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sexta-feira, 2 de outubro de 2020

José Cardoso Pires 8

Escova que sacodes, paninho que espanejas, o homem estava de boca aberta com as habilidades do garoto. "Donde é ele?", perguntou ao gordo. "Angola?"
E o gordo, desinteressado:
"São Tomé."
"Conheço mas passei de largo", disse o Johnny. "Tubarões por toda a parte. Que idade tens tu, rapaz?"
"Onze anos."
O Johnny dos Sete Mares assoprou um sorriso desgostoso: "Onze anos." Então contou que aos onze anos, na América, toda a criança preta estava no liceu. "E ainda dizem que isto aqui não é África."
O gordo concordou, com o charuto.
"África e bem África", voltou a dizer o Johnny. "Na América um preto pode ser rico, pobre, o que quiser. O Joe Louis, não vamos mais longe. Pode ser milionário, pode ser artista de cinema, pode ser músico, tudo. E aqui? Aqui a que é que esta criança está destinada? Casa Africana, e é um pau. Engraxador ou mascote da Casa Africana. E é preciso que haja vaga, ainda há mais essa."
 
"O Burro-em-Pé", José Cardoso Pires

(José Cardoso Pires nasceu no dia 2 de Outubro de 1925. Morreu em 1998.)

quarta-feira, 2 de outubro de 2019

José Cardoso Pires 7

Hoje em dia pode roubar-se tudo a um homem até a morte - disse o contador de estórias à sua filha Ritinha.

"Dinossauro Excelentíssimo", José Cardoso Pires

(José Cardoso Pires nasceu no dia 2 de Outubro de 1925. Morreu em 1998.)

terça-feira, 2 de outubro de 2018

José Cardoso Pires 6

Iam velha, mãe e neta, pombas negras a voar, uma triste, outra calada, outra levada em sonhar - e galgavam tudo, alturas e equador, dentro do dragão de prata. Certamente que, ao deixarem a África, fizeram uma curva por cima do primo Amílcar que continuava a provocar as chamas na sua montanha de balas e de gritos militares. E certamente, também, que se ouvissem o grito seria:
"A mim, a mim! Com putas e com turras é que eu me quero!"
(Ou coisa parecida).


"O Burro-em-Pé", José Cardoso Pires

(José Cardoso Pires nasceu no dia 2 de Outubro de 1925. Morreu em 1998.)

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

José Cardoso Pires 5

O largo das Freiras Descalças, com a capela e o hospital do mesmo nome, está sempre a arrulhar de pombas brancas. O Corvo, quando não tem mais que fazer ou quando os clientes da tasca o começam a azedar com parvoíces, vai até lá. Vai por ir, só para chatear. Só para criar alvoroço nas mimosas de pena virgem que se passeiam no empedrado a dar à cabecinha. É claro que as pombas, quando o vêem aproximar-se, abrem logo alas a passo corrido e de peito levantado, porque não confiam lá muito no olhinho libertino que ali vem, mas ele avança a direito, luzidio e muito senhor. À passagem deixa cair um ou outro galanteio a esta e àquela. "Sua galdéria", "Sua aluada", mas nunca se vira para trás, é o viras. Ouve-as rolar suspiros e a tremer a asa, encandeadas certamente com o seu perfil negro espelhado de reflexos azuis; ouve-as todas saltitantes a azougadas, e quando chega ao outro lado do largo volta-se para as olhar de frente: Então que é isso, meninas?
Na taberna alguns bebedores mais vivaços tentam meter conversa com ele. Começam por lhe perguntar o nome, é o costume, e acabam por lhe chamar Vicente, outra parvoíce.
"Vicente?", pergunta um dia um fulano a fazer-se surpreendido. "Se calhar ainda pertence à família dos que andavam atrás do santo, ou é confusão minha?"
Confusão, uma porra. O Corvo, que é taberneiro por convivência com o dono, conhece todas as velhacarias do vinho e como, ainda por cima, é ateu praticante, a conversa do Santo Vicente e dos corvos de Lisboa fá-lo virar as costas, enojado. Desde que se conhece nunca lhe faltaram doutores a provocá-lo com olhares e a falarem para a assistência em corvos históricos do brasão de Lisboa e noutras fábulas correlativas.

"A República dos Corvos", José Cardoso Pires

(José Cardoso Pires nasceu no dia 2 de Outubro de 1925. Morreu em 1998.)

