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quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

Para aprender Patxi Andión

Fui tratar da renovação do cartão do cidadão e, é preciso ter azar, correu tudo bem. Despacharam-me em menos de um quarto de hora. Eu contava passar a tarde inteira refastelado numa das cadeiras partidas das instalações de Alferes Malheiro, embora tivesse marcado para as catorze um encontro com o Lopes e com as bifanas da Conga, mas ainda não era meio-dia e já me despejava no meio da rua sem saber o que fazer com os seguintes cento e vinte e tal minutos da minha vida. É isto, desabituei-me de ir à Baixa do Porto...
Ameaçava ameaçar chover. Vi uma daquelas livrarias de campanha montada mesmo à frente do meu nariz, no largo da estação de metro da Trindade, e entrei. Lá dentro, o refugo do costume ao habitual preço da uva mijona, nada de razoavelmente interessante, mas às vezes nunca se sabe...
Uma simpática funcionária, diria entre os trinta e muitos e os quarenta e poucos, abeirou-se-me e perguntou, de sorriso engatilhado:

- Posso ajudá-lo?
- Ando só a ver, muito obrigado. Mas, já agora, diga-me, por favor: tem alguma coisa do Montalbán?
- De quem?
- Do Vázquez Montalbán, histórias do Pepe Carvalho...
- Quem?
- Pepe Carvalho.
- Saiu este ano?
- Não. No geral, são livros já com uns anitos...
- E o género?
- Policial, talvez. Mas dizer policial é dizer muito pouco. Policial literário e gastronómico, se for possível, e de repente não sei dizer melhor...
- Pepe Carvalho? Esse autor acho que não temos.
- Desculpe. O autor é Manuel Vázquez Montalbán. O herói dos livros é que se chama Pepe Carvalho, detective privado, uma espécie de Sherlock Holmes espanhol, mas versão séculos XX-XXI.
- Então é conhecido em Espanha...
- Acredito que sim, e em Portugal também. E no resto do mundo, se calhar. Não é que seja abonatório por aí além, mas até já fizeram filmes de um ou dois livros do Montalbán, quer ver?

Resolvi ser eu a ajudar a solícita porém desinformada funcionária. Ando exactamente a reler a Série Pepe Carvalho que as Edições ASA em boa hora começaram e em má hora interromperam, após a eucaliptal intervenção da Leya. Fui à mochila e saquei o "Assassinato no Comité Central", que por acaso acabei ainda na espera desse princípio de tarde. Expliquei à senhora:

- Vê?
- Ah! Montalbán é que é o autor. Eu estava a perceber que Pepe Carvalho é que...
- Esta era uma belíssima colecção da ASA que infelizmente...
- Ah! Livros da ASA não tenho.
- Mas Montalbán já foi publicado em português por outras editoras, pelo menos pela falecida Regra do Jogo e pela Caminho, se não me engano, há até uns livrinhos de bolso, tenho um, "As Termas"...
- "Assassinato no Comité Central", esse aí... 
- Olhe, foi um dos que deram filme. Neste, quem faz de Pepe Carvalho no cinema é, veja lá, o Patxi Andión...
- Quem?
- O Patxi Andión, o famoso cantor espanhol, o cantautor, o poeta, o escritor...
- Não estou a ver...
- Então, o Patxi Andión, ainda outro dia esteve aqui na Casa da Música...
- Não, não conheço. E até gosto de música espanhola, mas não da música pimba...
- Minha senhora, o Patxi Andión...

Ia gastar mais um pouco do meu atamancado latim para explicar à gentil funcionária quem é Patxi Andión, mas desisti. Preferi ser agradável e mentir com quantos dentes tenho, e são todos menos os sisos inferiores. Disse:
- ... Pois, evidentemente a menina é nova demais para conhecer o Patxi, o Pepe e o Montalbán. A menina é de uma geração tipo mais... tipo.
- Ai não se deixe enganar pela aparência. Estou é muito bem conservada... - devolveu-me a amável funcionária, enfim sorrindo, e corando de satisfação e vaidade.

