Mostrar mensagens com a etiqueta Dia da Junk Food. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Dia da Junk Food. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 31 de março de 2026

Turismo de carregar pela boca

A perna extra
"Fiambre da perna extra", como diz a etiqueta do produto, faz lembrar a "quinta pata do cavalo". O que, convenhamos, é desagradável.

Nos preguiçosos semáforos do frequentadíssimo cruzamento de Valença, na Estrada Nacional 13, como quem vai mas não vai para a estação da CP, dois indivíduos vestidos à empregado de mesa distribuem panfletos aos ocupantes dos carros que param desprecatados e de vidros abertos. À empregado de mesa, quero dizer, com sapatos desengraxados, calças pretas sebosas e camisas que parece que já foram brancas. São propagandistas, angariadores, embora não aparentem. Serão talvez empregados de mesa, mas em comissão de serviço. Serviço externo. Os panfletos com letras azuis e tamanhos desaparelhados fazem reclame a um restaurante, a uma churrasqueira, ou mais concretamente a um "asador", como lá diz em título garrafal, e justamente "asador" à espanhola ainda que o estabelecimento se localize em pleno território nacional, a largos três quilómetros da antiga fronteira com Tui e "com amplo parque de estacionamento", mas é assim que as coisas são. E uma coisa desta categoria e dimensão haveria de ter dado imenso jeito no tempo em que o meu avô da Bomba organizava sensacionais excursões fafenses ao Alto Minho, dois-dias-dois, e se fosse a Fátima eram três, porque Portugal era realmente muito longe de si mesmo.
Duas das principais especialidades da casa, do tal "asador", são o "pollo na brasa" e a "costilla de cerdo". Para além dos mais emblemáticos pratos da cozinha tradicional portuguesa, do cozido e da picanha aos diversos bacalhaus e pescada cozida com todos, passando pelo cabrito, pelo leitão, pela vitela, pelo arroz de tamboril e pelo polvo, e com capacidade para 400 - sim, quatrocentas - pessoas, há também "francezinhas, pizzas e hamburguers". É a promessa de todo um mundo, posto que regional e com ar condicionado. A quem aceitar o papelinho no cruzamento e se apresentar com ele na mão, o imenso restaurante diz que regala "una botella de viño para levar p/ casa".
Enquanto isso, duas da tarde, o sol a pique nos semáforos do cruzamento cosmopolita. Um dos dois emissários do "asador" farto, generoso, climatizado, bilingue e extraordinário, numa palavra, pantagruélico, um dos dois desgraçados, por acaso o mais velho, abre um pequeno saco se papel castanho que trazia no bolso das calças e rapa de um lanche já encetado. Dá uma, duas dentadas e volta a guardar a sande pré-fabricada e dura no saco gorduroso e nas calças sebentas. Limpa a boca com as costas da mão, sacode as migalhas da camisa suada e continua a distribuir papéis. Assim, a seco.

(Do meu blogue Mistérios de Fafe. No dia 31 de Março de 1834, a cidade de Valença do Minho foi sitiada pelo almirante inglês Charles Napier, ao serviço da causa liberal portuguesa.)

quinta-feira, 21 de julho de 2022

Aos papéis... e às migalhas

Nos preguiçosos semáforos do frequentadíssimo cruzamento de Valença, na Nacional 13, como quem vai mas não vai para a estação da CP, dois indivíduos vestidos à empregado de mesa distribuem panfletos aos carros que param desprecatados e de vidros abertos. À empregado de mesa, quero dizer, sapatos desengraxados, calças pretas sebosas e camisas que parece que já foram brancas. Os panfletos com letras azuis e tamanhos desaparelhados fazem reclame a um restaurante, a uma churrasqueira, ou mais concretamente a um "asador", como lá diz em título garrafal, e justamente "asador" ainda que o estabelecimento se localize em pleno território nacional, a largos três quilómetros da fronteira com Espanha e "com amplo parque de estacionamento", mas é assim que as coisas são.
Duas das principais especialidades da casa são o "pollo na brasa" e a "costilla de cerdo". Para além dos mais emblemáticos pratos da cozinha tradicional portuguesa, do cozido e da picanha aos diversos bacalhaus e pescada cozida com todos, passando pelo cabrito, pelo leitão, pela vitela, pelo arroz de tamboril e pelo polvo, e com capacidade para 400 - sim, quatrocentas - pessoas, tem também "francezinhas, pizzas e hamburguers". É a promessa de todo um mundo, posto que regional e com ar condicionado. A quem se apresentar com o papelinho na mão, o imenso restaurante diz que regala "una botella de viño para levar p/ casa".
Enquanto isso, duas da tarde, o sol a pique nos semáforos do cruzamento cosmopolita, um dos dois emissários do "asador" farto, generoso, climatizado, bilingue e extraordinário, por acaso o mais velho dos propagandistas gastronómicos, abre um pequeno saco se papel castanho que trazia no bolso das calças e rapa de um lanche já encetado. Dá uma, duas dentadas e volta a guardar a sande pré-fabricada e dura no saco gorduroso e nas calças idem. Limpa a boca com as costas da mão, sacode as migalhas da camisa suada e continua a distribuir papéis. Assim, a seco.

