Mostrar mensagens com a etiqueta Dia Mundial da Alfabetização. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Dia Mundial da Alfabetização. Mostrar todas as mensagens

sábado, 29 de março de 2025

À hora ou há ora?

À hora ou há ora? - perguntou o gramático, manhoso, como se os agás e os acentos, agudos ou graves, fossem visíveis nas conversas. - Há ora - respondeu o discípulo, mais convencido era impossível. - Há ora?!... - exaltou-se o gramático - Há ora?!?!... - ameaçou o gramático, entremeando os pontos de interrogação e de espantação, e insistindo perdigotamente nas velhas reticências. - Há ora, mestre - perseverou o discípulo, humilde porém seguro. - Há ora, mas e além disso...

P.S. - Logo à noite muda a hora.

quarta-feira, 8 de setembro de 2021

Cê tá topando?!...

Era o princípio activo de um certo e determinado medicamento. Quando perdeu o cê, derivado ao acordo ortográfico, deixou de fazer efeito... 

No país dos setores

Há o setor público e o setor privado. O setor público ensina sobretudo em escolas do Estado e o setor privado em colégios fardados e universidades altamente propinadas. Há também, por exemplo, o setor da saúde, que, regra geral, é médico. O setor da saúde também pode ser público ou privado. Ou público e privado... 

O Actávico

Era bom rapaz o velho Octávio com cê. Bom rapaz, porém antigo no que diz respeito a pensamento, usos e costumes. Baptista com pê, o mordomo do Club sem é, até lhe costumava chamar, por graça, Dr. Actávico. Com dois cês. 

O guarda noturno

O guarda nocturno passou a guarda noturno e começou a entrar às seis e a sair ao meio-dia.

A insondável diferença entre espetador e espetador

Qual é a diferença entre um espetador e um espetador? Numa tourada, por exemplo, o que é que distingue os espetadores dos espetadores? Uns pagam bilhete e os outros fazem os touros pagá-las, é isso, não é? E espetadores de gelo: são adereços muito jeitosos para filmes de suspense ou uma audiência que não reage, por melhor ou pior que a fita seja? O que devo pensar quando leio um título de jornal que me diz que "Acidente em rali francês provoca a morte a dois espetadores"? E, já agora, no voyeurismo, quem é o verdadeiro espetador: o que fica a ver ou o que copula? 

Desorientação sexual

A verdade é mesmo esta: ele nunca conseguiu distinguir um tecto de um teto. E elas levavam a mal...

A língua brasileira

Recapitulando: a língua brasileira, também designada brasileiro, é uma das línguas oficiais da União Europeia, do Mercosul, da União de Nações Sul-Americanas, da Organização dos Estados Americanos, da União Africana e da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. Com aproximadamente 280 milhões de falantes, o brasileiro é a quinta língua mais falada no mundo, a terceira mais falada no hemisfério ocidental e a mais falada no hemisfério sul do planeta.
A língua portuguesa, também designada português, é falada e escrita por uns quantos velhos e teimosos como eu.

Eu e Ação

Foto Hernâni Von Doellinger

Eu e Ação, mas não só Ação (Ação que me desculpe). Também Aju, Azé, Agui e Ami, Alu, Abé, Adi e Adé, Abia, Alena, Alina e Atina, Ananda, Atita, Axana e Abela, Aquina, Alela, Aberta e Aminda, Amila, Alaide, Amira e Amina, Anilde, Adora, Amela e Alice, Abecas, Alisa, Amicas e Aguida, Amilu, Amizé, Amicá e Arora, Agusta, Anela, Anô e Anor, Ané, Alinda, Adina, Azeza, Agina e assim sucessivamente... 

Como é que se escreve a palavra porcausa?

A jovem profissional precisava de trocar uma folga e procurou ajuda junto da colega da secretaria. Uma de cada lado do balcão. Giras. A colega da secretaria passou o papel e a esferográfica à jovem profissional, e começou a ditar:
- Solicito, so-li-ci-to, troca de folga, de fol-ga, do dia 15 para o dia 23, por causa...
- Porcausa? Que palavra é essa? Como é que se escreve? - interrompeu a jovem profissional, descontraidamente ignorante e escandalizada, e, tipo, com toda a razão.