Cientificamente provado: a ignorância faz bem à pele. Por outro lado, as bifanas estavam di-vi-nais, como diria o meu irmão Nelo. E o Lopes, que parece que é bruxo, trouxe-me "O Seminarista", de Rubem Fonseca. "O Seminarista"! Só tenho quem me goze...

P.S. - Publicado originalmente no dia 30 de Julho de 2016, então sob o título "A ignorância faz bem à pele e as bifanas também". Patxi Andión, que vem a Portugal desde o tempo do Zip Zip e da sua amizade com Ary dos Santos e Zeca Afonso, celebra os seus 50 anos de carreira lançando o disco "La Hora Lobicán". Em Setembro cá tornará, a Lisboa e ao Porto. Bom para aprender quem ele é.)

(O texto adendado de cima publiquei-o no passado dia 11 de Março de 2019. Patxi Andión morreu hoje.)

segunda-feira, 11 de março de 2019

Para aprender Patxi Andión

Fui tratar da renovação do cartão do cidadão e, é preciso ter azar, correu tudo bem. Despacharam-me em menos de um quarto de hora. Eu contava passar a tarde inteira refastelado numa das cadeiras partidas das instalações de Alferes Malheiro, embora tivesse marcado para as catorze um encontro com o Lopes e com as bifanas da Conga, mas ainda não era meio-dia e já me despejava no meio da rua sem saber o que fazer com os seguintes cento e vinte e tal minutos da minha vida. É isto, desabituei-me de ir à Baixa do Porto...
Ameaçava ameaçar chover. Vi uma daquelas livrarias de campanha montada mesmo à frente do meu nariz, no largo da estação de metro da Trindade, e entrei. Lá dentro, o refugo do costume ao habitual preço da uva mijona, nada de razoavelmente interessante, mas às vezes nunca se sabe...
Uma simpática funcionária, diria entre os trinta e muitos e os quarenta e poucos, abeirou-se-me e perguntou, de sorriso engatilhado:

- Posso ajudá-lo?
- Ando só a ver, muito obrigado. Mas, já agora, diga-me, por favor: tem alguma coisa do Montalbán?
- De quem?
- Do Vázquez Montalbán, histórias do Pepe Carvalho...
- Quem?
- Pepe Carvalho.
- Saiu este ano?
- Não. No geral, são livros já com uns anitos...
- E o género?
- Policial, talvez. Mas dizer policial é dizer muito pouco. Policial literário e gastronómico, se for possível, e de repente não sei dizer melhor...
- Pepe Carvalho? Esse autor acho que não temos.
- Desculpe. O autor é Manuel Vázquez Montalbán. O herói dos livros é que se chama Pepe Carvalho, detective privado, uma espécie de Sherlock Holmes espanhol, mas versão séculos XX-XXI.
- Então é conhecido em Espanha...
- Acredito que sim, e em Portugal também. E no resto do mundo, se calhar. Não é que seja abonatório por aí além, mas até já fizeram filmes de um ou dois livros do Montalbán, quer ver?

Resolvi ser eu a ajudar a solícita porém desinformada funcionária. Ando exactamente a reler a Série Pepe Carvalho que as Edições ASA em boa hora começaram e em má hora interromperam, após a eucaliptal intervenção da Leya. Fui à mochila e saquei o "Assassinato no Comité Central", que por acaso acabei ainda na espera desse princípio de tarde. Expliquei à senhora:

- Vê?
- Ah! Montalbán é que é o autor. Eu estava a perceber que Pepe Carvalho é que...
- Esta era uma belíssima colecção da ASA que infelizmente...
- Ah! Livros da ASA não tenho.
- Mas Montalbán já foi publicado em português por outras editoras, pelo menos pela falecida Regra do Jogo e pela Caminho, se não me engano, há até uns livrinhos de bolso, tenho um, "As Termas"...
- "Assassinato no Comité Central", esse aí... 
- Olhe, foi um dos que deram filme. Neste, quem faz de Pepe Carvalho no cinema é, veja lá, o Patxi Andión...
- Quem?
- O Patxi Andión, o famoso cantor espanhol, o cantautor, o poeta, o escritor...
- Não estou a ver...
- Então, o Patxi Andión, ainda outro dia esteve aqui na Casa da Música...
- Não, não conheço. E até gosto de música espanhola, mas não da música pimba...
- Minha senhora, o Patxi Andión...

