| Foto Hernâni Von Doellinger |
Mostrar mensagens com a etiqueta Oswald de Andrade. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Oswald de Andrade. Mostrar todas as mensagens
quarta-feira, 3 de agosto de 2022
segunda-feira, 11 de janeiro de 2021
Oswald de Andrade 8
Barricada
Todos os passarinhos da Praça da República
Voaram
Todas as estudantes
Morreram de susto
Nos uniformes de azul e branco
As telefonistas tiveram uma síncope de fios
Só as árvores não desertam
Quando a noite luz
Oswald de Andrade
(Oswald de Andrade nasceu no dia 11 de Janeiro de 1890. Morreu em 1954.)
sábado, 11 de janeiro de 2020
Oswald de Andrade 7
Vício na fala
Para dizerem milho dizem mio
Para melhor dizem mió
Para pior pió
Para telha dizem teia
Para telhado dizem teiado
E vão fazendo telhados.
"Poesias Reunidas", Oswald de Andrade
(Oswald de Andrade nasceu no dia 11 de Janeiro de 1890. Morreu em 1954.)
Para dizerem milho dizem mio
Para melhor dizem mió
Para pior pió
Para telha dizem teia
Para telhado dizem teiado
E vão fazendo telhados.
"Poesias Reunidas", Oswald de Andrade
(Oswald de Andrade nasceu no dia 11 de Janeiro de 1890. Morreu em 1954.)
sexta-feira, 11 de janeiro de 2019
Oswald de Andrade 6
3 de maio
Aprendi com meu filho de dez anos
Que a poesia é a descoberta
Das coisas que eu nunca vi
"Poesias Reunidas", Oswald de Andrade
(Oswald de Andrade nasceu no dia 11 de Janeiro de 1890. Morreu em 1954.)
Aprendi com meu filho de dez anos
Que a poesia é a descoberta
Das coisas que eu nunca vi
"Poesias Reunidas", Oswald de Andrade
(Oswald de Andrade nasceu no dia 11 de Janeiro de 1890. Morreu em 1954.)
quinta-feira, 11 de janeiro de 2018
Oswald de Andrade 5
66. Botafogo etc.
Beiramarávamos em auto pelo espelho de aluguel arborizado das avenidas marinhas sem sol. Losangos tênues de ouro bandeiranacionalizavam o verde dos montes interiores. No outro lado da baía a serra dos Órgãos serrava. Barcos. E o passado voltava na brisa de baforadas gostosas. Rolah ia vinha derrapava entrava em túneis. Copacabana era um veludo arrepiado na luminosa noite varada pelas frestas da cidade.
Beiramarávamos em auto pelo espelho de aluguel arborizado das avenidas marinhas sem sol. Losangos tênues de ouro bandeiranacionalizavam o verde dos montes interiores. No outro lado da baía a serra dos Órgãos serrava. Barcos. E o passado voltava na brisa de baforadas gostosas. Rolah ia vinha derrapava entrava em túneis. Copacabana era um veludo arrepiado na luminosa noite varada pelas frestas da cidade.
Oswald de Andrade
(Oswald de Andrade nasceu no dia 11 de Janeiro de 1890. Morreu em 1954.)
quarta-feira, 11 de janeiro de 2017
Oswald de Andrade 4
Senhor feudal
Se Pedro Segundo
Vier aqui
Com história
Eu boto ele na cadeia.
Oswald de Andrade
(Oswald de Andrade nasceu no dia 11 de Janeiro de 1890. Morreu em 1954.)
Se Pedro Segundo
Vier aqui
Com história
Eu boto ele na cadeia.
Oswald de Andrade
(Oswald de Andrade nasceu no dia 11 de Janeiro de 1890. Morreu em 1954.)
segunda-feira, 11 de janeiro de 2016
Oswald de Andrade 3
Erro de português
Quando o português chegou
Debaixo de uma bruta chuva
Vestiu o índio
Que pena!
Fosse uma manhã de sol
O índio tinha despido
O português
Oswald de Andrade
(Oswald de Andrade nasceu no dia 11 de Janeiro de 1890. Morreu em 1954.)
Quando o português chegou
Debaixo de uma bruta chuva
Vestiu o índio
Que pena!
Fosse uma manhã de sol
O índio tinha despido
O português
Oswald de Andrade
(Oswald de Andrade nasceu no dia 11 de Janeiro de 1890. Morreu em 1954.)
domingo, 11 de janeiro de 2015
Oswald de Andrade 2
Brasil
O Zé Pereira chegou de caravela
E preguntou pro guarani da mata virgem
- Sois cristão?
- Não. Sou bravo, sou forte, sou filho da Morte
Teterê Tetê Quizá Quizá Quecê!
Lá longe a onça resmungava Uu! ua! uu!
O negro zonzo saído da fornalha
Tomou a palavra e respondeu
- Sim pela graça de Deus
Canhém Babá Canhém Babá Cum Cum!
E fizeram o Carnaval
Oswald de Andrade
(Oswald de Andrade nasceu no dia 11 de Janeiro de 1890. Morreu em 1954.)
O Zé Pereira chegou de caravela
E preguntou pro guarani da mata virgem
- Sois cristão?
- Não. Sou bravo, sou forte, sou filho da Morte
Teterê Tetê Quizá Quizá Quecê!
Lá longe a onça resmungava Uu! ua! uu!
O negro zonzo saído da fornalha
Tomou a palavra e respondeu
- Sim pela graça de Deus
Canhém Babá Canhém Babá Cum Cum!
