quinta-feira, 28 de abril de 2016

Sardinhamente falando (em honra da Dona Dina)


Foi um mau ano. Em tempo de balanço, há que dizer com toda a frontalidade que as sardinhas, em 2011, foram uma merda. Eu ainda tive a sorte de as apanhar três ou quatro vezes mais ou menos ajeitadas (uma dessas vezes, felizmente, pelo São João), mas de resto foi um annus horribilis sardinhamente falando. Nem durante os famosos meses sem "r" as sardinhas assadas alcançaram o patamar de excelência exigido pelo apreciador, apresentando-se, mesmo nessa época, tendencialmente secas e desenxabidas, como se fossem o Cavaco Silva. Uma desgraça, portanto.
É. A sabedoria popular ensina, e bem, que Maio, Junho, Julho e Agosto são os melhores meses para comer sardinha assada. É quando ela pinga no pão. Mas a Dona Dina, que Deus tem, dizia-me que de Junho a Dezembro eu podia comer as suas sardinhas à confiança, e eu comia e ela tinha razão. A Dona Dina era uma pessoa muito boa e a melhor assadeira de sardinhas do mundo. As sardinhas assadas da Dona Dina eram não mais do que douradas e traziam sempre o mar dentro.

Ontem, na peixaria, uma senhora perguntava se "As sardinhas..." e foi logo interrompida pela peixeira, que lhe respondeu "Estão muito boas, as sardinhas ainda estão boas". É claro que não estão, e logo neste ano de colheita medíocre, mas a peixeira tem que fazer pela vida. Eu trouxe biqueirão.
Já experimentaram, decerto já, tirar a cabeça aos biqueirões, abri-los pela barriga retirando-lhes a espinha, que sai muito facilmente, temperar estas "costeletas" com sal, pimenta preta moída na hora, limão e um quase-nada de alho picado, e deixá-los neste preparo aí umas quatro horas, duas para cada lado? E depois passá-los por ovo e pão ralado e fritá-los sem deixar queimar? E fazer entretanto um arrozinho de bacalhau com trocinhos de tronchuda? Arroz carolino, já se sabe, que se transforma com o peixinho num verdadeiro manjar de deuses. Mas decerto já experimentaram.
Dica: as espinhas saem ainda mais facilmente se os biqueirões forem do dia anterior. Mas, para mim, peixe ou é do dia ou já não é peixe. Em miúdo, muito gostava eu de ouvir às peixeiras de Fafe o pregão "É da biba, olha a bibinha", e ficava-se logo também a saber que as sardinhas nesse dia seriam mais caras. Mas eram "como prata". Hoje tenho a sorte de morar em Matosinhos, a dois passos do porto de pesca e da lota. O mais das vezes trago para casa peixe vivo, literalmente vivo, que os pescadores dos barcos pequenos estão a acabar de entregar. O que me levanta alguns problemas, operacionais e... de consciência. Um dia tive com uma solha uma luta cujos pormenores não conto nem quero lembrar. Ganhei, mas portei-me mal. E só à mesa é que me perdoei.

(Texto escrito e publicado no dia 23 de Dezembro de 2011. Junto-lhe hoje uma fotografia da Dona Dina que aqui atrasado encontrei por acaso num novo restaurante de familiares da querida e saudosa senhora, também na Apúlia. Já nos livrámos do Cavaco, graças a Deus, mas, quanto ao demais, nada mudou nos últimos cinco anos em Portugal: as sardinhas continuam substantivamente fracativas e nunca mais apareceu ninguém que lhes saiba dar as voltas e a volta como a Dona Dina sabia. A verdade é esta: a Dona Dina faz-nos falta.)

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