A extraordinária palavra apartir, cá está ela...

Foto Hernâni Von Doellinger

A responsável pela empresa de condomínio, licenciada e Doutora de nome próprio, precisava de escrever um aviso para colocar nas entradas do prédio e nos elevadores. Perfeita dominadora da língua portuguesa, tinha apenas uma pequenina dúvida: como é que se escreve a palavra apartir? Perguntou ao seu pessoal, que é ela, e não duvidou segunda vez. Determinou então e mandou publicar: "A Adminsitração de Condomínio informa os Srs Condominos que no próximo, dia 2 de Maio de 2017, da parte da manha, vai-se proceder a uma lavagem na garagem coletiva. Solicitamos aos Srs Condominos que retirem as suas viaturas e os bens que se danificam com a agua, dos lugares de garagem, apartir das 8:30 horas, para a sua realização."
Exactamente, apartir. A palavra apartir escreve-se da mesma forma que as palavras asseguir e afeder. Tal como porcausa. A palavra porcausa escreve-se da mesma forma que as palavras porexemplo, poracaso e porfavor. Todas estas palavras obedecem ao mesmo princípio - o da ignorância.

Questões entre parênteses

Quando os parênteses lhe caíram na lama, substituiu-os por vírgulas. 

A morte da nação

"A minha pátria é a língua portuguesa", escreveu o nosso Fernando Pessoa. "A Pátria não é a raça, não é o meio, não é o conjunto dos aparelhos econômicos e políticos: é o idioma criado ou herdado pelo povo. Um povo só começa a perder a sua independência, a sua existência autônoma, quando começa a perder o amor do idioma natal. A morte de uma nação começa pelo apodrecimento da língua", escreveu Olavo Bilac, o brasileiro e sensato.
Bilac (1865-1918) e Pessoa (1888-1935). Não quero saber aqui quem é ovo ou quem é galinha, nem me interessa como assunto, de momento, o miserável, escusado e alegado acordo ortográfico. Lembrei-me foi dos professores doutores da mula ruça, traidores à pátria, que enchem a boca de "periúdos", de "interésses", de "rúbricas", de "perzeveranças", de "mediúcres". Enchem a boca e apodrecem a língua. Apodrecem a língua e matam a nação.

António Costa, por exemplo. Já era tempinho de aprender a falar português, depois de, em 2015, ter aprendido a não falar mandarim. Não há lá pelos corredores e gabinetes de São Bento quem saiba ensinar ao nosso primeiro-ministro a basezinha das regras de concordância, alguém que o proíba de comer sílabas enquanto fala? Falar com a boca cheia é, para além do mais, falta de educação.

Contra fatos não há argumentos

Era um desses modernos verificadores de fatos. Trabalhava numa alfaiataria.   

O guarda-fatos

Tinha uma vida muito arrumadinha. Ao fim do dia, na hora das orações da noite e do exame de consciência, ponderava fatos e mentiras. Desfazia-se das mentiras no cesto do lixo, pendurava os fatos no roupeiro. Evidentemente. 

Entre o coça-mos e o coçamos

É erro comum e de palmatória: escrever entrega-mos, devolve-mos, envia-mos ou compra-mos, quando na verdade se quer dizer entregamos, devolvemos, enviamos ou compramos. Erro comum porque o vejo por aí todos os dias, ainda hoje, e de palmatória porque é grave. "(Nós) entregamos", primeira pessoa do plural do presente do indicativo da forma regular do verbo entregar, não é o mesmo que "(tu) entrega-mos (a mim)", segunda pessoa do singular do imperativo do verbo entregar conjugado pronominalmente, ocorrendo neste caso a contracção de dois pronomes - "me" + "os", resultando em "mos".
As duas flexões coexistem, mas, apesar de próximas na grafia, não se equivalem. Por outro lado, distinguem-se claramente pela pronúncia, até porque, regra geral, nestes casos a sílaba tónica é diferente.
O problema é que as pessoas não sabem escrever sobretudo porque não sabem ler. Se soubessem ler, então também saberiam que, por exemplo, dizer ou escrever chupamos, lambemos, mordemos, arregaçamos, aquecemos, coçamos ou agarramos, vá lá, é uma coisa; outra bem diferente será dizer ou escrever chupa-mos, lambe-mos, morde-mos, arregaça-mos, aquece-mos, coça-mos ou agarra-mos, vá lá...

