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sábado, 13 de março de 2021

Cacaso 7

Hora do recreio

O coração em frangalhos o poeta é
levado a optar entre dois amores.

As duas não pode ser pois ambas não deixariam
uma só é impossível pois há os olhos da outra
e nenhuma é um verso que não é deste poema

Por hoje basta. Amanhã volto a pensar neste problema.

"Beijo na Boca e Outros Poemas", Cacaso

(Cacaso nasceu no dia 13 de Março de 1944. Morreu em 1987.)

domingo, 5 de julho de 2020

Álvaro Feijó 4

Poema

Fundiu-se o olhar do poeta em lágrimas salgadas
e o poeta não quis cantar o que os seus olhos viram.
É que o poeta só cantava
para as meninas dos balcões floridos
de cactos e de cravos,
para aquelas
que sonham com estrelas
e príncipes de lenda.
- E preferiu cegar.
Fechar os olhos ao vaivém da rua
e continuar morando em sua Torre de Marfim.

Ah! Poeta inútil!
Enrouqueceu a cantar as líricas inúteis
aos cravos das janelas
das meninas fúteis
e ninguém mais se lembrará de ti.
Mas se cantares a rua, a fome, o sofrimento,
se abrires os olhos sobre o nosso mundo,
se conseguires que toda a gente o veja
e o sinta, e sofra, só de ver sofrer,
ninguém se lembrará de ti, poeta,
mas terás feito a tua luta,
e, nela,
justificado uma razão de ser.


Álvaro Feijó

(Álvaro Feijó nasceu no dia 5 de Julho de 1916. Morreu em 1941.)

sexta-feira, 13 de março de 2020

Cacaso 6

Poema

Trago comigo um retrato
que me carrega com ele bem antes
de o possuir bem depois de o ter perdido.
Toda felicidade é memória e projeto.

"Beijo na Boca e Outros Poemas", Cacaso
(Cacaso nasceu no dia 13 de Março de 1944. Morreu em 1987.)

terça-feira, 20 de agosto de 2019

Décio Pignatari 4

Poema 

Tosco dizer de coisas fluidas,
Gume de rocha rasga o vento:
Semanas tantas de existir
E de viver - um só momento.

Prisma empanado da retina
Que acalanta mundos sem prumo,
A luz que o fere perde o rumo,
Aclara a linfa submarina:

Prédios mergulham ramos de cimento,
Neons fazem dos olhos coágulos de seixos,
E esquinas lanham flancos desse rio sem peixes
De que sou fonte e náufrago no inteiro.


"Poesia Pois É Poesia", Décio Pignatari

(Décio Pignatari nasceu no dia 20 de Agosto de 1927. Morreu em 2012.)

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

António José Forte 4

Poema 

Um sábio
não sabia fumar cachimbo

mas a mulher do sábio sabia

quando o sábio chorava
por não saber fumar cachimbo
a mulher do sábio sorria


e assim durante meses e anos

até que
no dia em que o sábio sabia que morria
não disse à mulher que sabia


por isso quando ele chorava
a mulher do sábio sorria


"Uma Faca nos Dentes", António José Forte

(António José Forte nasceu no dia 6 de Fevereiro de 1931. Morreu em 1988.)

domingo, 24 de junho de 2018

Pedro Oom 5

Poema

Tua boca
é um dia estreito
cheio de moscas
De noite
tem a cor azul-verde
dum veneno
como o mar.

Pedro Oom

(Pedro Oom nasceu no dia 24 de Junho de 1926. Morreu em 1974.)

segunda-feira, 19 de março de 2018

Mauro Sampaio 2

Poema

Os primeiros caminhos são ingênuos.
À noite
A saudade tece um pássaro de sonhos.   

"O Avesso da Memória", Mauro Sampaio

(Mauro Sampaio nasceu no dia 19 de Março de 1917)

sábado, 26 de agosto de 2017

Joaquim Cardozo

Poema

Eu não quero o teu corpo
Eu não quero a tua alma,
Eu deixarei intato o teu ser a tua pessoa inviolável
Eu quero apenas uma parte neste prazer
A parte que não te pertence


Joaquim Cardozo

(Joaquim Cardozo nasceu no dia 26 de Agosto de 1897. Morreu em 1978.)

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

José Guimarães Alves

Poema

Seremos formados em boiões de vidro cem por cento neutro
Que nos protegerão como úteros científicos
E assim flutuaremos em soluções a 37 graus centígrados
Até serem abertas as comportas da vida.
Receberemos números e letras de séries,
Revivescência inevitável de nomes e sobrenomes.
As raízes de nossa carne e de nossa mente
Serão fáceis de achar como um frio logarotmo.
Aprenderemos a vida com imperturbáveis olhos de célula fotoelétrica
E com precisos ouvidos de afinação eletrônica.
Comeremos rações balanceadas em restaurantes padronizados.
Não teremos medo, não teremos ódio,
Seremos exatos e pontuais.
A multiplicação não será mais nenhum mistério
E nossos filhos, subcompostos e calculados sem tristezas nem alegrias.
Morreremos quando o Ministério da Energia Social
Resolver que foi atingido o limite de nossa utilidade funcional.
Mas não duvido que na caixa onde guarda cinzas de mortos
Mãos tímidas poderão ainda colocar flores de vidro asséptico
Num gesto cujo sentido ficou perdido nas eras.


José Guimarães Alves

(José Guimarães Alves nasceu no dia 24 de Janeiro de 1910. Morreu em 1992.)

sábado, 6 de fevereiro de 2016

António José Forte

Poema

Alguma coisa onde tu parada
fosses depois das lágrimas uma ilha,
e eu chegasse para dizer-te adeus
de repente na curva duma estrada

alguma coisa onde a tua mão
escrevesse cartas para chover
e eu partisse a fumar
e o fumo fosse para se ler

alguma coisa onde tu ao norte
beijasses nos olhos os navios
e eu rasgasse o teu retrato
para vê-lo passar na direcção dos rios

alguma coisa onde tu corresses
numa rua com portas para o mar
e eu morresse
para ouvir-te sonhar


"Uma Faca nos Dentes", António José Forte

(António José Forte nasceu no dia 6 de Fevereiro de 1931. Morreu em 1988.)