P.S. - Publicado originalmente no dia 30 de Março de 2018. A piza napolitana e a arte dos seus genuínos fazedores foram elevadas a Património Imaterial da Humanidade da UNESCO no dia 6 de Dezembro de 2017.
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segunda-feira, 6 de dezembro de 2021
Lapsus linguae
Entrou de rompante e gritou: mãos ao ar, isto é um assalto!
Ficou admirado. O que ele queria dizer era: alto e pára o baile! Andava desesperado e absolutamente insone com aquele forrobodó todas as noites no andar de cima. Mas estava dito, estava dito: desceu
com um LCD de 100 polegadas, uma mesa de DJ, seis colunas de som surround, um globo espelhado, oito CD do Quim Barreiros, dois tablets,
quatro telemóveis, sete relógios - um de sala -, seis pulseiras, cinco
colares, doze pares de brincos, dois pacotes de batatas fritas, meia
piza familiar de cogumelos e fiambre com extra queijo, um pacote de Sugus morango e
framboesa, nove gramas de haxixe, garrafa e meia de vodka, duas
canecas de sangria, vazias, três garrafas de Casal Garcia, treze cartões
de crédito, um vale de reforma, 837 euros em numerário, dezassete certificados covid falsos e quarenta e nove volumes com a transcrição não censurada dos telefonemas mais íntimos e picantes de Pinto da Costa.
domingo, 5 de janeiro de 2020
É património até dar com um pau
| Foto Hernâni Von Doellinger |
Por exemplo, o jogo do pau. Porque não? Ou o berlinde, a carica, o pião, o espeto, a macaca, o moche, o tene, a cabra-cega, o arranca-cebolas, o mamã-dá-licença, o esconde-esconde. Ou o jogo da malha. Ou o jogo da bisca. Ou o jogo Benfica-CUF de 22 de Março de 1959. Porque não?
Por exemplo, as Janeiras, os Reis, as novenas, o terço e a bênção do Santíssimo. Porque não? As marchas de Lisboa e as rusgas do Porto e os caretos de Podence e o carnaval de Ovar e as "Velhas" da Terceira e as adufeiras de Monsanto. Ou a cantiga no duche, ou a lengalenga do avô, ou a arenga de bêbado, ou o apita-o-comboio, ou o atirei-o-pau-ao-gato, ou o areias-era-um-camelo. Ou o canto pimba, ou o canto neiro. Porque não?
Por exemplo, os ranchos folclóricos, os conjuntos típicos, a Maria Albertina e o António Mafra, os grupos excursionistas, os motoclubes e as motosserras. Ou as bandas de música. Porque não? Ou os bandos de malfeitores. Ou os submarinos e os bancos, os salgados e os doces, da alheira de Mirandela ao pastel de Belém. Porque não?
Por exemplo, o manguito do Bordalo. Ou o caralho das Caldas. Porque não?
Por exemplo, o assobio. Porque não?
Com assinalável pertinácia, Portugal mete os dedos à boca e vomita património e material da omaninade por todos os lados. Um destes dias, sem darmos fé, estamos todos condecorados. Da cabeça aos pés.
P.S. - Publicado originalmente no dia 21 de Janeiro de 2015. E, meu dito meu feito, os caretos de Podence já lá estão. Os das Caldas deverão esforçar-se um bocadinho mais, isso é certo.
sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018
Honrando a dieta mediterrânica
Assinala-se hoje o quinto aniversário da elevação da dieta mediterrânica a Património Imaterial da Humanidade. Quer-se dizer: se hoje fosse dia 4 de Dezembro de 2018 o assinalamento seria porventura mais exacto, mas aqui o que interessa é a intenção: portanto é hoje.
O que eu gosto mais na dieta mediterrânica, para além da comida propriamente dita, é o facto de se chamar dieta, o que me sossega sobremaneira a consciência, embora me alvoroce os intestinos. Uma dieta feita, paradigmaticamente, à base dos ossinhos da suã da Tasquinha da Alice, em Bobal, Mondim de Basto, como quem vai para as Fisgas de Ermelo, entalados, os ossinhos, entre salpicão caseiro e moiras encantadas e um naco de orelheira para desenfastiar e duas ou três costelinhas e meia dúzia de fatias de toucinho com o sal no ponto e batatas sabendo a terra e olhos de couves geadas pela madrugada e feijão vermelho da leira ao lado e por cima alho picado e azeite da fartura e do melhor mais um tintinho honesto e de malga para molhar a palavra. Produtos frescos, locais e produzidos em sintonia com os ciclos astrais e os ritmos da natureza, como muito bem preconiza a UNESCO. E eu respeito implacavelmente a UNESCO.
