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quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Nuno Brederode dos Santos 2

[...] O texto é uma romagem à Criação e recorda que o ornitorrinco é anfíbio, tem um bico de pato achatado e uma cloaca. Tem a morfologia de um texugo ainda mais acachapado e o corpo coberto de pelos. A estrutura óssea tem elementos próprios dos répteis que nele se encaixam num sistema de mamífero. Mamífero que nele se revela também porque as fémeas amamentam as crias. 
A longa querela dos zoólogos para o classificarem não terá contribuído também para lhe insuflar o pundonor. Afinal, decidiram que ele era um mamífero, mas sob um rótulo que não é propriamente uma comenda: 'monotrémato'. E o nome que reservaram para a espécie evoca-lhe a ave que ele talvez tenha querido ser mas não foi: 'ornitorrinco'. Discutem se a espécie está extinta ou em vias de extinção. Procuram-no em cada moita ribeirinha dessa Austrália dos paradoxos naturais. Ele espreita as expedições científicas e oculta-se, resvalando no lodo até à água. Não quer ser visto nem estudado, nem compreendido. [...] 

Nuno Brederode dos Santos (no Expresso)

(Nuno Brederode dos Santos nasceu no dia 14 de Dezembro de 1944. Morreu em 2017.)

sábado, 29 de abril de 2017

Nuno Brederode dos Santos (1944-2017)

O ogre e a sandes

Estacionei o carro no parque do hotel. Era cedo, havia mais de meia hora para matar. Passei ao "lobby", vi o bar e entrei. Sentei-me ao balcão, no único lugar disponível. Mas não pedi nada, aguardando que se resolvesse um qualquer contencioso entre um empregado contido, paciente e amável, e um feiíssimo cavalheiro que parecia um ogre da Tasmânia e que barafustava em voz alta contra não sei quê, num inglês que, porque rápido, chegava a parecer fluente, mas afectado de um sotaque tão carregado e estranho que o tornava ininteligível.
Aos poucos, fui começando a entendê-lo. Protestava - e com moderada razão - contra o facto de só haver sandes de queijo, fiambre e mistas. E começava já a olhar para mim de vez em quando, fugazmente, procurando porventura o meu apoio naquela guerra que me era alheia.
"Nem sequer têm sandes de pepino!" - disse-me de supetão, aproveitando a pausa proporcionada pelo empregado me estar a servir um "scotch" com água, que eu entretanto conseguira encomendar. Estava estabelecido o diálogo, mesmo que eu não o desejasse. Não se deixa sem resposta quem se nos dirige directamente.
[...] 

Nuno Brederode dos Santos (na Revista do Expresso)