Ia gastar mais um pouco do meu atamancado latim para explicar à gentil funcionária quem é Patxi Andión, mas desisti. Preferi ser agradável e mentir com quantos dentes tenho, e são todos menos os sisos inferiores. Disse:
- ... Pois, evidentemente a menina é nova demais para conhecer o Patxi, o Pepe e o Montalbán. A menina é de uma geração tipo mais... tipo.
- Ai não se deixe enganar pela aparência. Estou é muito bem conservada... - devolveu-me a amável funcionária, enfim sorrindo, e corando de satisfação e vaidade.

Cientificamente provado: a ignorância faz bem à pele. Por outro lado, as bifanas estavam di-vi-nais, como diria o meu irmão Nelo. E o Lopes, que parece que é bruxo, trouxe-me "O Seminarista", de Rubem Fonseca. "O Seminarista"! Só tenho quem me goze...

(Publicado originalmente no dia 30 de Julho de 2016, então sob o título "A ignorância faz bem à pele e as bifanas também". Patxi Andión, que vem a Portugal desde o tempo do Zip Zip e da sua amizade com Ary dos Santos e Zeca Afonso, celebra os seus 50 anos de carreira lançando o disco "La Hora Lobicán". Em Setembro cá tornará, a Lisboa e ao Porto. Bom para aprender quem ele é.)

domingo, 24 de fevereiro de 2019

Quando os óscares eram acúrsios 5

Foto Hernâni Von Doellinger

A ignorância é óptima para a pele
Fui tratar da renovação do cartão do cidadão e, é preciso ter azar, despacharam-me em menos de um quarto de hora. Eu contava passar a tarde inteira refastelado nas instalações de Alferes Malheiro, embora tivesse marcado para as catorze um encontro com o Lopes e com as bifanas da Conga, mas ainda não era meio-dia e já me despejava no meio da rua sem saber o que fazer com os seguintes cento e vinte e tal minutos da minha vida. É isto, desabituei-me de ir à Baixa...
Ameaçava ameaçar chover. Vi uma daquelas livrarias de campanha montada mesmo à frente do meu nariz e entrei. Lá dentro, o refugo do costume ao habitual preço da uva mijona, nada de razoavelmente interessante, mas às vezes nunca se sabe...
Uma simpática funcionária, diria entre os trinta e os quarenta e, abeirou-se-me e perguntou, de sorriso engatilhado:
 
- Posso ajudá-lo?
- Ando só a ver, muito obrigado. Mas, já agora, diga-me, por favor: tem alguma coisa do Montalbán?
- De quem?
- Do Vázquez Montalbán, histórias do Pepe Carvalho...
- Quem?
- Pepe Carvalho.
- Saiu este ano?
- Não. No geral, são livros já com uns anitos...
- E o género?
- Policial, talvez. Mas dizer policial é dizer muito pouco. Policial literário e gastronómico, se for possível, e de repente não sei dizer melhor...
- Pepe Carvalho? Esse autor acho que não temos.
- Desculpe. O autor é Manuel Vázquez Montalbán. O herói dos livros é que se chama Pepe Carvalho, detective privado, uma espécie de Sherlock Holmes espanhol, mas versão séculos XX-XXI.
- Então é conhecido em Espanha...
- Acredito que sim, e em Portugal também. E no resto do mundo, se calhar. Não é que seja abonatório por aí além, mas até já fizeram filmes de um ou dois livros do Montalbán, quer ver?

