Meia hora na fila para o pão, uma hora na fila para o bolo-rei, duas horas na fila do marisco para o almoço, três horas na fila do leitão para o jantar, quatro horas na fila da discoteca para o réveillon. Celebrou as doze badaladas cerca das cinco da manhã, ao relento, na fila da bomba de gasolina, bêbado como um cacho, e não se lembra de nada. Foi um ano muito bem passado.
Mostrar mensagens com a etiqueta Bebedeira. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Bebedeira. Mostrar todas as mensagens
quarta-feira, 1 de janeiro de 2025
domingo, 24 de abril de 2022
Quando se perdia a mondinense
Há muitas maneiras de o dizer, deste e do outro lado do mar: beber, alcoolizar-se, emborrachar-se, embriagar-se, inebriar-se, tachar, tomar, encharcar, chumbar-se, avinhar-se, enfrascar-se, ficar de pileque, alto, grosso, mamado, tomar um porre, praticar desporto líquido, molhar os pés, ficar como um escalo, como uma nabo, como um cacho, como um avião, ficar doente, indisposto, apanhar uma ramada, uma piela, uma perua, uma bebedeira, uma carraspana, uma borracheira, uma cardina, um pifo, uma tosga, uma touca. Mas: perder a mondinense, suponho que só em Fafe se dirá. Ou dizia. Perder a mondinense.
A Mondinense disputava então com a João Carlos Soares o negócio do transporte rodoviário colectivo de passageiros entre Porto e Fafe e vice-versa. Eu era passageiro. Sou passageiro. Os asmáticos autocarros da Mondinense, que, se não me engano, faziam a viagem pela serra da Agrela, via Santo Tirso, numa espécie de breve apresentação turística à Rota da Prostituição de Baixa Montanha, tinham escritório numa obscura garagem à beira do desabamento e tresandando explosivamente a mijo, vomitado, fumo e gasóleo, ali para os lados do portuense Jardim de São Lázaro. A Mondinense era isso. E a João Carlos Soares é Arriva.
A Mondinense disputava então com a João Carlos Soares o negócio do transporte rodoviário colectivo de passageiros entre Porto e Fafe e vice-versa. Eu era passageiro. Sou passageiro. Os asmáticos autocarros da Mondinense, que, se não me engano, faziam a viagem pela serra da Agrela, via Santo Tirso, numa espécie de breve apresentação turística à Rota da Prostituição de Baixa Montanha, tinham escritório numa obscura garagem à beira do desabamento e tresandando explosivamente a mijo, vomitado, fumo e gasóleo, ali para os lados do portuense Jardim de São Lázaro. A Mondinense era isso. E a João Carlos Soares é Arriva.
Mas a explicação da expressão nossa? Perder a mondinense. Quer-se dizer: bebia-se e perdia-se a memória e esqueciam-se as horas. Esqueciam-se as horas e bebia-se e perdia-se a memória. Perdia-se a memória e esqueciam-se as horas e bebia-se. E assim se perdia a mondinense.
P.S. - Publicado originalmente no dia 10 de Fevereiro de 2019. Hoje é Dia do Agente de Viagens. No Brasil.
P.S. - Publicado originalmente no dia 10 de Fevereiro de 2019. Hoje é Dia do Agente de Viagens. No Brasil.
quinta-feira, 27 de agosto de 2020
Florencio Delgado Gurriarán 6
Enterro
Doces beizos, cadaleito
para os meus bicos gardar;
a branca lousa dos dentes
para na cova os pechar;
meniñas, fachóns dourados
para o cortexo alumar;
guedella, bágoa de mel
para por eles chorar;
o rouxinol da túa voz
para o responso cantar.
Dese xeito:
cóma non hei de matar
os meus bicos, na túa boca,
se bon enterro han levar?
"Cantarenas", Florencio Delgado Gurriarán
(Florencio Delgado Gurriarán nasceu no dia 27 de Agosto de 1903. Morreu em 1987.)
Doces beizos, cadaleito
para os meus bicos gardar;
a branca lousa dos dentes
para na cova os pechar;
meniñas, fachóns dourados
para o cortexo alumar;
guedella, bágoa de mel
para por eles chorar;
o rouxinol da túa voz
para o responso cantar.
Dese xeito:
cóma non hei de matar
os meus bicos, na túa boca,
se bon enterro han levar?