E fizeram o Carnaval
Oswald de Andrade
(Oswald de Andrade nasceu no dia 11 de Janeiro de 1890. Morreu em 1954.)
sábado, 11 de janeiro de 2014
Oswald de Andrade
A mulher automática
(De São Paulo) - Qual é o seu cargo?
- Esteno-dáctilo-serpente-contralto-secretária...
- Isso é novidade. Eu ouvi no rádio naquele debate sobre a mulher moderna: esteno-dáctilo-serpente-secretária - A mulher atual!
- Ainda tem mais! Ponha glamour!
- Que é isso?
- Glamour é assim como eu sou. De concurso!
O homem pálido que esperava há duas horas examinou com os olhos a morena iodada no coral solto do vestido, sandálias de purpurina, cabelo lustroso, brincos, balangandãs e pulseiras, um beiço em ciclamen por Salvador Dali.
- O senhor sabe? Comprei ontem um leque que cheira. É formidável! Da América!
A voz grossa trauteou "La vie en rose".
- Dei o fora no meu darling porque ele não me levou à boîte ver o Charles Trenet. Fui com Mister Ubirajara.
- Quem é Mister Ubirajara?
- Acho que é canadense. Um gordo do anúncio. Tem gaita e possui um guarda-roupa perfeito. Dois ternos por dia! Me levou a Santo Amaro num 1950 formidável. Tomámos muitos drinks.
Na ante-sala de móveis mecânicos o telefone ressoou.
- Aposto que é o turco! Deixa tocar... Ele fala "negócio". Quer saber do "negócio" dele. Como se eu estivesse aqui para dar informações!
O telefone insiste.
- O senhor sabe? Um marinheiro contrabandista foi ao meu apartamento levar uns cortes de tropical e uns relógios suíços. Não falava nenhuma língua. Disse por gestos que era marinheiro, da Suíça. Enquanto ele se distraiu bati um relógio-pulseira e pus ele pra fora. Começou gesticulando que faltava alguma coisa. Banquei a boba. O homem falou baiano: - Deixe de besteira moça! Não gosto disso não! Me dá o relógio!
O telefone continuava. Ela arrancou num gesto o fone e berrou:
- Não me encha! Não é aqui!
Desligou violentamente. A voz do outro lado ficou dizendo humildemente:
- Esbéra, mucinha!
- Que esbéra, nada! Se ele ligar outra vez dou o telefone do Cemitério do Araçá. Vou fazer ele falar com defunto!
Houve um silêncio rápido. O homem pálido perguntou:
- A senhora é contralto?
- Sou. O que a mulher tem de melhor é a voz! - gritou desaparecendo numa porta volante. - A voz e a saliva!
"Obras Completas-10", Oswald de Andrade
(Oswald de Andrade nasceu no dia 11 de Janeiro de 1890. Morreu em 1954.)
(De São Paulo) - Qual é o seu cargo?
- Esteno-dáctilo-serpente-contralto-secretária...
- Isso é novidade. Eu ouvi no rádio naquele debate sobre a mulher moderna: esteno-dáctilo-serpente-secretária - A mulher atual!
- Ainda tem mais! Ponha glamour!
- Que é isso?
- Glamour é assim como eu sou. De concurso!
O homem pálido que esperava há duas horas examinou com os olhos a morena iodada no coral solto do vestido, sandálias de purpurina, cabelo lustroso, brincos, balangandãs e pulseiras, um beiço em ciclamen por Salvador Dali.
- O senhor sabe? Comprei ontem um leque que cheira. É formidável! Da América!
A voz grossa trauteou "La vie en rose".
- Dei o fora no meu darling porque ele não me levou à boîte ver o Charles Trenet. Fui com Mister Ubirajara.
- Quem é Mister Ubirajara?
- Acho que é canadense. Um gordo do anúncio. Tem gaita e possui um guarda-roupa perfeito. Dois ternos por dia! Me levou a Santo Amaro num 1950 formidável. Tomámos muitos drinks.
Na ante-sala de móveis mecânicos o telefone ressoou.
- Aposto que é o turco! Deixa tocar... Ele fala "negócio". Quer saber do "negócio" dele. Como se eu estivesse aqui para dar informações!
O telefone insiste.
- O senhor sabe? Um marinheiro contrabandista foi ao meu apartamento levar uns cortes de tropical e uns relógios suíços. Não falava nenhuma língua. Disse por gestos que era marinheiro, da Suíça. Enquanto ele se distraiu bati um relógio-pulseira e pus ele pra fora. Começou gesticulando que faltava alguma coisa. Banquei a boba. O homem falou baiano: - Deixe de besteira moça! Não gosto disso não! Me dá o relógio!
O telefone continuava. Ela arrancou num gesto o fone e berrou:
- Não me encha! Não é aqui!
Desligou violentamente. A voz do outro lado ficou dizendo humildemente:
- Esbéra, mucinha!
- Que esbéra, nada! Se ele ligar outra vez dou o telefone do Cemitério do Araçá. Vou fazer ele falar com defunto!
Houve um silêncio rápido. O homem pálido perguntou:
- A senhora é contralto?
- Sou. O que a mulher tem de melhor é a voz! - gritou desaparecendo numa porta volante. - A voz e a saliva!
"Obras Completas-10", Oswald de Andrade
(Oswald de Andrade nasceu no dia 11 de Janeiro de 1890. Morreu em 1954.)
Etiquetas:
A mulher automática,
crónica,
cultura,
literatura,
livros,
modernismo brasileiro,
Obras Completas 10,
Oswald de Andrade,
série Escritores
Subscrever:
Mensagens (Atom)