Resolvi ser eu a ajudar a solícita porém desinformada funcionária. Ando exactamente a reler a Série Pepe Carvalho que as Edições ASA em boa hora começaram e em má hora interromperam, após a eucaliptal intervenção da Leya. Fui à mochila e saquei o "Assassinato no Comité Central", que por acaso acabei ainda na espera desse princípio de tarde. Expliquei à senhora:

- Vê?
- Ah! Montalbán é que é o autor. Eu estava a perceber que Pepe Carvalho é que...
- Esta era uma belíssima colecção da ASA que infelizmente...
- Ah! Livros da ASA não tenho.
- Mas Montalbán já foi publicado em português por outras editoras, pelo menos pela falecida Regra do Jogo e pela Caminho, se não me engano, há até uns livrinhos de bolso, tenho um, "As Termas"...
- "Assassinato no Comité Central", esse aí... 
- Olhe, foi um dos que deram filme. Neste, quem faz de Pepe Carvalho no cinema é, veja lá, o Patxi Andión...
- Quem?
- O Patxi Andión, o famoso cantor espanhol, o cantautor, o poeta, o escritor...
- Não estou a ver...
- Então, o Patxi Andión, ainda outro dia esteve aqui na Casa da Música...
- Não, não conheço. E até gosto de música espanhola, mas não da música pimba...
- Minha senhora, o Patxi Andión...

Ia gastar mais um pouco do meu atamancado latim para explicar à gentil funcionária quem é Patxi Andión, mas desisti. Preferi ser agradável e mentir com quantos dentes tenho, e são todos menos os sisos inferiores. Disse:

- ... Pois, evidentemente a menina é nova demais para conhecer o Patxi, o Pepe e o Montalbán. A menina é de uma geração tipo mais... tipo.
- Ai não se deixe enganar pela aparência. Estou é muito bem conservada... - devolveu-me a amável funcionária, enfim sorrindo, e corando de satisfação e vaidade.

Cientificamente provado: a ignorância faz bem à pele. Por outro lado, as bifanas estavam di-vi-nais. E o Lopes, que parece que é bruxo, trouxe-me "O Seminarista", de Rubem Fonseca. "O Seminarista"! Só tenho quem me goze...  


(Publicado originalmente no dia 10 de Abril de 2015)

O jornalista cultural
Homem de cultura, colaborador em jornais e televisões, nome com assinatura reconhecida nos melhores suplementos de artes e letras, inclusive blogues, Bonifácio de Montalvar foi ao cinema de reprise. Viu "Guerra e Paz", de King Vidor, com Audrey Hepburn, Henry Fonda, Mel Ferrer e o italiano Vittorio Gassman, mais uns tantos. Gostou do enredo, ou da estória, como preferia dizescrever. E declarou no foyer da despedida, alto e bom som, para que ficasse lavrado em acta: - Isto, sim, dava um bom livro. Como é que ninguém se lembrou?...

sexta-feira, 10 de abril de 2015

A ignorância é óptima para a pele

Fui tratar da renovação do cartão do cidadão e, é preciso ter azar, despacharam-me em menos de um quarto de hora. Eu contava passar a tarde inteira refastelado nas instalações de Alferes Malheiro, embora tivesse marcado para as catorze um encontro com o Lopes e com as bifanas da Conga, mas ainda não era meio-dia e já me despejava no meio da rua sem saber o que fazer com os seguintes cento e vinte e tal minutos da minha vida. É isto, desabituei-me de ir à Baixa...
Ameaçava ameaçar chover. Vi uma daquelas livrarias de campanha montada mesmo à frente do meu nariz e entrei. Lá dentro, o refugo do costume ao habitual preço da uva mijona, nada de razoavelmente interessante, mas às vezes nunca se sabe...
Uma simpática funcionária, diria entre os trinta e os quarenta e, abeirou-se-me e perguntou, de sorriso engatilhado:
 
