Foram breves e medonhas as noites de amor
foram breves e medonhas as noites de amor
e regressar do âmago delas esfiapava-lhe o corpo
habitado ainda por flutuantes mãos
estava nu
sem água e sem luz que lhe mostrasse como era
ou como poderia construir a perfeição
os dias foram-se sumindo cor de chumbo
na procura incessante doutra amizade
que lhe prolongasse a vida
e uma vez acordou
caminhou lentamente por cima da idade
tão longe quanto pôde
onde era possível inventar outra infância
que não lhe ferisse o coração
"O Medo", Al Berto
(Al Berto nasceu no dia 11 de Janeiro de 1948. Morreu em 1997.)
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sábado, 11 de janeiro de 2020
Al Berto 4
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quarta-feira, 11 de janeiro de 2017
Al Berto
Recado
ouve-me
que o dia te seja limpo e
a cada esquina de luz possas recolher
alimento suficiente para a tua morte
vai até onde ninguém te possa falar
ou reconhecer - vai por esse campo
de crateras extintas - vai por essa porta
de água tão vasta quanto a noite
deixa a árvore das cassiopeias cobrir-te
e as loucas aveias que o ácido enferrujou
erguerem-se na vertigem do voo - deixa
que o outono traga os pássaros e as abelhas
para pernoitarem na doçura
do teu breve coração - ouve-me
que o dia te seja limpo
e para lá da pele constrói o arco de sal
a morada eterna - o mar por onde fugirá
o etéreo visitante desta noite
não esqueças o navio carregado de lumes
de desejos em poeira - não esqueças o ouro
o marfim - os sessenta comprimidos letais
ao pequeno-almoço
"O Medo", Al Berto
(Alberto Raposo Pidwell Tavares, que usava o pseudónimo de Al Berto, nasceu no dia 11 de Janeiro de 1948. Morreu em 1997.)
ouve-me
que o dia te seja limpo e
a cada esquina de luz possas recolher
alimento suficiente para a tua morte
vai até onde ninguém te possa falar
ou reconhecer - vai por esse campo
de crateras extintas - vai por essa porta
de água tão vasta quanto a noite
deixa a árvore das cassiopeias cobrir-te
e as loucas aveias que o ácido enferrujou
erguerem-se na vertigem do voo - deixa
que o outono traga os pássaros e as abelhas
para pernoitarem na doçura
do teu breve coração - ouve-me
que o dia te seja limpo
e para lá da pele constrói o arco de sal
a morada eterna - o mar por onde fugirá
o etéreo visitante desta noite
não esqueças o navio carregado de lumes
de desejos em poeira - não esqueças o ouro
o marfim - os sessenta comprimidos letais
ao pequeno-almoço
"O Medo", Al Berto
(Alberto Raposo Pidwell Tavares, que usava o pseudónimo de Al Berto, nasceu no dia 11 de Janeiro de 1948. Morreu em 1997.)
domingo, 30 de outubro de 2016
Maria Amélia Neto
O medo
Surgiu
Por detrás
Da nuvem escura
Que tapou a lua.
Escorregou
Sobre a planície,
"O Vento e a Sombra", Maria Amélia Neto
(Maria Amélia Neto nasceu no dia 30 de Outubro de 1928)
Surgiu
Por detrás
Da nuvem escura
Que tapou a lua.
Escorregou
Sobre a planície,
Negro,
Envolto
Em longas chamas.
Era meu.
Pertencia-me.
Era o medo.
Envolto
Em longas chamas.
Era meu.
Pertencia-me.
Era o medo.
"O Vento e a Sombra", Maria Amélia Neto
(Maria Amélia Neto nasceu no dia 30 de Outubro de 1928)
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