Boucherie diz e repete que não tem culpa nem se esforça, mas é bom em tudo o que faz e tudo o que faz é bem feito. E revela até, benzendo-se três vezes com água-benta, que está muito feliz por continuar a ser bom - uma vez que não consegue ser de outra maneira -, "mas cada vez pior", nas suas sábias e exactas palavras.
E "cada vez pior" porquê? Porque (explica Boucherie, fazendo o desenho, para que nós cá em baixo percebamos) lhe basta investir 40 a 50 por cento de si próprio para, mesmo assim, estar muito acima de todos os que o rodeiam. Num país "que se nivela por baixo", como assertivamente faz notar, os seus 70 por cento seriam para rebentar com a escala. Portugal não aguentaria. É a tal história do zarolho em terra de cegos...
Mal cheguei a casa, fui logo à procura deste genial Boucherie. Procurei a vacina que ele inventou, e nada. Procurei a cura que ele descobriu, e nada. Procurei a obra de arte que o imortalizou, e nada. Procurei a colónia de leprosos que fundou, e nada. Procurei o cometa que baptizou, e nada. Procurei o tal golo de calcanhar na final do Mundial, e nada. Procurei a sua doutrina económica, e nada. Procurei o seu pensamento filosófico, e nada. Procurei o seu pensamento, e nada. Procurei o Nobel, procurei o Pulitzer, procurei o Óscar, procurei o Acúrsio, e nada, nada, nada, nada. Nada.
O que encontrei foi isto: que Pedro Boucherie Mendes nasceu em 1970 e é o actual director coordenador de conteúdos dos canais temáticos SIC e director-geral da SIC Radical; que foi director da revista FHM, subdirector da revista Maxmen e editor no jornal O Independente; que criticou música e passou pela rádio, participando agora semanalmente no programa "Pedro e Inês", da Antena 3 (cá está); que participou no programa "Prazeres dos Diabos", da SIC; que foi jurado do programa "Ídolos", da SIC, e que terá ficado conhecido pela ironia e pelo sarcasmo dos seus comentários e pela forma como se dirigia aos concorrentes; e que escreveu um livro.
E, perante isto, lembrei-me do mais famoso calceteiro do País. Um português também muito acima e com um currículo mediático-artístico-literário a pedir meças ao de Boucherie, se descontarmos a insignificância dos cargos de direcção. Exactamente: lembrei-me do bom Tino de Rans.