Mostrar mensagens com a etiqueta Paulo Mendes Campos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Paulo Mendes Campos. Mostrar todas as mensagens

domingo, 28 de fevereiro de 2021

Paulo Mendes Campos 5

As mãos que se procuram
 
Quando o olhar adivinhando a vida
Prende-se a outro olhar de criatura
O espaço se converte na moldura
O tempo incide incerto sem medida

As mãos que se procuram ficam presas
Os dedos estreitados lembram garras
Da ave de rapina quando agarra
A carne de outras aves indefesas

A pele encontra a pele e se arrepia
Oprime o peito o peito que estremece
O rosto o outro rosto desafia

A carne entrando a carne se consome
Suspira o corpo todo e desfalece
E triste volta a si com sede e fome.

[Amor Condusse Noi Ad Una Morte] 


Paulo Mendes Campos

(Paulo Mendes Campos nasceu no dia 28 de Fevereiro de 1922. Morreu em 1991.)

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

Paulo Mendes Campos 4

Cantiga para Djanira

O vento é o aprendiz das horas lentas,
traz suas invisíveis ferramentas,
suas lixas, seus pentes finos,
cinzela seus cabelos pequeninos,
onde não cabem gigantes contrafeitos,
e, sem emendar jamais os seus defeitos,
já rosna descontente e guaia
de aflição e dispara à outra praia,
onde talvez enfim possa assentar
seu momento de areia - e descansar.


Paulo Mendes Campos

(Paulo Mendes Campos nasceu no dia 28 de Fevereiro de 1922. Morreu em 1991.)

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

Paulo Mendes Campos 3

Despede teu pudor

Despede teu pudor com a camisa
E deixa alada louca sem memória
Uma nudez nascida para a glória
Sofrer de meu olhar que te heroíza

Tudo teu corpo tem, não te humaniza
Uma cegueira fácil de vitória
E como a perfeição não tem história
São leves teus enredos como a brisa

Constante vagaroso combinado
Um anjo em ti se opõe à luta e luto
E tombo como um sol abandonado

Enquanto amor se esvai a paz se eleva
Teus pés roçando nos meus pés escuto
O respirar da noite que te leva.

Paulo Mendes Campos

(Paulo Mendes Campos nasceu no dia 28 de Fevereiro de 1922. Morreu em 1991.)

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Paulo Mendes Campos 2

O tempo

Só no passado a solidão é inexplicável.
Tufo de plantas misteriosas o presente
Mas o passado é como a noite escura
Sobre o mar escuro

Embora irreal o abutre
É incómodo meu sonho de ser real
Ou somos nós aparições fantasiosas
E forte e verdadeiro o abutre do rochedo

Os que se lembram trazem no rosto
A melancolia do defunto

Ontem o mundo existe

O agora é a hora da nossa morte 

"A Palavra Escrita", Paulo Mendes Campos

(Paulo Mendes Campos nasceu no dia 28 de Fevereiro de 1922. Morreu em 1991.)

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Paulo Mendes Campos

Três coisas

Não consigo entender
O tempo
A morte
Teu olhar

 
O tempo é muito comprido
A morte não tem sentido
Teu olhar me põe perdido

Não consigo medir
O tempo
A morte
Teu olhar
O tempo, quando é que cessa?
A morte, quando começa?
Teu olhar, quando se expressa?

 
Muito medo tenho
Do tempo
Da morte
De teu olhar

 
O tempo levanta o muro.
 

A morte será o escuro?
 

Em teu olhar me procuro. 

Paulo Mendes Campos

(Paulo Mendes Campos nasceu no dia 28 de Fevereiro de 1922. Morreu em 1991.)