P.S. - No dia 8 de Fevereiro de 1888, a "Cartilha Maternal", de João de Deus, foi reconhecida pela Câmara dos Deputados como projecto de interesse para a Instrução Pública.
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sábado, 8 de fevereiro de 2025
Dores artroses
Ele padecia de "dores artroses". E também de evidente analfabetismo.
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quinta-feira, 8 de março de 2018
João de Deus 5
Primeiro amor
Ó Mãe... de minha mãe!
Explica-me o segredo
Que eu mesmo a Deus sem medo
Não ia confessar:
Aquele seu olhar
Persegue-me, e receio,
Pressinto no meu seio
Ergue-se-me outro altar!
Eu em o vendo aspiro
Um ar mais puro, e tremo...
Não sei que abismo temo
Ou que inefável bem...
Oh! e como eu suspiro
Em êxtase o seu nome!...
Que enigma me consome,
Ó Mãe de minha mãe!
"Campo de Flores", João de Deus
(João de Deus nasceu no dia 8 de Março de 1830. Morreu em 1896.)
Explica-me o segredo
Que eu mesmo a Deus sem medo
Não ia confessar:
Aquele seu olhar
Persegue-me, e receio,
Pressinto no meu seio
Ergue-se-me outro altar!
Eu em o vendo aspiro
Um ar mais puro, e tremo...
Não sei que abismo temo
Ou que inefável bem...
Oh! e como eu suspiro
Em êxtase o seu nome!...
Que enigma me consome,
Ó Mãe de minha mãe!
"Campo de Flores", João de Deus
(João de Deus nasceu no dia 8 de Março de 1830. Morreu em 1896.)
quarta-feira, 8 de março de 2017
João de Deus 4
Avarento
Puxando um avarento de um pataco
Para pagar a tampa de um buraco
Que tinha já nas abas do casaco,
Levanta os olhos, vê o céu opaco,
Revira-os fulo e dá com um macaco
Defronte, numa loja de tabaco,
Que lhe fazia muito mal ao caco!
Diz ele então
Na força da paixão:
- Há casaco melhor que aquela pele?
Trocava o meu casaco por aquele...
E até a mim... por ele.
Tinha razão,
Quanto a mim.
Quem não tem coração,
Quem não tem alma de satisfazer
As niquices da civilização,
Homem não deve ser;
Seja saguim,
Que escusa tanga, escusa langotim.
Vá para os matos,
Já não sofre tratos
A calçar botas, a comprar sapatos.
Viva nas tocas como os nossos ratos,
E coma cocos, que são mais baratos!
"Campo de Flores", João de Deus
(João de Deus nasceu no dia 8 de Março de 1830. Morreu em 1896.)
Puxando um avarento de um pataco
Para pagar a tampa de um buraco
Que tinha já nas abas do casaco,
Levanta os olhos, vê o céu opaco,
Revira-os fulo e dá com um macaco
Defronte, numa loja de tabaco,
Que lhe fazia muito mal ao caco!
Diz ele então
Na força da paixão:
- Há casaco melhor que aquela pele?
Trocava o meu casaco por aquele...
E até a mim... por ele.
Tinha razão,
Quanto a mim.
Quem não tem coração,
Quem não tem alma de satisfazer
As niquices da civilização,
Homem não deve ser;
Seja saguim,
Que escusa tanga, escusa langotim.
Vá para os matos,
Já não sofre tratos
A calçar botas, a comprar sapatos.
Viva nas tocas como os nossos ratos,
E coma cocos, que são mais baratos!
"Campo de Flores", João de Deus
(João de Deus nasceu no dia 8 de Março de 1830. Morreu em 1896.)
terça-feira, 8 de março de 2016
João de Deus 3
O dinheiro
O dinheiro é tão bonito,
Tão bonito, o maganão!
Tem tanta graça, o maldito,
Tem tanto chiste, o ladrão!
O falar, fala de um modo...
Todo ele, aquele todo...