domingo, 2 de outubro de 2016

José Cardoso Pires 4

Num dia de Abril de 1957, pela hora da tarde, apareceu em certa aldeola da costa um automóvel aberto, rápido como o pensamento.
Já alguém tinha dado por ele quando ainda vinha à distância, roncando pela estrada fora. De longe, como era vermelho, vermelho‑vivo, lembrava uma chama de rastilho a romper no asfalto por entre mar e cabeços.
"Que terra é aquela?", perguntou uma rapariga que vinha lá dentro.
"São Qualquer Coisa", respondeu‑lhe o homem que a acompanhava. "São Rafael, parece‑me."
Era pessoa dos seus quarenta anos ou nem isso. Guiava de largo, cabeça para trás, mão pousada no volante. À parte o cabelo ralo e o olhar suave, todo ele, pele e gestos, tinha um aspecto terra‑a‑terra: dedos ossudos, pulsos chatos, unhas rasas, cor e modos de camponês - melhor: de descendente de camponês. Vinha de camisolão grosso, cachimbo nos dentes.
Este ar de terra‑a‑terra é fácil de perceber‑se nalguns infantes da lavoura que gastam a maior parte da vida nas grandes capitais. Nesses, as falas provincianas e o tom com que se dirigem aos criados são coisas cultivadas, uma espécie de marca de estirpe para os diferenciar do resto dos mortais que não têm terras nem passado para lá da cidade. São outra gente; gozam a paz da fortuna e das famílias, bebem vinho tinto nos bares do Guincho ou de Cascais sem que alguém lhes leve a mal. Julgam, em suma, a cidade à medida da aldeia. E passeiam‑se nela.
"Como os velhos reis", costumava dizer o homem do carro vermelho; e nisso havia uma pontinha de desdém até por ele próprio. "Como os monarcas que desciam à rua para enriquecer o sangue nos ventres populares."

No entanto, ele, indivíduo de modos terra‑a‑terra, não se podia comparar a qualquer dos ditos infantes da lavoura. Se tinha esse à‑vontade seria em parte pelo descuido que dá a segurança, e muito principalmente por cansaço, por desencanto.
Ia, pois, este homem ao volante e ao lado dele a rapariga. Saíram da estrada por um atalho abandonado, todo pedras e buracos, e a companheira leu numa placa à entrada do povoado:
"São Romão."
"Exactamente, São Romão."


"O Anjo Ancorado", José Cardoso Pires

(José Cardoso Pires nasceu no dia 2 de Outubro de 1925. Morreu em 1998.)

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

José Cardoso Pires 3

- um dos quais, cão de fora e jamais identificado, foi aquele que chamou a atenção dum pescador local e o levou à descoberta do cadáver. Este cão parece que tinha sobrancelhas amarelas, que é coisa de rafeiro lusitano. Provavelmente andava à deriva pela costa e como tal deve ter pernoitado na zona dos banhistas que nesta época do ano se resume a algumas armações de ferro e pavilhões a hibernar.
Pelo terreno encontravam-se restos de férias, farrapos de jornais soterrados no areal, um sapato naufragado, embalagens perdidas; a bóia de socorros a náufragos sempre à vista, dia e noite; refugos de marés vivas; o conhecido cartaz
                                                    PORTUGAL,
                                           Europe's Best Kept Secret,
                                                      FLY TAP

crucificado num poste solitário. Foi neste verão fantasma que o cachorro em viagem se veio acolher.
Ao alvorecer seguiu jornada rumo ao norte, precisamente na direcção mais deserta, o que não se compreende tratando-se dum animal aos sobejos, a menos que algum fio de cheiro urgente o tivesse chamado de longe; e assim deve ter sido porque quando passou pelo pescador ia a trote direito e de focinho baixo a murmurar. Levava destino, isso se via. Logo adiante apressou o passo, entrou em corrida e perdeu-se nas dunas.
Porém não tardou a aparecer, desta vez esgalgado no cume das areias a uivar para os fumos que vinham do oceano. Isto, bem entendido, intrigou o pescador que pelo sim e pelo não se dirigiu às arribas, sem que o animal interrompesse um só instante o seu apelo ou o olhasse sequer. E o pescador subindo sempre foi-se chegando a ele e já muito próximo parou e viu:
Viu no fundo duma cova uma conspiração de cães à volta do cadáver dum homem; alguns saltaram para o lado assim que ele apareceu mas logo retomaram a presa; outros nem isso, estavam tão apostados na sua tarefa que se abocanhavam entre eles por cima do corpo do morto.
Há aqui uma certa ironia, diz o inspector Otero da Polícia Judiciária. Segundo consta, a vítima gostava desvairadamente de cães.


"Balada da Praia dos Cães", José Cardoso Pires

(José Cardoso Pires nasceu no dia 2 de Outubro de 1925. Morreu em 1998.)

