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terça-feira, 11 de maio de 2021

Rubem Fonseca 3

[...]
uma fila disciplinada de fodidos
esperava os restos finais do dia.
Os restos dos restos
iriam depois para os cães.

"Amálgama", Rubem Fonseca

(Rubem Fonseca nasceu no dia 11 de Maio de 1925. Morreu no passado mês de Abril.)

segunda-feira, 11 de maio de 2020

Rubem Fonseca 2

Ah, cansou de escrever sobre o amor? O amor não cansa, o senhor como escritor devia saber disso.

"O Cobrador", Rubem Fonseca

(Rubem Fonseca nasceu no dia 11 de Maio de 1925. Morreu no passado mês de Abril.)

quinta-feira, 16 de abril de 2020

Rubem Fonseca (1925-2020)

Encanto feminino

Continuo sensível ao encanto feminino.
Continuo gostando de sapos.
Mas dentro de casa não tenho
Nem mulher nem sapo.
Tenho livros. Tenho garfos e facas.
Tenho sapatos. O sapato que eu uso foi comprado
Há mais de 15, quinze, repito quinze, anos.
Isto é uma poesia, fiquem sabendo.
Um sujeito disse que poesia é
Aquilo que se perde na tradução.
Eu digo que poesia é o que cada um acha que é poesia.
Achar as mulheres lindas é poesia.
Tenho dito.

Rubem Fonseca

(Rubem Fonseca nasceu no dia 11 de Maio de 1925. Morreu ontem.)

sexta-feira, 10 de abril de 2015

A ignorância é óptima para a pele

Fui tratar da renovação do cartão do cidadão e, é preciso ter azar, despacharam-me em menos de um quarto de hora. Eu contava passar a tarde inteira refastelado nas instalações de Alferes Malheiro, embora tivesse marcado para as catorze um encontro com o Lopes e com as bifanas da Conga, mas ainda não era meio-dia e já me despejava no meio da rua sem saber o que fazer com os seguintes cento e vinte e tal minutos da minha vida. É isto, desabituei-me de ir à Baixa...
Ameaçava ameaçar chover. Vi uma daquelas livrarias de campanha montada mesmo à frente do meu nariz e entrei. Lá dentro, o refugo do costume ao habitual preço da uva mijona, nada de razoavelmente interessante, mas às vezes nunca se sabe...
Uma simpática funcionária, diria entre os trinta e os quarenta e, abeirou-se-me e perguntou, de sorriso engatilhado:
 
- Posso ajudá-lo?
- Ando só a ver, muito obrigado. Mas, já agora, diga-me, por favor: tem alguma coisa do Montalbán?
- De quem?
- Do Vázquez Montalbán, histórias do Pepe Carvalho...
- Quem?
- Pepe Carvalho.
- Saiu este ano?
- Não. No geral, são livros já com uns anitos...
- E o género?
- Policial, talvez. Mas dizer policial é dizer muito pouco. Policial literário e gastronómico, se for possível, e de repente não sei dizer melhor...
- Pepe Carvalho? Esse autor acho que não temos.
- Desculpe. O autor é Manuel Vázquez Montalbán. O herói dos livros é que se chama Pepe Carvalho, detective privado, uma espécie de Sherlock Holmes espanhol, mas versão séculos XX-XXI.
- Então é conhecido em Espanha...
- Acredito que sim, e em Portugal também. E no resto do mundo, se calhar. Não é que seja abonatório por aí além, mas até já fizeram filmes de um ou dois livros do Montalbán, quer ver?

Resolvi ser eu a ajudar a solícita porém desinformada funcionária. Ando exactamente a reler a Série Pepe Carvalho que as Edições ASA em boa hora começaram e em má hora interromperam, após a eucaliptal intervenção da Leya. Fui à mochila e saquei o "Assassinato no Comité Central", que por acaso acabei ainda na espera desse princípio de tarde. Expliquei à senhora:

- Vê?
- Ah! Montalbán é que é o autor. Eu estava a perceber que Pepe Carvalho é que...
- Esta era uma belíssima colecção da ASA que infelizmente...
- Ah! Livros da ASA não tenho.
- Mas Montalbán já foi publicado em português por outras editoras, pelo menos pela falecida Regra do Jogo e pela Caminho, se não me engano, há até uns livrinhos de bolso, tenho um, "As Termas"...
- "Assassinato no Comité Central", esse aí... 
- Olhe, foi um dos que deram filme. Neste, quem faz de Pepe Carvalho no cinema é, veja lá, o Patxi Andión...
- Quem?
- O Patxi Andión, o famoso cantor espanhol, o cantautor, o poeta, o escritor...
- Não estou a ver...
- Então, o Patxi Andión, ainda outro dia esteve aqui na Casa da Música...
- Não, não conheço. E até gosto de música espanhola, mas não da música pimba...
- Minha senhora, o Patxi Andión...

Ia gastar mais um pouco do meu atamancado latim para explicar à gentil funcionária quem é Patxi Andión, mas desisti. Preferi ser agradável e mentir com quantos dentes tenho, e são todos menos os sisos inferiores. Disse:

- ... Pois, evidentemente a menina é nova demais para conhecer o Patxi, o Pepe e o Montalbán. A menina é de uma geração tipo mais... tipo.
- Ai não se deixe enganar pela aparência. Estou é muito bem conservada... - devolveu-me a amável funcionária, enfim sorrindo, e corando de satisfação e vaidade.

Cientificamente provado: a ignorância faz bem à pele. Por outro lado, as bifanas estavam di-vi-nais. E o Lopes, que parece que é bruxo, trouxe-me "O Seminarista", de Rubem Fonseca. "O Seminarista"! Só tenho quem me goze...