- Posso ajudá-lo?
- Ando só a ver, muito obrigado. Mas, já agora, diga-me, por favor: tem alguma coisa do Montalbán?
- De quem?
- Do Vázquez Montalbán, histórias do Pepe Carvalho...
- Quem?
- Pepe Carvalho.
- Saiu este ano?
- Não. No geral, são livros já com uns anitos...
- E o género?
- Policial, talvez. Mas dizer policial é dizer muito pouco. Policial literário e gastronómico, se for possível, e de repente não sei dizer melhor...
- Pepe Carvalho? Esse autor acho que não temos.
- Desculpe. O autor é Manuel Vázquez Montalbán. O herói dos livros é que se chama Pepe Carvalho, detective privado, uma espécie de Sherlock Holmes espanhol, mas versão séculos XX-XXI.
- Então é conhecido em Espanha...
- Acredito que sim, e em Portugal também. E no resto do mundo, se calhar. Não é que seja abonatório por aí além, mas até já fizeram filmes de um ou dois livros do Montalbán, quer ver?

Resolvi ser eu a ajudar a solícita porém desinformada funcionária. Ando exactamente a reler a Série Pepe Carvalho que as Edições ASA em boa hora começaram e em má hora interromperam, após a eucaliptal intervenção da Leya. Fui à mochila e saquei o "Assassinato no Comité Central", que por acaso acabei ainda na espera desse princípio de tarde. Expliquei à senhora:

- Vê?
- Ah! Montalbán é que é o autor. Eu estava a perceber que Pepe Carvalho é que...
- Esta era uma belíssima colecção da ASA que infelizmente...
- Ah! Livros da ASA não tenho.
- Mas Montalbán já foi publicado em português por outras editoras, pelo menos pela falecida Regra do Jogo e pela Caminho, se não me engano, há até uns livrinhos de bolso, tenho um, "As Termas"...
- "Assassinato no Comité Central", esse aí... 
- Olhe, foi um dos que deram filme. Neste, quem faz de Pepe Carvalho no cinema é, veja lá, o Patxi Andión...
- Quem?
- O Patxi Andión, o famoso cantor espanhol, o cantautor, o poeta, o escritor...
- Não estou a ver...
- Então, o Patxi Andión, ainda outro dia esteve aqui na Casa da Música...
- Não, não conheço. E até gosto de música espanhola, mas não da música pimba...
- Minha senhora, o Patxi Andión...

Ia gastar mais um pouco do meu atamancado latim para explicar à gentil funcionária quem é Patxi Andión, mas desisti. Preferi ser agradável e mentir com quantos dentes tenho, e são todos menos os sisos inferiores. Disse:

- ... Pois, evidentemente a menina é nova demais para conhecer o Patxi, o Pepe e o Montalbán. A menina é de uma geração tipo mais... tipo.
- Ai não se deixe enganar pela aparência. Estou é muito bem conservada... - devolveu-me a amável funcionária, enfim sorrindo, e corando de satisfação e vaidade.

Cientificamente provado: a ignorância faz bem à pele. Por outro lado, as bifanas estavam di-vi-nais. E o Lopes, que parece que é bruxo, trouxe-me "O Seminarista", de Rubem Fonseca. "O Seminarista"! Só tenho quem me goze...