P.S. - Publicado originalmente no dia 2 de Março de 2016, sob o titulo "Quando o hífen é um erro mas alegra a vida". Hoje, 8 de Setembro, é Dia Mundial ou Dia Internacional da Alfabetização (ou da Literacia).

terça-feira, 8 de setembro de 2020

E por falar em rubrica

Cá vai mais uma borla, à atenção de telejornais e noticiários radiofónicos: a palavra rubrica nunca se escreve com acento, mas lê-se sempre como palavra grave. A sílaba tónica é a penúltima, "bri". Isto é, e passo a fazer o desenho, diz-se sempre "rubríca", como se tivesse acento no i, e nunca "rúbrica", como se tivesse acento no u. Quer signifique assunto específico ou título de capítulo determinado, quer se refira a assinatura abreviada. É sempre rubrica, rubrica, rubrica. Dizendo-se sempre "rubríca", "rubríca", "rubríca".
E, já agora, é período que se diz e não "periúdo". Período, sempre, em todos os múltiplos significados da palavra. Que diabo, custa assim tanto ler os acentos onde eles estão?
Recapitulando: é rubrica e não "rúbrica", é período e não "periúdo". Estamos entendidos?

P.S. - Publicado originalmente no dia 30 de Junho de 2011. Hoje, 8 de Setembro, é Dia Mundial ou Dia Internacional da Alfabetização (ou da Literacia).

O verbo estar faz-me falta, tão a ver?

Havia o verbo Estar, e eu dava-me muito bem com ele. Nunca conheci outro verbo que quisesse dizer tão bem ser presente, ser num dado momento, achar-se ocupado no desempenho de certas funções, achar-se em situação especial e transitória, ter atingido certo ponto ou local, pertencer a uma corporação ou classe especial, seguir uma carreira, ficar, esperar, permanecer, assistir, consistir, residir, condizer, julgar, tencionar, ser favorável, concordar, consentir, começar a verificar-se qualquer coisa, importar, custar, persistir, comparecer. Sou por este verbo desde pequeninho.
Mas depois chegou a "crise", e o velho verbo Estar foi despedido e substituído por um verbo novo, jovem e dinâmico, pau para toda a colher, e a recibo verde: o verbo Tar. O verbo Tar, que é dito por gente de várias marcas, sobretudo na televisão, dos treinadores de futebol aos políticos, dos produtores de cinema aos jornalistas. O verbo Tar, que até já saiu escrito nos jornais...
Não foi coisa de repente, é preciso que se note. Foi assim como aquele peido lento, manso, longo, solerte, que, vai-se a ver, acaba em merda - e não se armem em escandalizados: quem nunca passou pela curricular experiência das cuecas borradas, que meta o dedo pelo cu acima.
Dizia eu: o verbo. O caso é que o verbo Estar faz-me falta, foram muitos anos, eu estava muito afeito a ele, achei uma injustiça o que lhe fizeram, e deram-me as saudades. Fui à procura do meu verbo e fiz duas descobertas: primeira - o badaladíssimo verbo Tar não existe (parece impossível!); segunda - o bom e velho verbo Estar afinal não morreu, continua a bulir, intransitivo e irregular como sempre, mas no activo (e no passivo, já agora).
Portanto, ó mentes captas!, ó analfabetos militantes!, quando quiserdes dizer estar, dizei estar, porque dizeis bem. Porque o verbo Estar existe, é um bocadinho mais velho do que vós, mas aguenta-se, e, se não estou em erro, conjuga-se mais ou menos assim:

eu estou
tu estás
ele está
nós estamos
vós estais
eles estão

eu estava
tu estavas
ele estava
nós estávamos
vós estáveis
eles estavam

eu estive
tu estiveste
ele esteve
nós estivemos
vós estivestes
eles estiveram


eu estivera
tu estiveras
ele estivera
nós estivéramos
vós estivéreis
eles estiveram

eu estarei
tu estarás
ele estará
nós estaremos
vós estareis
eles estarão


eu estaria
tu estarias
ele estaria
nós estaríamos
vós estaríeis
eles estariam
 
que eu esteja
que tu estejas
que ele esteja
que nós estejamos
que vós estejais
que eles estejam

