Quando por último o reconheci, não pude furtar-me a um irreprimível movimento de assombro. Ele tem à justa a minha idade, e, com franqueza, se a passos largos e assustadores caminhamos para a velhice, não é ainda a senectude, muito longe disso! Havia um ror de tempo que não nos encontrávamos, talvez desde rapazes, e eu perdera de todo o rasto que dele ia ficando na vida. Qualquer mistério o eclipsara, cuidava eu, e às vezes punha-me a querer adivinhar que sumiço lhe dera - teria morrido, o desventurado, ou arrastaria ainda os cansados passos por este triste mundo? [...]
"Assombros", Manuel Mendes
(Manuel Mendes nasceu no dia 18 de Janeiro de 1906. Morreu em 1969.)
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quinta-feira, 18 de janeiro de 2018
quarta-feira, 18 de janeiro de 2017
Manuel Mendes
Passagem de nível
A tarde caía. No céu cinzento e triste recortavam-se a negro os troncos secos das árvores, onde se notavam apenas os finos rebentos das folhas de um verde delicado e viçoso. Pela terra em volta crescia quase imperceptivelmente uma penugem de fresca erva miúda, cobrindo os montes de um tapete aveludado. E apesar do dia chuvoso, do vento constante, da luz parda da tarde, apesar do céu enevoado e escuro, alguma coisa de doce prometia e anunciava a Primavera. Sobretudo nas árvores negras da fuligem do tempo, nuas e dolorosamente torcidas, aqueles rebentos de verdura eram já um sinal de esperança, uma sensação antecipada de alívio para os olhos cansados de tanto negrume e tanta sombra. Dir-se-ia o abrir ainda vago de um sorriso, e, ao mesmo tempo, o prenúncio dos bons dias longos e luminosos, de atmosfera limpa, a promessa de um céu mais confiante.
[...]
"Estrada", Manuel Mendes
(Manuel Mendes nasceu no dia 18 de Janeiro de 1906. Morreu em 1969.)
A tarde caía. No céu cinzento e triste recortavam-se a negro os troncos secos das árvores, onde se notavam apenas os finos rebentos das folhas de um verde delicado e viçoso. Pela terra em volta crescia quase imperceptivelmente uma penugem de fresca erva miúda, cobrindo os montes de um tapete aveludado. E apesar do dia chuvoso, do vento constante, da luz parda da tarde, apesar do céu enevoado e escuro, alguma coisa de doce prometia e anunciava a Primavera. Sobretudo nas árvores negras da fuligem do tempo, nuas e dolorosamente torcidas, aqueles rebentos de verdura eram já um sinal de esperança, uma sensação antecipada de alívio para os olhos cansados de tanto negrume e tanta sombra. Dir-se-ia o abrir ainda vago de um sorriso, e, ao mesmo tempo, o prenúncio dos bons dias longos e luminosos, de atmosfera limpa, a promessa de um céu mais confiante.
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"Estrada", Manuel Mendes
(Manuel Mendes nasceu no dia 18 de Janeiro de 1906. Morreu em 1969.)
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