E elas acham-no tão guapo!
Velhinha ou moça que veja,
Por mais esquiva que seja,
Tlim!
Papo.
E a cegueira da justiça
Como ele a tira num ai!
Sem lhe tocar com a pinça;
E só dizer-lhe: "Aí vai..."
Operação melindrosa,
Que não é lá qualquer coisa;
Catarata, tome conta!
Pois não faz mais do que isto,
Diz-me um juiz que o tem visto:
Tlim!
Pronta.
Nessas espécies de exames
Que a gente faz em rapaz,
São milagres aos enxames
O que aquele demo faz!
Sem saber nem patavina
De gramática latina,
Quer-se um rapaz dali fora?
Vai ele com tais falinhas,
Tais gaifonas, tais coisinhas...
Tlim!
Ora...
Aquela fisionomia
É lábia que o demo tem!
Mas numa secretaria
Aí é que é vê-lo bem!
Quando ele de grande gala,
Entra o ministro na sala,
Aproveita a ocasião:
"Conhece este amigo antigo?"
- Oh, meu tão antigo amigo!
(Tlim!)
Pois não!
"Campo de Flores", João de Deus
(João de Deus nasceu no dia 8 de Março de 1830. Morreu em 1896.)
O dinheiro é tão bonito,
Tão bonito, o maganão!
Tem tanta graça, o maldito,
Tem tanto chiste, o ladrão!
O falar, fala de um modo...
Todo ele, aquele todo...
E elas acham-no tão guapo!
Velhinha ou moça que veja,
Por mais esquiva que seja,
Tlim!
Papo.
E a cegueira da justiça
Como ele a tira num ai!
Sem lhe tocar com a pinça;
E só dizer-lhe: "Aí vai..."
Operação melindrosa,
Que não é lá qualquer coisa;
Catarata, tome conta!
Pois não faz mais do que isto,
Diz-me um juiz que o tem visto:
Tlim!
Pronta.
Nessas espécies de exames
Que a gente faz em rapaz,
São milagres aos enxames
O que aquele demo faz!
Sem saber nem patavina
De gramática latina,
Quer-se um rapaz dali fora?
Vai ele com tais falinhas,
Tais gaifonas, tais coisinhas...
Tlim!
Ora...
Aquela fisionomia
É lábia que o demo tem!
Mas numa secretaria
Aí é que é vê-lo bem!
Quando ele de grande gala,
Entra o ministro na sala,
Aproveita a ocasião:
"Conhece este amigo antigo?"
- Oh, meu tão antigo amigo!
(Tlim!)
Pois não!
"Campo de Flores", João de Deus
(João de Deus nasceu no dia 8 de Março de 1830. Morreu em 1896.)
domingo, 8 de março de 2015
João de Deus 2
Lágrima celeste
Lágrima celeste,
Pérola do mar,
Tu que me fizeste
Para me encantar!
Ah! se tu não fosses
Lágrima do céu,
Lágrimas tão doces
Não chorara eu.
Se eu nunca te visse,
Bonina do vale,
Talvez não sentisse
Nunca amor igual.
Pomba debandada,
Que é dos filhos teus?
Luz da madrugada,
Luz dos olhos meus!
Meu suspiro eterno,
Meu eterno amor,
De um olhar mais terno
Que o abrir da flor.
Quando o néctar chora
Que se lhe introduz
Ao romper da aurora
E ao raiar da luz!
Esta voz te enleve,
Este adeus lá soe,
O Senhor to leve
E Deus te abençoe.
O Senhor te diga
Se te adoro ou não,
Minha doce amiga
Do meu coração!
Se de ti me esqueço
Ou já me esqueci,
Ou se mais lhe peço
Do que ver-te a ti!
A ti, que amo tanto
Como a flor a luz,
Como a ave o canto,
E o Cordeiro a Cruz;
A campa o cipreste,
A rola o seu par,
Lágrima celeste,
Pérola do mar.
