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sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Gustavo Barroso 2

Novembro. Andava-se já em seca brava. As águas tinham fugido. Entre os arbustos ressequidos terreavam mouchões de felga quistosos e nus, de onde o vento levantava à tarde uma poeirada de oiro.
Aos solavancos duros, o meu cavalo fatigado descia a última rampa da serra do Pereiro. Pela lomba íngreme, marcada de antigas aluviões erodentes, aqui e ali pungam touceiras enfezadas de arbustos espinhosos. A estrada sarjava de vermelho a terra desnuda, sem fiapos de gramíneas, com esqueletos de árvores. Só muito alto, onde havia mais frescura, azulesciam matos. A planície erma do sertão enchia-se da nevoaça das queimadas, acinzentando-se com o cair do dia. Para o poente esbatia-se uma amarelidez de crepúsculo. Alto, o céu era cinzento, deserto e tranqüilo como a paisagem. Um parecia refletir o outro. Todos os tons que durante o dia o sol esbraseara abrandavam-se, desmereciam: eram cinzento-pérola as capoeiras abertas, branco-cinza as extensões queimadas, azuladas as serranias que fugiam no horizonte, empastadas de bistre e sépia as várzeas que se ermavam e que se confundiam à distância. Raros sons quebravam a uniformidade do silêncio. Mais raros vultos moviam-se na tristeza monótona do cenário.


"Praias e Várzeas", Gustavo Barroso

(Gustavo Barroso nasceu no dia 29 de Dezembro de 1888. Morreu em 1959.)

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Gustavo Barroso

Um touro grande, cor da treva, de aguçadas pontas ligeiramente recurvas. Chamava-se Azulão, como o pássaro do mesmo nome, que também e negro. Talvez o apelido lhe viesse dos reflexos espelhantes do pêlo à luz do sol, que às vezes davam levemente a impressão do azul. Animal bonito e, sobretudo, famoso. Conhecia-o de nome o sertão todo, como o mais terríivel e mocambeiro novilho dos que o coronel Paulo deixava amontados pelas senotas, a fim de prometer prêmios aos vaqueiros que os trouxessem mortos ou vivos, quando o tempo, a perseguição e a liberdade os tornavam verdadeiras feras.
Todos os anos, após a ferra do gado, o grande fazendeiro escolhia um novilhote entre os mais possantes e dava ordem para abandoná-lo nas catingas aos seus instintos. O animal ficava selvagem e ele tentava a vaqueirama das ribeiras próximas a dar-lhe caça. O vaqueiro que lhe trazia a "bassoura" do barbatão morto a tiros, ou o próprio pegado a laço derrubado a "mussica" recebia cinco patacões de velha prata portuguesa e divertia-se em grande festa, na fazenda, durante a qual os melhores cantadores o louvavam ao pé da viola. Havia quarenta anos que o coronel se dedicava a esse folguedo, começado logo que herdara as terras do pai, aos trinta de idade. Mas nunca espicaçara os sertanejos dos arredores atrás de bicho mais terrível que o Azulão.

"Alma Sertaneja", Gustavo Barroso

(Gustavo Barroso nasceu no dia 29 de Dezembro de 1888. Morreu em 1959.)