"Cantarenas", Florencio Delgado Gurriarán
(Florencio Delgado Gurriarán nasceu no dia 27 de Agosto de 1903. Morreu em 1987.)
terça-feira, 27 de agosto de 2019
Florencio Delgado Gurriarán 5
Dóres do agro
Fortes brazos de silveira
o camiño apadumaron;
anda a laiarse o silenzo
da puñelada dos carros
que lle fendeu as entranas;
pola forca dun arame
o parreiral enforcado
bota a lingua para afora,
o probe corpo estordega,
e remela os verdes ollos
nas ánseas da morte fera.
(Florencio Delgado Gurriarán nasceu no dia 27 de Agosto de 1903. Morreu em 1987.)
Fortes brazos de silveira
o camiño apadumaron;
anda a laiarse o silenzo
da puñelada dos carros
que lle fendeu as entranas;
pola forca dun arame
o parreiral enforcado
bota a lingua para afora,
o probe corpo estordega,
e remela os verdes ollos
nas ánseas da morte fera.
"Cantarenas", Florencio Delgado Gurriarán
(Florencio Delgado Gurriarán nasceu no dia 27 de Agosto de 1903. Morreu em 1987.)
Etiquetas:
Bebedeira,
Cantarenas,
cultura,
Dóres do agro,
Florencio Delgado Gurriarán,
literatura,
livros,
poesia,
poetas,
série Escritores
domingo, 27 de agosto de 2017
Florencio Delgado Gurriarán 3
Hino ao
viño
¡Groria a Deus!
Louvanzas a El-Señor,
que, encol da probe terra,
esta benzón botóu
do viño das cepeiras!
¡Groria a Deus!
¡Louvanzas a El-Señor!
Por nos redimir
Cristo o sangue deitóu;
aquel sangue
mouro acio o aparellóu;
na vindima
(nova e leda paixón)
o acio mouro fará de redentor
pra as penas desbotar
pra nos redimir da dor.
A navalla, cal Xuncras,
bico frío lle dará,
xudeus vindimaregos
terano de apreixar;
baixo os pes dun saión
o sangue deitará;
na campa dunha adega
terano de enterrar;
e ledo resurrexit
na mostada terá.
Na cunca, probe cálix
hase de comungar
pra limparnos de xenreiras,
pra de dôres nos ceibar,
pra esquecer falcatruadas,
pra o corazón aledar.
O acio mouro
sofriu fera paixón
¡Groria a Deus!
¡Louvanzas a El-Señor!
Nemigo das tristuras
e pai das risas,
amolece os traballos
da nosa vida;
fai falar aos calados,
nobre ao cativo;
se hai medo, da carraxe,
fogo, si hai frío.
El escorrenta os demos;
el quita o mal de ollo;
e faille a figa as meigas;
el resucita os mortos;
el da forzas
pra camiñar polo mundo;
onde el rixa
non hai choros nin luitos.
¡Groria a Deus!
¡Louvanzas a El-Señor!
"Cantarenas", Florencio Delgado Gurriarán
¡Groria a Deus!
Louvanzas a El-Señor,
que, encol da probe terra,
esta benzón botóu
do viño das cepeiras!
¡Groria a Deus!
¡Louvanzas a El-Señor!
Por nos redimir
Cristo o sangue deitóu;
aquel sangue
mouro acio o aparellóu;
na vindima
(nova e leda paixón)
o acio mouro fará de redentor
pra as penas desbotar
pra nos redimir da dor.
A navalla, cal Xuncras,
bico frío lle dará,
xudeus vindimaregos
terano de apreixar;
baixo os pes dun saión
o sangue deitará;
na campa dunha adega
terano de enterrar;
e ledo resurrexit
na mostada terá.
Na cunca, probe cálix
hase de comungar
pra limparnos de xenreiras,
pra de dôres nos ceibar,
pra esquecer falcatruadas,
pra o corazón aledar.
O acio mouro
sofriu fera paixón
¡Groria a Deus!
¡Louvanzas a El-Señor!
Nemigo das tristuras
e pai das risas,
amolece os traballos
da nosa vida;
fai falar aos calados,
nobre ao cativo;
se hai medo, da carraxe,
fogo, si hai frío.
El escorrenta os demos;
el quita o mal de ollo;
e faille a figa as meigas;
el resucita os mortos;
el da forzas
pra camiñar polo mundo;
onde el rixa
non hai choros nin luitos.
¡Groria a Deus!
¡Louvanzas a El-Señor!
(Florencio Delgado Gurriarán nasceu no dia 27 de Agosto de 1903. Morreu em 1987.)
Etiquetas:
Bebedeira,
Cantarenas,
cultura,
Florencio Delgado Gurriarán,
Hino ao viño,
literatura,
livros,
poesia,
poetas,
série Escritores
Subscrever:
Mensagens (Atom)