O que eu gosto mais na dieta mediterrânica, para além da comida propriamente dita, é o facto de se chamar dieta, o que me sossega sobremaneira a consciência, embora me alvoroce os intestinos. Uma dieta feita, paradigmaticamente, à base dos ossinhos da suã da Tasquinha da Alice, em Bobal, Mondim de Basto, como quem vai para as Fisgas de Ermelo, entalados, os ossinhos, entre salpicão caseiro e moiras encantadas e um naco de orelheira para desenfastiar e duas ou três costelinhas e meia dúzia de fatias de toucinho com o sal no ponto e batatas sabendo a terra e olhos de couves geadas pela madrugada e feijão vermelho da leira ao lado e por cima alho picado e azeite da fartura e do melhor mais um tintinho honesto e de malga para molhar a palavra. Produtos frescos, locais e produzidos em sintonia com os ciclos astrais e os ritmos da natureza, como muito bem preconiza a UNESCO. E eu respeito implacavelmente a UNESCO.
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| Foto Tarrenego! |
quinta-feira, 1 de dezembro de 2016
Levemos os furões à UNESCO
A falcoaria portuguesa foi hoje classificada como Património Imaterial da UNESCO. A falcoaria, numa das suas definições mais acessíveis, é a arte de treinar e cuidar de falcões e outras aves de rapina para a caça. Os falcões e colaterais contrafacções caçam, matam e comem, em geral, outras aves e pequenos quadrúpedos que não têm lóbi na UNESCO. Está certo: a UNESCO é uma organização das Nações Unidas que visa contribuir para a paz e segurança no mundo mediante a educação, a ciência, a cultura e as comunicações.
A moda é nova, mas, em Portugal, o fado, a dieta mediterrânica, o cante alentejano, os chocalhos e a olaria preta de Bisalhães já tinham sido elevados aos píncaros do Património Imaterial da UNESCO. Com a falcoaria, estamos irremediavelmente lançados. Eu, por mim, penso agora nos sapateiros, nas mulheres-a-dias, nos falsos licenciados, nos periquitos, nos tocadores de punhetas, nos perdigueiros e, andava há que tempos, nos furões.
A moda é nova, mas, em Portugal, o fado, a dieta mediterrânica, o cante alentejano, os chocalhos e a olaria preta de Bisalhães já tinham sido elevados aos píncaros do Património Imaterial da UNESCO. Com a falcoaria, estamos irremediavelmente lançados. Eu, por mim, penso agora nos sapateiros, nas mulheres-a-dias, nos falsos licenciados, nos periquitos, nos tocadores de punhetas, nos perdigueiros e, andava há que tempos, nos furões.
sábado, 31 de janeiro de 2015
Património e material da omanidade
| Foto Hernâni Von Doellinger |
Por exemplo, o jogo do pau. Porque não? Ou o berlinde, a carica, o pião, o espeto, a macaca, o moche, o tene, a cabra-cega, o arranca-cebolas, o mamã-dá-licença, o esconde-esconde. Ou o jogo da malha. Ou o jogo da bisca. Ou o jogo Benfica-CUF de 22 de Março de 1959. Porque não?
Por exemplo, as Janeiras, os Reis, as novenas, o terço e a bênção do Santíssimo. Porque não? As marchas de Lisboa e as rusgas do Porto e os caretos de Podence e o carnaval de Ovar e as "Velhas" da Terceira e as adufeiras de Monsanto. Ou a cantiga no duche, ou a lengalenga do avô, ou a arenga de bêbado, ou o apita-o-comboio, ou o atirei-o-pau-ao-gato, ou o areias-era-um-camelo. Ou o canto pimba, ou o canto neiro. Porque não?
Por exemplo, os ranchos folclóricos, os conjuntos típicos, a Maria Albertina e o António Mafra, os grupos excursionistas, os motoclubes e as motosserras. Ou as bandas de música. Porque não? Ou os bandos de malfeitores. Ou os submarinos e os bancos, os salgados e os doces, da alheira de Mirandela ao pastel de Belém. Porque não?
Por exemplo, o manguito do Bordalo. Ou o caralho das Caldas. Porque não?
Por exemplo, o assobio. Porque não?
Com assinalável pertinácia, Portugal mete os dedos à boca e vomita património e material da omaninade por todos os lados. Um destes dias, sem darmos fé, estamos todos condecorados. Da cabeça aos pés.
domingo, 8 de dezembro de 2013
A dieta mediterrânica e outras tretas
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| Foto Hernâni Von Doellinger |
Dieta mediterrânica é cá em casa. Eu é que sei, mas, já estou habituado, ninguém me perguntou nada. A chamada dieta mediterrânica passou outro dia a Património Imaterial da Humanidade. Gosto da pomposidade das maiúsculas e gosto da palavra "Imaterial", porque, pensando bem, é uma palavra que, não sendo sólida nem líquida, resvala sorrateiramente para o domínio do "Gasoso" - o que confere.
Mas lá está: a UNESCO decidiu e está decidido. Agora, diz o jornal, a dieta mediterrânica tem de ser "estudada, inventariada, divulgada, protegida". Agora? Não percebo. Então essa parte não foi feita antes? Se a alegada dieta mediterrânica não estava devidamente "estudada, inventariada, divulgada, protegida", o que caralho é que a UNESCO passou a Património Imaterial da Humanidade? Um palpite? Pfff...
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