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

José Cardoso Pires 2

Cá estou. Precisamente no mesmo quarto onde, faz hoje um ano, me instalei na minha primeira visita à aldeia e onde, com divertimento e curiosidade, fui anotando as minhas conversas com Tomás Manuel da Palma Bravo, o Engenheiro.
Repare-se que tenho a mão direita pousada num livro antigo -
Monografia do Termo da Gafeira - ou seja, que tenho a mão sobre a palavra veneranda de certo abade que, entre mil setecentos e noventa, mil oitocentos e um, decifrou o passado deste território. É nele que penso também - nisto tudo, na aldeia, nos montes em redor e nos seres que a habitam e que formigam lá em baixo, por entre casas, quelhas e penedos, à distância de um primeiro andar. Sou um visitante de pé (e em corpo inteiro, como numa fotografia de álbum), um Autor apoiado na lição do mestre. Lavatório de ferro à esquerda, mesa de trabalho à direita; em fundo, a porta com a espingarda e a cartucheira penduradas no cabide. Pormenor importante: enfrento a janela de guilhotina que dá para o único café da povoação, do outro lado da rua, e, mais para diante, vejo o largo, a estrada de asfalto e um horizonte de pinhais dominado por uma coroa de nuvens: a lagoa. Algures, no corredor, a dona da casa chama pela criadita.
Temos, pois, o Autor instalado na janela duma pensão de caçadores. Sente vida por baixo e à volta dele, sim, pode senti-la, mas, por enquanto, fixa-se unicamente, e com intenção, no tal sopro de nuvens que é a lagoa. Não a vê dali, bem o sabe, porque fica no vale, para lá dos montes, secreta e indiferente. No entanto, aprendeu a assinalá-la por aquele halo derramado à flor das árvores, e diz: lá está ela, a respirar. Depois, se quisesse escrever, passaria apenas o dedo na capa encarquilhada do livro que o acompanha (ou numa tábua de relíquia, ou numa pedra) e sulcaria o pó com esta palavra: Delfim.
Seria uma dedicatória. Um epitáfio, também. Seis letras que, de qualquer maneira, não teriam mais do que a justa e exacta duração que a poeira consentisse até as cobrir de novo.


"O Delfim", José Cardoso Pires

(José Cardoso Pires nasceu no dia 2 de Outubro de 1925. Morreu em 1998.)

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

José Cardoso Pires

São Vicente, para ser São Vicente e entrar na História como entrou, teve necessidade de dois corvos para o acompanhar que, por sinal, lhe foram sempre fiéis até hoje. Ora, duma ave como esta, tão convivente e tão enigmática, conta-se muita coisa. A própria Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, depois de muitos rodeios, afirma que o corvo é velhaco e ladrão, e isto, bem entendido, com a devida consideração pela agudeza e pela independência no trato que toda a gente lhe reconhece.
"Caguei para a Enciclopédia", diz o Corvo. E para comprovar alça a cauda e, zás, despede um esguicho de caca esbranquiçada. Caca esbranquiçada numa criatura tão negra é que ninguém esperava.
O corvo em questão chama-se Vicente. Puseram-lhe um nome de santo, que mais quer ele, mas nem assim se mostra lá muito reconhecido. Pertence a uma das últimas tascas de Lisboa, daquelas que antigamente, além do vinho, vendiam também carvão, pitrol e molhinhos de carqueja, mas isso foi há muitos anos, na idade do fogareiro e do candeeiro de chaminé, e nessa altura ainda ele não era nascido. Ou talvez fosse, com os corvos nunca se sabe. Há quem afirme que chegam a durar eternidades.
Na porta ao lado da tasca estabeleceu-se há muito tempo uma mulher que vende ovos e criação, sentada numa cadeira de balouço. O Corvo conhece-a, por acaso até a visita. Diz-se que matou o marido com gemadas envenenadas, se é que ela alguma vez teve marido, mas de concreto o que se sabe e está à vista é que passa os dias amarrada à cadeira a fazer malha com um certo ar irado. Parece uma gata gorda de bigodes assanhados, uma bichana doméstica que preenche o tempo a dar à agulha e a contar um dois três laça, um dois três mate, para se esquecer de outros tempos. Mas isso não passa de aparência porque, coitada, o que a consome é aquele coração que Deus lhe deu, um coração tão grande e universal que não lhe cabe no corpo. Daí estar sempre no cadeirão a balouçar, a balouçar, como se procurasse dar ar ao peito ou, então, como se tomasse balanço para se projectar pelos ares, rumo a Deus Nosso Senhor.
Nas suas voltas diárias o Corvo nunca se esquece de ir cumprimentar a galinheira que o trata sempre com grande estima, oferecendo-lhe pedaços de tripa e outros desperdícios das aves que estão penduradas no tecto. "Olá, freguês", cumprimenta-o ela, assim que o vê saltitar no degrau da porta.
Dão-se muito bem, sempre se deram muito bem um com o outro. Dum modo geral a galinheira recebe-o com um sorriso e muda logo para o trágico, levando a mão ao peito e voltando os olhos para o céu: "Sabes, vizinho, este meu coração..." Com isto quer dizer muita coisa, o Corvo sabe. Angina de peito, tonturas, medicações. O Corvo sabe, o Corvo sabe. Faltas de ar, também. Um dois três mate, um dois três laça, ultimamente as faltas de ar têm sido constantes, e a infeliz balança no cadeirão verdadeiramente angustiada. O Corvo, ouvindo-a sempre com a maior atenção, remata toda as vezes da mesma maneira: "Deixe lá, vizinha, deixe lá, que mais dia menos dia todos os males da gente têm fim", e ela então deixa descair os bigodes e perde-se, resignada, a olhar através da porta o Largo das Freiras Descalças que lhe fica mesmo em frente.

"A República dos Corvos", José Cardoso Pires

(José Cardoso Pires nasceu no dia 2 de Outubro de 1925. Morreu em 1998.)