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quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

Manuel Lopes 3

A palavra

te lavo e lavro
palavra / pão
polida pedra
de construção

do quanto faço
deste edifício
em que elaboro
fé e ofício,

te esculpo e bruno
verbo / canção
no diário labor
de artesão.

te louvo lume
e pedra d'ara
com que ergo o templo
da flor mais cara

e clara: poesia
com que reparto
os sóis do meu dia
o suor do meu dia
o fel do meu dia

as mazelas do homem
as amargas vidas
o pão subtraído
as pagas devidas

a paz relativa
a justiça rara
a fome de todos
a morte na cara
da criança. o aço
que o corpo nos cava,

a fé o cansaço
desta luta brava

a fartura a poucos
de muitos tomada

o chão proibido
a água negada

o amor que rareia e
a festa sonhada
...

palavra larva
semente pura
que em mim explodes
de sons madura,

te lavo e lavro
verbo / canção

te louvo lume
poema / pão

manhã sonhada
meu sim / meu não.


Manuel Lopes

(Manuel Lopes nasceu no dia 23 de Dezembro de 1907. Morreu em 2005.)

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Manuel María 2

A palavra

Nós, de verdade, unicamente temos
a palavra. Só a palavra verdadeira
pode traduzir a fecha
e insondável soidade do nosso ser.
Só a palavra. A própria.
A que pertence à nossa língua.
A que amamos. A que usa,
conhece e reconhece a nossa gente.
Sem a palavra seria a pobreza,
a miséria total, a impotência
a escuridade e o nom ser.
Mas hai quem manipula, força,
retorce, desfai e prostitui
o autêntico senso da palavra.
Hai quem mente. E ainda hai
o frio, feroz assassino da palavra.

"A Luz Ressuscitada", Manuel María

(Manuel María nasceu no dia 6 de Outubro de 1929. Morreu em 2004.)