P.S. - Hoje é Dia da Junk Food.

quarta-feira, 21 de julho de 2021

Era uma vez uma hamburgueria gourmet

O caro leitor lembra-se (sim, caro leitor, é consigo, é o único leitor que tenho), dizia, o caro leitor lembra-se de eu aqui atrasado ter escrito um coisada chamada "O gourmet não se dá na minha zona"? Não se lembra? Não faz mal. Era assim:

Moro em Matosinhos, na famosa zona dos restaurantes e marisqueiras, que se acotovelam porta sim, porta sim. Pensava portanto que não lembraria ao diabo estabelecer-se aqui no meu território com uma dessas autoproclamadas hamburguerias gourmet, mas a alguém lembrou. Quando, ainda de vidros tapados, vi cá fora os letreiros, pensei: isto nem sequer vai abrir. Mas abriu, e agora penso: daqui a quantos dias é que isto vai fechar? Porque a verdade é esta: o gourmet não se dá à minha volta, e juro que a culpa não é minha. Evidentemente não o frequento, mas, tirando isso, mais nada...
Lembra-se o caro leitor da história do fumeiro, faz agora quatro anos? Foi assim:

Do outro lado da minha estrada (o caro leitor já reparou que, nas nossas cidades, as ruas agora não são ruas, são estradas, e estradas com engarrafamentos e perigosas?), dizia: do outro lado da minha estrada há uma daquelas pequenas lojas tipo "regional gourmet". Azeitonas em frasco, cogumelos em frasco, meles em frasco, geleias em frasco, licores em frasco, frascos em frasco, dois presuntos em fraco, azeites e vinhos em caro, prateleiras um fiasco. Num benévolo gesto de boas-vindas, mal abriu o estabelecimento fui lá cheirar e avisar que o conceito é uma treta e que gourmet a sério é em minha casa, mesmo em frente, porque aqui a comida é muito boa, e gourmet deveria ser isso, mas não estamos abertos ao público. O gourmet - a ver se eu me sei explicar - quer-se da boca para dentro e não da boca para fora, mas não faço concorrência.
Estas lojinhas abrem e infelizmente não vendem nada. São "regionais" porém franchising, very tipical e very vazias, de produtos e clientes. O toque de "qualidade" é dado em palavras "estrangeiras", o que só abona a favor do produto made in Portugal. A loja da minha estrada tinha primeiro uma menina, que passava a vida na ombreira da porta a fumar, fumar, fumar.
A loja não abria desde que o ano entrou. Pensei que tinha sido o fim. Mas graças a Deus enganei-me, que de desemprego já basto eu. A loja reabriu hoje: não está lá a menina, mas um rapaz. Que passa a vida na ombreira da porta a fumar, fumar, fumar. Nas costas, os dois presuntos pendurados no cabide tisicam e agradecem - assim se produz o genuíno fumeiro nacional.

Entretanto. Passou-se uma semana e a lojinha fechou de vez: veio uma carrinha limpar as escanzeladas prateleiras, três sacos de plástico bastaram e lá se foi mais um posto de trabalho, por assim dizer, que é o que a mim me importa. Fico infeliz por ter razão: o conceito era realmente uma treta. Esta gente não sabe o que é massa com bacalhau e o prato a esbordar...

Por falar nisso, hora de almoço: espreito a hamburgueria gourmet, dando-lhe uma última oportunidade. Os únicos "clientes" que vejo são o pessoal da casa, à mesa. Já foste!, digo cá para comigo. É o raio deste microclima sul-matosinhense...

Pois meu dito, meu feito. A coisada acima é do princípio do ano, 11 de Janeiro. Hoje passei pela hamburgueria gourmet da minha zona e, fatal como o destino e com ponto de exclamação e tudo, lá estava afixado o aviso na porta fechada: "Trespasse!"...
 
P.S. - Publicado originalmente no dia 14 de Julho de 2018. Hoje, 21 de Julho, é Dia da Junk Food. Sobretudo na América, e compreende-se.