de 1877. Morreu em 1952.)

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Teixeira de Pascoaes 2

Que saudades eu sinto desta flor,
Que vai murchar!
E desta gota de água e de esplendor,
Um pequenino mundo que é só mar.
E desta imagem que por mim passou
Misteriosamente.
E desta folha pálida e tremente
Que tombou...
Da voz do vento que me deixa mudo,
E deste meu espanto de criança.
Que saudades de tudo eu sinto, porque tudo
É feito de lembrança...

"Versos Pobres", Teixeira de Pascoaes

(Teixeira de Pascoaes nasceu no dia 8 de Novembro de 1877. Morreu em 1952.)

sábado, 2 de novembro de 2013

Teixeira de Pascoaes

A alma

A alma não é mais
Que transcendente imagem
De tudo quanto abrange
A luz do nosso olhar.
É o retrato perfeito
E fiel duma paisagem:
Tem uma serra ao fundo, e, depois dela, o mar.


Teixeira de Pascoaes

(Joaquim Pereira Teixeira de Vasconcelos, mais conhecido como Teixeira de Pascoaes, gostava de ter nascido no dia 2 de Novembro de 1877. Morreu em 1952.)