"Campo de Flores", João de Deus
(João de Deus nasceu no dia 8 de Março de 1830. Morreu em 1896.)
Lágrima celeste,
Pérola do mar,
Tu que me fizeste
Para me encantar!
Ah! se tu não fosses
Lágrima do céu,
Lágrimas tão doces
Não chorara eu.
Se eu nunca te visse,
Bonina do vale,
Talvez não sentisse
Nunca amor igual.
Pomba debandada,
Que é dos filhos teus?
Luz da madrugada,
Luz dos olhos meus!
Meu suspiro eterno,
Meu eterno amor,
De um olhar mais terno
Que o abrir da flor.
Quando o néctar chora
Que se lhe introduz
Ao romper da aurora
E ao raiar da luz!
Esta voz te enleve,
Este adeus lá soe,
O Senhor to leve
E Deus te abençoe.
O Senhor te diga
Se te adoro ou não,
Minha doce amiga
Do meu coração!
Se de ti me esqueço
Ou já me esqueci,
Ou se mais lhe peço
Do que ver-te a ti!
A ti, que amo tanto
Como a flor a luz,
Como a ave o canto,
E o Cordeiro a Cruz;
A campa o cipreste,
A rola o seu par,
Lágrima celeste,
Pérola do mar.
"Campo de Flores", João de Deus
(João de Deus nasceu no dia 8 de Março de 1830. Morreu em 1896.)
sábado, 8 de março de 2014
João de Deus
Mal de pés
Certo patrício nosso brasileiro,
Depois de ter corrido o mundo inteiro
Ao voltar de Paris desenganado
Dos médicos, que tinha consultado,
Achou-se num wagon com um inglês,
O desgraçado tinha mal de pés.
E a última palavra da ciência
Era ir vivendo e tendo paciência.
Mostrou-se o bife incomodado,
Fungando para um e outro lado...
Como quem busca o foco de infecção;
Diz-lhe o nosso infeliz compatriota,
A apontar-lhe com o dedo a bota
E exalando um suspiro de paixão:
- Eis a causa, senhor, eis o motivo!...
O que eu não sei é como ainda vivo!
Tenho gasto rios de dinheiro,
E sempre, sempre, sempre o mesmo cheiro!
E isto por ora vá!... mas alto dia
Quando aperta o calor... Virgem Maria!...
"E diga-me: em lavando os pés refina,
Ou sente algum alívio?"
- "Isso não sei,
Sei que tenho exaurido a medicina;
Mas lavar é que nunca experimentei."
Às vezes dá-se ao médico o dinheiro
Que se devia dar ao aguadeiro.
João de Deus
(João de Deus nasceu no dia 8 de Março de 1830. Morreu em 1896.)
Certo patrício nosso brasileiro,
Depois de ter corrido o mundo inteiro
Ao voltar de Paris desenganado
Dos médicos, que tinha consultado,
Achou-se num wagon com um inglês,
O desgraçado tinha mal de pés.
E a última palavra da ciência
Era ir vivendo e tendo paciência.
Mostrou-se o bife incomodado,
Fungando para um e outro lado...
Como quem busca o foco de infecção;
Diz-lhe o nosso infeliz compatriota,
A apontar-lhe com o dedo a bota
E exalando um suspiro de paixão:
- Eis a causa, senhor, eis o motivo!...
O que eu não sei é como ainda vivo!
Tenho gasto rios de dinheiro,
E sempre, sempre, sempre o mesmo cheiro!
E isto por ora vá!... mas alto dia
Quando aperta o calor... Virgem Maria!...
"E diga-me: em lavando os pés refina,
Ou sente algum alívio?"
- "Isso não sei,
Sei que tenho exaurido a medicina;
Mas lavar é que nunca experimentei."
Às vezes dá-se ao médico o dinheiro
Que se devia dar ao aguadeiro.
João de Deus
(João de Deus nasceu no dia 8 de Março de 1830. Morreu em 1896.)
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