Ainda não podemos ler jornais mas já nos permitem a leitura de alguns livros: só aqueles que a Censura da cadeia tiver como inofensivos para o nosso espírito.
Quem exercerá as funções de Censor? O director da Cadeia nas horas livres dos seus cuidados de hortelão e criador de galinhas? O director da P.I.D.E. ou algum dos seus inspectores? Seja quem for, da casa, estamos sossegados. Os mais cultos pertencem àquela classe de analfabetos que sabem ler e escrever.
Nenhum livro dos que me enviaram me foi interdito. Tratava-se evidentemente de simples formalidade. A Censura não podia deixar de ser um dos órgãos da P.I.D.E. Tinha de assinalar a sua existência. O Estado Novo é um sistema de bolas chinesas: uma grande bola dentro da qual se contém e gira outra bola mais pequena, que por sua vez contém bolas, sempre menores e também cheias de bolas, até à insignificante e última que é maciça. No Estado Novo há um ditador e muitos ditadorzinhos concêntricos, uma Censura e muitas censurazinhas, uma Propaganda e muitas propagandazinhas, etc. Em Caxias gira uma das bolas interiores do sistema com o seu ditador, a sua censura, a sua polícia e a sua propaganda.
"Crónica de Horas Vazias", Henrique Galvão
(Henrique Galvão nasceu no dia 4 de Fevereiro de 1895. Morreu em 1970.)
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