O guizo
Era uma vez um cachorro que tinha um guizo. Chamava-se Jack e era um belo e nobre animal; embora pequenino no porte, via-se que era um cão de alta linhagem, que deveria ter na sua complicada ascendência canina algum dog de puro sangue nascido às margens ruidosas do Tamisa ou na silenciosa Oxford cheia de bruma. Jack, porém, nascera numa pacata cidade brasileira e era, quando muito, um cachorro de estimação, o que entre eles, cachorros, equivale à nossa expressão - pessoa de sociedade.
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"Espelho de Almas", José de Mesquita
(José de Mesquita nasceu no dia 10 de Março de 1892. Morreu em 1961.)
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domingo, 10 de março de 2019
quinta-feira, 10 de março de 2016
José de Mesquita 2
Chamo-me Fortunato e nasci num dia de Páscoa, sob a mais linda estrela que brilha no céu. Não sei se do nome que me puseram ou se do astro sob cujo influxo vim à luz, sou o homem mais feliz deste mundo.
Censuram-me por isso.
Ora, essa é muito boa!
Não tenho culpa de ser feliz quando os outros não o são.
Dizem-me em ar de reproche: "Tu és uma ironia viva diante das desgraças alheias. A tua alegria constante faz mal aos que sofrem e o teu eterno bom humor irrita a sensibilidade dos tristes. Devias, ao menos por um dia, ensaiar de ser infeliz".
Eu ouvia, calava-me e sorria para mim mesmo, porque os que assim falavam não sabiam que o meu maior desejo era justamente de tomar gosto às infelicidades, que ainda não conhecia. Quisera, de bom grado, experimentar as sensações nunca sofridas, por uma dessas curiosidades que constituem a fibra característica dos psicólogos e analistas.
O que não hei feito para sofrer, para sentir uma dor aguda, que me abale os nervos tão calmos e equilibrados! Mas, esse meu desejo é impossível, tão irrealizável como o de mudar de sexo ou de morrer duas vezes. Há criaturas que só com vê-las di-las-ieis predestinadas para isto ou para aquillo. Eu nasci predestinado para ser feliz e não ha nada, nem esforço próprio nem circunstâncias estranhas à minha vontade, que possa afastar de mim essa fatalidade. E, no entretanto, é tão fácil ser infeliz!
"Espelho de Almas", José de Mesquita
(José de Mesquita nasceu no dia 10 de Março de 1892. Morreu em 1961.)
Censuram-me por isso.
Ora, essa é muito boa!
Não tenho culpa de ser feliz quando os outros não o são.
Dizem-me em ar de reproche: "Tu és uma ironia viva diante das desgraças alheias. A tua alegria constante faz mal aos que sofrem e o teu eterno bom humor irrita a sensibilidade dos tristes. Devias, ao menos por um dia, ensaiar de ser infeliz".
Eu ouvia, calava-me e sorria para mim mesmo, porque os que assim falavam não sabiam que o meu maior desejo era justamente de tomar gosto às infelicidades, que ainda não conhecia. Quisera, de bom grado, experimentar as sensações nunca sofridas, por uma dessas curiosidades que constituem a fibra característica dos psicólogos e analistas.
O que não hei feito para sofrer, para sentir uma dor aguda, que me abale os nervos tão calmos e equilibrados! Mas, esse meu desejo é impossível, tão irrealizável como o de mudar de sexo ou de morrer duas vezes. Há criaturas que só com vê-las di-las-ieis predestinadas para isto ou para aquillo. Eu nasci predestinado para ser feliz e não ha nada, nem esforço próprio nem circunstâncias estranhas à minha vontade, que possa afastar de mim essa fatalidade. E, no entretanto, é tão fácil ser infeliz!
"Espelho de Almas", José de Mesquita
(José de Mesquita nasceu no dia 10 de Março de 1892. Morreu em 1961.)
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