Mostrar mensagens com a etiqueta João Penha. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta João Penha. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 29 de abril de 2021

João Penha 7

O eterno feminino

Ninguém vive sem amor,
Neste mundo sublunar.
Cada pomba tem seu par,
Cada zagala um pastor.

O doirado pica-flor
Ama a rosa-de-toucar;
Enfim, na terra e no mar,
É Ele o rei, o senhor.

Pois que amar é lei sem metas,
Amemos, cantando aos ventos
As nossas musas dilectas.

Até os próprios jumentos
Têm, como nós os poetas,
Burras dos seus pensamentos.


"Canto do Cisne", João Penha

(João Penha nasceu no dia 29 de Abril de 1838. Morreu em 1919.)

quarta-feira, 29 de abril de 2020

João Penha 6

A carne

Carne mimosa, carne cor de rosa
Nada mais sois, oh anjos, na poesia
Dos vates dissolutos de hoje em dia,
Nos romances de amor, hedionda prosa.

A vossa alma gentil, ideal, mimosa,
Nestas idades de descrença ímpia,
Como escondida numa estátua fria,
Sonha e não voa, de voar medrosa!

Anjos, chorai o Amor! Com voz dolente
Dizei-lhe adeus! Bronco recife
Se apruma entre ele e vós, cruel, ingente:

Que por mais que de vinhos o borrife,
Ninguém gosta de ver, continuamente,
Diante de si, fatal, o mesmo bife! 


"Novas Rimas", João Penha

(João Penha nasceu no dia 29 de Abril de 1838. Morreu em 1919.)

segunda-feira, 29 de abril de 2019

João Penha 5

Lamúrias

"Que pena! Tenho o corpo tão bonito,
E nenhum amoroso me procura!
E, quem sabe?, talvez à sepultura
Eu me vá, de capela e de palmito!


"Em tempos, um rapaz muito esquisito,
Inda imberbe mas lindo de figura,
Passava, mas fugiu! Que desventura:
Era da raça dos Josés do Egipto!

"E os dias vão passando, sem que veja
A mais ligeira mutação de cena!
Por sobre mim uma ave negra adeja!

"De corpo tão bonito, alta e morena
À própria Vénus causaria inveja,
E assim tão bela... durmo só! Que pena!"


"Ecos do Passado", João Penha

(João Penha nasceu no dia 29 de Abril de 1838. Morreu em 1919.)

domingo, 29 de abril de 2018

João Penha 4

Cena de taberna

Vede-o, além, no esconso, à luz mortiça
Do velho lampadário que vacila!
No lábio tem o insulto, e na pupila
O raio ardente que as paixões atiça.

Vede-os, que são rivais! Fatal cobiça
Violenta os arrancou à paz tranquila,
E no rude brigar, que os aniquila,
Já tingem de vermelho o chão e a liça!

- "Acima o canjirão!" - com voz acesa
Diz a mais fera na tremenda luta,

"Acima!" - e pousa-o sobre a mesa.

Mas, vendo soçobrar a massa bruta
Do insolente rival, dos vinhos presa:
- "Venci! diz vomitando; é minha a truta!"


"Rimas", João Penha

(João Penha nasceu no dia 29 de Abril de 1838. Morreu em 1919.)

sábado, 29 de abril de 2017

João Penha 3

Tradução

Risonho, disse eu a Inês,
Que num sofá se quebranta:
"Dormi mecum!" - "É francês?"
- "É frase da Bíblia santa." 

- "Vê-me nervosa e confusa:
Eu nada sei, meu amigo:
Não hesite, vá! Traduza"
- Quer? - "Quero…" - Dorme comigo.

- "Oh! Que indecência, que horror!
Dizer-me essa cousa, a mim!
O que lhe vale, senhor,
É ter-ma dito em latim."

João Penha

(João Penha nasceu no dia 29 de Abril de 1838. Morreu em 1919.)

sexta-feira, 29 de abril de 2016

João Penha 2

Sermão na montanha

Frei Bernardo, de pé sobre uma dorna,
Empina a canjirão, que o desafia,
E sobre o povo, que o admira, entorna
O mar enorme da oratória pia.

Prega, sinistra: textos mil aponta;
Aos abismos descendo do profundo,
Agarra Belzebu por uma ponta
E com ele verbera o dorso ao mundo.

Chega à peroração, que a povo chora:
Vem ao trono buscá-lo a confraria;
Lança a benção final e, sem demora,
Empina o canjirão que o desafia.


"Viagem por Terra ao País dos Sonhos", João Penha

(João Penha nasceu no dia 29 de Abril de 1838. Morreu em 1919.)

quarta-feira, 29 de abril de 2015

João Penha

O fim

Já não tenho inspirações:
Debalde na tinta banho
A minha nervosa pluma!
Era pastor de ilusões,
E de todo o meu rebanho
Já não me resta nenhuma!

"Ecos do Passado", João Penha

(João Penha nasceu no dia 29 de Abril de 1838. Morreu em 1919.)