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

A teia da Leya

Novembro de 2006 bateu-me à porta com uma grande notícia: todos os livros do escritor catalão Manuel Vázquez Montalbán (1939-2003) com o detective privado Pepe Carvalho iam ser publicados, ou republicados, em português. Era um projecto das Edições ASA e, ao que foi então tornado público, uma aposta pessoal do seu director-geral, Manuel Alberto Valente, confesso admirador do autor de "Eu Matei Kennedy".
Montalbán tinha-me sido ensinado pelo meu amigo Luís Lopes, que me emprestara tudo o que Portugal conhecia da série Pepe Carvalho, que eram para aí uns cinco ou seis títulos, isto, se bem me lembro, lá pelos finais da década de 1980, princípios da década de 1990. E foi tiro e queda, tiro limpo, bem no meio do coração: tornei-me vázquez-montalbanista. Em 1999, pelos meus anos ou pelo Natal, alguém que sabia da minha paixão e que se me varreu fez o favor de me oferecer "O Quinteto de Buenos Aires". A esse respeito, aqui vai o meu mais sentido muitíssimo obrigadíssimo não sei a quem.
Com a minha mania de devolver ao dono o que me é emprestado, "O Quinteto" era tudo o que eu tinha de Pepe Carvalho quando soube da magnífica novidade. Fui logo a correr fazer a reserva de toda a colecção, 22 livros que deveriam ir saindo ao longo de uma meia dúzia de anos.
Saíram "Milénio I" e "Milénio II", trabalho que Montalbán revia quando foi acometido de um fulminante ataque cardíaco em Banguecoque, cenário de outro título da série que também foi publicado, "Os Pássaros de Banguecoque"; saíram ainda "Assassinato no Comité Central" e "Os Mares do Sul"; e não saiu mais nada.
Nos inícios de 2008, a Leya, de Miguel Pais do Amaral, abocanhou a ASA e mais não sei quantas editoras nacionais, Manuel Alberto Valente foi-se embora e o Pepe Carvalho de Manuel Vázquez Montalbán, que já passara por tantas e de todas se safara, morreu mesmo ali, sem direito a notícia no jornal, quanto mais missa de sétimo dia.
Fui às livrarias, procurei saber o que acontecera. Se vissem como eu vi o desconsolo com que as caras e os silêncios dos livreiros me falaram da Leya, do mal que o quase-monopólio da Leya está a fazer ao mercado do livro em Portugal, do sufoco imposto pela teia da Leya, então perceberiam porque me inquietei.
Passei dois anos a questionar directamente a Leya, por e-mail. Perguntava, respeitosa e repetidamente: vão retomar a publicação da série? Quando? Nunca me responderam. Dois anos, até desistir. Mas nunca me responderam. Os mesmos que, abusando do conhecimento do meu endereço electrónico, ainda ontem me enviaram o seu habitual folheto de supermercado livreiro, cheio de inutilidades editoriais mas "com descontos até 40%".

(Texto escrito e publicado no dia 24 de Agosto de 2011. Não era embirração, estão ver? Quanto ao Miguel Sousa Tavares, sabe-a toda, e ainda bem para ele.)

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Perseguido pela Leya

Ando a ser perseguido pela Leya. Ousei questionar a suspensão da publicação da Série Pepe Carvalho, do escritor catalão Manuel Vázquez Montalbán (1939-2003), que vinha do tempo da saudosa ASA, e, em retaliação, a eucalíptica editora de Pais do Amaral não só não me respondeu, como, a partir daí, começou a atacar a minha caixa de correio electrónico com newsletters cheias de brindes e outras inutilidades editoriais. Já me desarrisquei uma série de vezes da lista de Leya, onde fui metido sem me pedirem licença, mas não adianta. A Leya não me larga. Persegue-me.
Ainda na passada terça-feira tentou vender-me "As memórias de Churchill e uma oferta exclusiva". Mandei para canto, mas aproveitei para, uma vez mais, anular o meu registo compulsivo na folha de distribuição do folheto de supermercado do grupo. Recebi de imediato a seguinte informação: "O seu pedido de cancelamento de subscrição da newsletter Mediabooks foi concluído com sucesso. A partir deste momento deixará de receber as Newsletters MediaBooks."
E pronto, o assunto ficou resolvido. Pelo menos durante dois dias. No sábado, a Leya fez-se de esquecida e voltou à carga, desta vez tentando seduzir-me com "Carolina Salgado:: Descida ao Inferno". E logo com a sostra da Carolina Salgado. Tarrenego!, digo eu.

sábado, 29 de outubro de 2011

Praticamente a mesma coisa

Eu escrevo e peço à Leya que retome a publicação da Série Pepe Carvalho, de Manuel Vázquez Montalbán. A Leya informa-me que está aí o "novo livro de António Sala". Também está bem.