se eu estivesse
se tu estivesses
se ele estivesse
se nós estivéssemos
se vós estivésseis
se eles estivessem


quando eu estiver
quando tu estiveres
quando ele estiver
quando nós estivermos
quando vós estiverdes
quando eles estiverem

eu estar
tu estares
ele estar
nós estarmos
vós estardes
eles estarem

 
eu tenho estado
tu tens estado
ele tem estado
nós temos estado
vós tendes estado
eles têm estado


eu tinha estado
tu tinhas estado
ele tinha estado
nós tínhamos estado
vós tínheis estado
eles tinham estado

eu tivera estado
tu tiveras estado
ele tivera estado
nós tivéramos estado
vós tivéreis estado
eles tiveram estado


eu terei estado
tu terás estado
ele terá estado
nós teremos estado
vós tereis estado
eles terão estado


eu teria estado
tu terias estado
ele teria estado
nós teríamos estado
vós teríeis estado
eles teriam estado


que eu tenha estado
que tu tenhas estado
que ele tenha estado
que nós tenhamos estado
que vós tenhais estado
que eles tenham estado


se eu tivesse estado
se tu tivesses estado
se ele tivesse estado
se nós tivéssemos estado
se vós tivésseis estado
se eles tivessem estado

quando eu tiver estado
quando tu tiveres estado
quando ele tiver estado
quando nós tivermos estado
quando vós tiverdes estado
quando eles tiverem estado

eu ter estado
tu teres estado
ele ter estado
nós termos estado
vós terdes estado
eles terem estado

está
esteja
estejamos
estai
estejam

não estejas
não esteja
não estejamos
não estejais
não estejam

estar

estado
 


estando. 

P.S. - Publicado originalmente no dia 17 de Agosto de 2015. Hoje, 8 de Setembro, é Dia Mundial ou Dia Internacional da Alfabetização (ou da Literacia). 

Sócrates não "interviu", diz a Smooth FM

O rapaz que lê as notícias na rádio Smooth FM nunca me deixa ficar mal. Diz-me ele esta manhã (às 9h30 e às 10 horas) que "José Sócrates garante que nunca "interviu" na Caixa Geral de Depósitos para que fosse concedido qualquer crédito". Pois não "interviu", não. Aliás, como é que o antigo primeiro-ministro poderia "interver"?...

P.S. - Publicado originalmente no dia 20 de Junho de 2016. Hoje, 8 de Setembro, é Dia Mundial ou Dia Internacional da Alfabetização (ou da Literacia).

Uma língua que apodrece, uma nação que agoniza

"A minha pátria é a língua portuguesa", escreveu o nosso Fernando Pessoa. "A Pátria não é a raça, não é o meio, não é o conjunto dos aparelhos econômicos e políticos: é o idioma criado ou herdado pelo povo. Um povo só começa a perder a sua independência, a sua existência autônoma, quando começa a perder o amor do idioma natal. A morte de uma nação começa pelo apodrecimento da língua", escreveu Olavo Bilac, o brasileiro e sensato.
Bilac (1865-1918) e Pessoa (1888-1935). Não quero saber aqui quem é ovo ou quem é galinha, nem me interessa como assunto, de momento, o miserável, escusado e alegado acordo ortográfico. Lembrei-me foi dos professores doutores da mula ruça, traidores à pátria, que enchem a boca de "periúdos", de "interésses", de "rúbricas", de "perzeveranças", de "mediúcres". Enchem a boca e apodrecem a língua. Apodrecem a língua e matam a nação.

António Costa, por exemplo. Já era tempinho de aprender a falar português, depois de, em 2015, ter aprendido a não falar mandarim. Não há lá pelos corredores e gabinetes de São Bento quem saiba ensinar ao nosso primeiro-ministro a basezinha das regras de concordância, alguém que o proíba de comer sílabas enquanto fala? Falar com a boca cheia é, para além do mais, falta de educação.

P.S. - Publicado originalmente no dia 18 de Dezembro de 2013. Hoje, 8 de Setembro, é Dia Mundial ou Dia Internacional da Alfabetização (ou da Literacia).