Vendo os companheiros afastarem-se, os dois garotos atiraram as marretas ao chão. O do pescoço alto partiu como uma flecha, espadeirando as poças de água com os pés nus e agitando os braços em gestos largos e desengonçados, a querer possivelmente significar que era um grande nadador. O outro seguiu, sacudido de riso. Chegaram antes de todos à taberna, mas o engraçado, incapaz de ali esperar, veio para a chuva, chamando os homens com os braços e reivindicando assim a iniciativa e a descoberta de tão magnífico abrigo.
Foram-se juntando no pequeno e escuro compartimento. Amontoados à porta, olhavam para fora a insinuar ao taberneiro que estariam ali só um instante a abrigar-se da chuva. As ocasiões de negócio eram porém raras e o taberneiro, apressado, pôs-se a lavar os copos já lavados, olhando os homens a pedir desculpa da demora em os servir. Seja pela vergonha de negar tão claro convite, seja porque lhes parecesse não poderem ali ficar todos sem gastar um tostão, seja pela força do pecado, três homens, com ar solene, chegaram-se para beber. Então todos os outros se instalaram mais à vontade, sentando-se uns à roda da mesa, fugindo outros do vão da poria, onde a chuva martelava trazida pelo vento.
- Já não temos outro dia - repetiu o homenzinho magro.
- Era bem precisa, era bem precisa - disse o velho, que não conseguira ainda, nem conseguiria nunca, ajeitar pelos ombros o minúsculo casaquinho.
"Até Amanhã, Camaradas", Manuel Tiago
(Álvaro Cunhal nasceu no dia 10 de Novembro de
1913. Morreu em 2005.)
Mostrar mensagens com a etiqueta Até Amanhã Camaradas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Até Amanhã Camaradas. Mostrar todas as mensagens
domingo, 10 de novembro de 2019
sábado, 10 de novembro de 2018
Álvaro Cunhal 4
Diante de um lago lamacento, ensopado em humidade, a estação, tal como a aldeia, parecia deserta. Ninguém no átrio, ninguém no balcão das bagagens, ninguém à bilheteira, ninguém no cais. Nem o ruído de uma voz, nem de qualquer trabalho. Só o tiquetaque da chuva e o gorgolejar de um ralo invisível. Chegado ao fim do cais o forasteiro, ao voltar para trás, deu de súbito com um empregado de calças de ganga e samarra de surrobeco, parado junto ao relógio e olhando distraidamente a linha.
A pergunta respondeu calmamente:
- O Zé Cavalinho deve estar por aí e já lho indica. Ele é lá desses sítios. E, olhando a chuva, acrescentou:
- E um grande ponto, o Zé Cavalinho.
Tirou do bolso uma lata com tabaco, serviu-se e ofereceu:
- Uma cigarrada?
O forasteiro limpou as mãos e fez o seu cigarro. Entretanto o ferroviário enrolara lentamente o tabaco, lambera a mortalha e procurava os fósforos no bolso.
A pergunta respondeu calmamente:
- O Zé Cavalinho deve estar por aí e já lho indica. Ele é lá desses sítios. E, olhando a chuva, acrescentou:
- E um grande ponto, o Zé Cavalinho.
Tirou do bolso uma lata com tabaco, serviu-se e ofereceu:
- Uma cigarrada?
O forasteiro limpou as mãos e fez o seu cigarro. Entretanto o ferroviário enrolara lentamente o tabaco, lambera a mortalha e procurava os fósforos no bolso.
- É um grande ponto, o Zé Cavalinho - repetiu pausado, ao mesmo tempo que expelia a primeira baforada. O forasteiro teve a clara ideia de que, antes de saber o que queria, teria de ouvir o outro, enquanto durasse o cigarro.
"Até Amanhã, Camaradas", Manuel Tiago
(Álvaro Cunhal nasceu no dia 10 de Novembro de 1913. Morreu em 2005.)
quinta-feira, 10 de novembro de 2016
Álvaro Cunhal 2
Súbitas rajadas de vento bufaram do Sul. Com estardalhaço, uma chapa de zinco vinda não se sabe donde voou de um lado da estrada, deu quatro pinotes grotescos e foi engarrafar-se, silenciosa e miserável, na valeta do outro lado. Logo uma bátega varreu a estrada. Os homens, já encharcados pelos chuviscos que caíam desde o alvorecer, procuraram abrigo junto aos troncos esbeltos dos pinheiros. Só dois rapazitos se deixaram ficar a britar pedra, rindo dos homens que fugiam à chuva. Encolhidos e colados às árvores, os homens gritaram que se abrigassem. Vendo-se observados, os rapazitos mais riram ainda e um deles, sempre britando pedra, começou a esticar o pescoço alto e esgalgado, pondo os olhos em alvo e lambendo a água que lhe escorria cara abaixo. O outro, piscando os olhos, olhava o companheiro, olhava os homens e parecia dizer: “Somos engraçados, não somos?”
- Vejam aqueles diabos - disse um velho, procurando enrolar-se num casaco tão pequeno que dir-se-ia de criança.
O homenzinho magro a quem se dirigia encolheu os ombros.
- Já não temos outro dia - disse numa voz branda e cansada.
Como para lhe dar razão, o vento soprou mais forte, o ar escureceu, o céu pegou-se à terra, os fios de água continuaram a engrossar. Um a um, os homens largavam então os fracos abrigos. Alguns em passo forçado, outros em corridas curtas, outros com seu passo natural, como achando indigno apressar-se por coisa tão pouca, dirigiram-se a uma casa isolada que a uma centena de metros parecia agachar-se debaixo da chuva. Havia ali uma taberna e, se nem todos estavam dispostos a beber, ao menos sempre teriam um tecto em cima.
"Até Amanhã, Camaradas", Manuel Tiago
(Álvaro Cunhal nasceu no dia 10 de Novembro de 1913. Morreu em 2005.)
- Vejam aqueles diabos - disse um velho, procurando enrolar-se num casaco tão pequeno que dir-se-ia de criança.
O homenzinho magro a quem se dirigia encolheu os ombros.
- Já não temos outro dia - disse numa voz branda e cansada.
Como para lhe dar razão, o vento soprou mais forte, o ar escureceu, o céu pegou-se à terra, os fios de água continuaram a engrossar. Um a um, os homens largavam então os fracos abrigos. Alguns em passo forçado, outros em corridas curtas, outros com seu passo natural, como achando indigno apressar-se por coisa tão pouca, dirigiram-se a uma casa isolada que a uma centena de metros parecia agachar-se debaixo da chuva. Havia ali uma taberna e, se nem todos estavam dispostos a beber, ao menos sempre teriam um tecto em cima.
"Até Amanhã, Camaradas", Manuel Tiago
(Álvaro Cunhal nasceu no dia 10 de Novembro de 1913. Morreu em 2005.)
Subscrever:
Mensagens (Atom)